África do Sul, Viagem

Uma história da África do Sul: Melanie, a ranger

Aos nove anos Melanie fez um safári na África do Sul com seus pais e decidiu que era isso que queria da vida. “Uma hora o ranger parou o jipe e disse para ficarmos quietos. Depois de uns cinco minutos, ele abriu a porta e colocou o pé esquerdo para fora, bem devagar. Numa fração de segundo os leões que estavam nos observando apareceram. Voltei para casa querendo saber como fazer isso”.

Hoje, aos 28 anos, Melanie é park ranger e vive dentro da Gondwana Game Reserve, em Mossel Bay, extremo sul da África. Desde que ouviu o chamado ela teve que aprender uma porção de coisas que eu e você jamais saberemos. Coisas como seguir rastros de elefantes e reconhecer hábitos de toilette dos rinocerontes. Enquanto dirige o parrudo jipe de onze lugares da reserva, ela fala apaixonadamente sobre animais, Jurassic Park e Power Rangers. Só pára de falar quando sabe que há algum animal por perto. Ela conhece os horários e locais habituais da população de Gondwana – leões, girafas, elefantes, gnus, antílopes, zebras, impalas, babuínos, palancas, kudus. Seu trabalho é segui-los e encontrá-los.

Ao invés de fazer faculdade na França, onde nasceu e morou com os pais boa parte da vida, Melanie foi bem na escola, aprendeu inglês e afrikaner e se dedicou a estudar os guias e manuais exigidos para tirar o visto de trabalho e a licença obrigatória para quem quer trabalhar como ranger num parque nacional como o Kruger (o mais antigo e mais famoso, na fronteira com Moçambique) ou numa reserva privada como Gondwana (uma entre dezenas só na África do Sul).

Os testes medem aptidão e conhecimentos de veterinária, biologia, botânica, armas de fogo, legislação, psicologia animal e até um tanto de psicologia humana. “Você tem uma chance”, conta Melanie. “Se não passar, acabou”. Ela passou.

Melanie (e uns bloggers)

Melanie (e uns bloggers)

É uma carreira e tanto. Você trabalha ao ar-livre, coleciona ótimas histórias no dia a dia e participa ativamente na manutenção de eco sistemas em risco. Mas é um trabalho duro também. Rangers (em Gondwana são seis no total) fazem de tudo um pouco: levam visitantes em safaris, cuidam da mecânica dos jipes, da integração de animais novos na reserva, da manutenção dos alojamentos. Como são as pessoas que mais circulam na reserva todos os dias, é deles a responsabilidade de perceber e atuar em caso de alteração no comportamento dos animais ou plantas e manter em perfeito funcionamento coisas como os portões que isolam as safe zones, onde ficam os chalés dos turistas e não há grandes espécies circulando. Alguns rangers também tem treinamento militar específico para trabalhar como guarda-costas de espécies ameaçadas de extinção.

Gondwana é uma reserva jovem e ainda tem poucos animais circulando. Foi criada há dez anos usando o terreno de uma antiga fazenda de gado, que hoje hoje pertence a um casal jovem que visita a reserva todos os meses – ele de uma família do ramo hoteleiro de Cape Town, ela uma advogada norte-americana. Os quartos para turistas existem há menos de seis anos e as vilas (casas de campo), são de proprietários particulares, a quem não é permitido viver na reserva. Grandes, com pelo menos quatro quartos, as vilas abrigam grupos de amigos ou famílias (ou, no meu caso, bloggers).

A paisagem de Gondwana é espetacular: montanhas, árvores altas, vegetação fechada. Sempre soprando um ar frio. Não é bem o que você imagina quando pensa num safári africano. Algumas espécies presentes na reserva, como girafas, não são nativas dali. Melanie vê isso como um bem-vindo desafio e explica que animais podem ser comprados pela reserva ou “adotados” quando precisam ser reintegrados à natureza. Uma vez soltos, são monitorados todo o tempo. Dentro da reserva estão, na teoria, protegidos contra caçadores. Mas não é incomum que caçadores entrem ilegalmente nas reservas atrás de chifres de rinocerontes, peles de guepardos, exemplares de leões. Há um mercado para tudo isso, e ele só aumenta. A localização dos animais hoje importa menos do que sua segurança: há tão poucos exemplares de algumas espécies que importa apenas que estejam vivos e livres.

Melanie é apaixonada pelo que faz. E paixão é o mínimo se você precisa acordar às três e meia da manhã para sair na chuva, buscar turistas sonolentos em seus chalés confortáveis e passar o resto da manhã, munida de capa e binóculo. tentando encontrar animais enquanto pilota um jipe por estradas de terra. Circulando por Gondwana em busca da manada de elefantes (que não achamos) ela discursa sobre verdades do safári (“você vê mais ou menos 10% do que está vendo você”), comportamento das zebras (sofrem de gases, coitadas) e hipopótamos (sabia que esse gigante aquático é o maior responsável por mortes de humanos? true story!). Até estacionar o jipe no topo de uma colina, perto de uma dupla de girafas, para montar a mesinha e servir chá, café e biscoitos para nós, turistas. Um café-da-manhã de safári que Melanie prepara com graça e empolgação. Ela tem a tranquilidade de uma pessoa que sabe que está onde deveria estar.

Melanie: feliz da vida enfrentando os cinco graus das manhãs de Gondwana.

Melanie: feliz da vida enfrentando os cinco graus das manhãs de Gondwana.

O momento mais visível dessa empolgação é quando, no último safári da nossa curta temporada, ela avista um pequeno felino caçando dentro de um vale – olhos treinados, eu só conseguia ver umas moitas. Encontrou um serval! De orelhas enormes e tamanho de gato doméstico, o serval anda sozinho, caça de noite e é difícil de ver. Foi a primeira vez que Melanie viu um na natureza. Depois de avisar os outros rangers pelo rádio e nos contar tudo o que há para saber sobre esse gato do mato super-desenvolvido, Melanie relaxou no banco, pronta para voltar para a sede. “Acho que esse foi meu momento mais feliz como ranger até hoje”.

Essa é parte da graça do safári – às vezes não é um bando de leões que vai fazer seu coração bater mais rápido, mas um furtivo serval caçando roedores no meio da neblina antes do sol nascer. Esses encontros e os desafios de criar uma nova reserva são o motivo principal para Melanie ficar em Gondwana. Ela acredita que a integração de espécies aqui ajuda a preservar esses animais para próximas gerações.

Tenho certeza que Melanie vai acabar inspirando jovens visitantes a seguirem o mesmo caminho. E não acredito que exista no mundo missão mais importante do que inspirar uma criança a cuidar do próprio planeta.