Música

Amy: everybody loves you when you’re dead

Amy Winehouse

Hoje faz dois anos que a Amy Winehouse morreu – foi em 23 de julho de 2011. Lembro do momento em que recebi a notícia, deitada no sofá de casa, via twitter. Era sábado, fazia frio, meu filho estava vendo desenho do meu lado, ainda morávamos na casa de vidro da Granja Viana. Fiquei olhando pro teto, chorei um pouco.

O pequeno quis saber o motivo. Expliquei que era uma cantora de quem a mamãe tinha gostado muito, mostrei uma foto e ficamos juntos vendo vídeos da Amy no youtube. Pouco depois tocou o telefone: era a MTV chamando pra um especial ao vivo pra falar sobre a morte da cantora, com uma hora de duração. “Mas é pra falar de como ela era legal, é pra colocar pra cima,” avisou o diretor.

Ainda bem. Em menos de dez minutos de confirmação pública de óbito as pessoas já tinham começado o show obrigatório nas redes sociais. “Bem feito, quem mandou não se cuidar?”, “Nossa, mas era tão talentosa, não tinha um amigo pra ajudar a sair do buraco?”, “Coitada, tão talentosa, fica o aviso, olha, drogas são um horror mesmo”.

Não demorou pra alguém colocar no balaio dos malditos que morreram aos 27 anos de idade. Claro: a Amy só precisava morrer para adentrar o panteão dos gênios incompreendidos. Virou ícone, exemplo, aquela merda toda.

Viva, foi alvo de todo o tipo de chacota e abuso por parte da imprensa e do público. E também despertou admiração. Todas as meninas do mundo usaram o delineador grosso que foi sua marca registrada. Todo mundo quis ser um pouco Amy, incluindo uma ou outra cantora brasileira. Mas só na casca, claro. Quem é que quer perder o amor da vida, deixar passar a oportunidade de abrir show dos Stones, não aparecer no estúdio pra gravar tema de filme do 007 com o Mark Ronson, morrer sozinha em casa, vítima de bulimia? Nem. As meninas, e alguns meninos, só queriam emular a liberdade de Amy.

Compreensível: a moça judia nariguda apareceu com look, atitude, referências e voz diferentes de tudo que estava rolando em 2006/2007. Mesmo em sua espetacular e altamente documentada descida pessoal ao inferno, ela exerceu um magnetismo irresistível. Isso tem nome: verdade, talento, personalidade. Não se compra nem se vende, e Amy sabia disso. Encantou geral porque era diferente e foi diferentemente verdadeira até o fim, pagando o preço por não se importar em ser o bom exemplo que a geração dela exige.

Por ela ter sido quem foi até o fim, fui sua fã até o fim. E há exatos dois anos fiz o primeiro ao vivo da minha vida para dizer que Amy não tinha nenhuma obrigação de ser feliz, saudável e bem-sucedida. Como fã, só queria que ela tivesse gravado mais um disco.

PS. Estava em Londres quando a cidade lembrou um ano da morte da Amy. No tube, um grupo de meninas ia em direção à casa dela em Candem Town levando flores, usando delineador e lenços amarrados no cabelo: a homenagem mais doce que a Amy poderia ter.