Prosa

“Posso ser tímido, mas quando escrevo não tenho medo de nada”.

“Posso ser tímido, mas quando escrevo não tenho medo de nada”.

Essa é uma das frases anotadas no caderno que levei pra Book Passage Travel Writers & Photographers Conference, em agosto passado na Bay Area de São Francisco. Quem falou foi o Tim Cahill, escritor e fundador da Outside Magazine, um tio bem-humorado, divertido e cheio de histórias hilárias. Ao lado dos colegas de profissão Don George, Tony Wheeler, Andrew McCarthy, David Farley e da espetacular Georgia Hesse Hill é parte do corpo docente do encontro. Todos eles seriam campeões na Teoria Geral da Cerveja aqui em casa.

Fiquei sabendo sobre a conferência folheando esse livro do Don George para a Lonely Planet no começo do ano. Pareceu uma boa idéia nessa fase entre fases que estou. Fiquei totalmente convencida após telefonar e conversar com uma das responsáveis. Não que ela tenha tentado me vender um pacote, nada assim. A simpatia e a boa vontade com o delay da ligação internacional deram certeza – esse é um pessoal bacana, generoso, gentil.

E um pessoal legal é exatamente o que preciso depois de uma temporada trabalhando na televisão e anos no dificílimo jornalismo cultural brasileiro. Comprei as passagens, fechei um quarto numa casa de família via AirBnb e em meados de agosto estava comendo um sanduíche no ensolarado pátio da Book Passage de Corte Madera, uma livraria térrea com vários ambientes inundados por luz natural e cheiro de café.

BPstage

“Querer ser escritor era como querer ser deus. Eu não conseguia falar com ninguém sobre isso”.

Outra frase do Cahill. Meu caderno cor-de-rosa está tão cheio frases rabiscadas em letra frequentemente ilegível que no último sábado tirei uma tarde para organiza-las. Se escrever muitas vezes faz uma informação ou idéias grudar na cabeça, re-escrever é ainda melhor.

“Adoro estar em casa, mas depois de seis semanas você tem que ir pra algum outro lugar” (Tony Wheeler, criador da Lonely Planet);
“Os livros de viagem de Paul Theroux mudaram minha vida” (McCarthy, que antes de ser um bom escritor foi galã de filmes como Pretty in Pink, true story, e os livros de viagem do Theroux mudaram minha vida também, sem exagero);
“Você acaba aprendendo a gostar de uma refeição ruim” (Celeste Brash, autora poliglota de uma porção de guias sobre o sudeste asiático);
“Quando você está na estrada, não é a melhor pessoa que pode ser?” (aí, não anotei e não sei quem mandou essa, mas é real).

O problema é que, como quase tudo na vida, as frases perdem boa parte da graça quando fora do contexto. Então, na esperança de fazer desse um post útil, escolhi traduzir uma lista que apareceu na aula ministrada pelo David Farley (que lançou esse livro excelente e é colaborador, entre outras, da Afar) e pelo Jim Benning (criador do ótimo WorldHum e atual editor da BBC Travel) imediatamente após garantirem que não iam falar sobre listas. O tema era “Writing the Big Five”, quatro longas manhãs conversando sobre diferentes tipos de conteúdo, press trips, self-publishing e sobre como ter uma relação feliz, estável e honesta com seu editor.

8 razões para ser um travel writer

1. Você viaja (às vezes com despesas pagas!)
2. Você se torna um observador melhor.
3. Você perde o medo.
4. Você tem uma desculpa para falar com quem quiser.
5. Você tem uma desculpa para escrever sobre os grandes temas da humanidade, como história, geografia e filosofia, sem precisar apresentar Phd.
6. Você reflete sobre o ato de viajar.
7. Escrever é divertido.
8. É o trabalho mais cool do mundo.

Drown yourself.

Drown yourself.

Book Passage Travel Writers & Photographers Conference é um encontro anual de escritores de fotógrafos de viagem, na 23ª edição. O evento cobra uma taxa de participação que é a mesma para todo mundo (descontos são concedidos aos alunos de anos anteriores). A conferência segue um modelo baseado em aulas e workshops e dura quatro dias. Além da programação normal, há a chance de discutir idéias para livros ou ter seu trabalho analisado em conversas privadas com alguém do corpo docente. Não é uma competição de quem viaja pros locais mais exóticos, nem uma exibição de trabalhos publicados e nem uma corrida de networking. É um ambiente rico, informal, generoso e positivo. Do autor de guias de viagem com vinte e cinco anos de experiência a senhorinha aprendendo a fazer blog, todo mundo é bem-vindo.

Bem recebida foi exatamente como me senti, mesmo com a barreira da língua sempre presente. A próxima edição é no fim de agosto de 2015 e abertura das inscrições é anunciada nesse link. Nos vemos lá!

 "The world is not about you and I", Georgia Hesse. Tietei mesmo.

“The world is not about you and I”, Georgia Hesse. Tietei mesmo.