Mas Você Vai Sozinha?, Prosa

Aquela coisa do livro

Não sei direito quando foi que essa ideia de escrever um livro entrou na minha cabeça, mas desconfio que sempre esteve comigo. Meio como o ato de escrever.

Sempre escrevi. Quando pequena, queria tanto entender as palavras que aprendi a ler sozinha usando os livros que minha mãe, ela mesma uma leitora voraz, comprava. Fui a primeira criança da sala a ler. Atravessei a infância lendo. E talvez por ler muito, talvez por não saber me expressar outra forma, segui escrevendo durante a adolescência. Você sabe: sonetos, traduções de musicas, diários depressivos, material suicida.

A escrita só se tornou algo sério quando entrei pro jornalismo musical no começo dos anos 00. Demorou tanto para essa atividade se tornar profissional que o afã por musica independente deixou de fazer sentido assim que virou emprego. Encarei um período trabalhando com televisão e quando isso acabou foi hora de criar coragem pra responder a questão do “que vou fazer com a minha vida”.

Viagem foi um assunto natural. As pessoas estão viajando como nunca, posso escrever sobre o Brasil para publicações estrangeiras em inglês e a literatura de viagem é excelente desculpa para aprender sobre história, geografia e arte. Foi escrevendo sobre viagem que encontrei a tal da minha “voz”. Se você é escritor, a chance é que sabe do que falo. Encontrar sua voz é quando as palavras começam a fluir, quando você finalmente sabe o que dizer, enxerga a correta ordem de palavras e soa como você mesmo. É mágico e totalmente real. E por causa dessa voz, escrever é a única coisa que quero mesmo fazer. Mesmo que de vez em quando tenha que criar material não exatamente instigante para multinacional ou servir de host de web tv. Sou culpada desses pecados e outros, como aceitar press trips, escrever listinhas tirando onda dos meus compatriotas em site gringo e sempre deixar o tal do livro pra depois.

A ideia existe faz tempo. Quis escrever sobre meu pai, sobre musica eletrônica brasileira dos anos 90, sobre rock inglês. Mas em 2014 uma ideia melhor começou a tomar forma: coletar histórias, tanto as escritas no blog quanto as esquecidas na caixa de cadernos e montar uma coleção de crônicas de viagem. Começou como projeto para editora independente. Levei seis meses para re-escrever dois textos do blog e criar uma proposta. E junto com o processo, nós entramos em crise. Por “nós”  quero dizer o mundo. O Brasil. São Paulo. Minha família. Eu.

Primeiro veio a morte do meu avô, O Grande Patriarca Italiano e figura mais importante da minha vida. Ele estava velho, doente e cansado, e eu sabia que essa hora ia chegar, mas não estava pronta. Minha família também não estava: quebramos e seguimos catando cacos. No meio do furacão, briguei com meu pai e minha mãe. Perdi meus dois trabalhos fixos. O namorado achou que era uma boa hora para cair fora. A editora independente rejeitou o livro. Aliás, nessa época todos os meus pitches (jargão pra sugestão de reportagem) foram negados.

De repente eu não era mais uma mulher interessante e feliz, casada com um moço de sorriso bonito. Eu era uma mãe solteira balzaquiana, sem emprego nem formação, vendendo o carro pra pagar dívida de cartão de crédito, vivendo sozinha num apartamento minúsculo, responsável por um garoto pré-adolescente e dois gatos. Em resumo: deu ruim.

E percebi que ninguém quer ouvir uma pessoa semi bem-sucedida falando sobre como a vida dela é ótima, mas as pessoas gostam de saber o que acontece quando essa pessoa cai na real. Perdendo tudo, passei a aceitar qualquer convite para escrever qualquer coisa. Escrevi sobre bandas que não conheço, sobre arquitetura modernista que nunca vi, sobre remédio para gripe. E continuei viajando. Em um ano mergulhei com tubarões na África do Sul, tomei Ayahuasca na Colômbia, vi as florestas de sequóias dos EUA, naveguei o Rio Negro no Amazonas e caminhei no fog de Veneza no inverno. Escrevi sobre isso também. E escrevi sobre o lugar onde gosto de tomar café perto de casa, sobre os cantos escondidos da Vila Madalena, sobre a fina arte de viajar com pouca bagagem.

Nessa rotina de escrever todos os dias alcancei o ponto em que a ideia do livro finalmente bateu. A tal da “voz” me encontrou e é nesse lugar imperfeito e tranquilo que estou agora. Com a gata preta no colo, ouvindo chorinho e encarando a garrafa de whisky que se recusa a terminar porque sou devagar com bebida.

Escrevendo um capítulo de cada vez, todos os dias.

 


 

UPDATE: o livro saiu e chama “Mas Você Vai Sozinha?”. Tudo sobre ele aqui.