Comida, Portugal, Viagem

Portugal Food Stories: arroz com sangue no Minho

A maitre, impecável num colete preto sobre camisa branca, voltou com meu prato. Assim que pousou na minha frente, vi um arroz castanho-vermelho, cheio de caldo e aroma: canela, cominho, carne de bicho. Nada disso disfarça o cheiro metálico de sangue.

O arroz de sarrabulho é a iguaria para comer na região do Minho, no norte de Portugal, e restaurante como o Sabores de Lima, e turístico até no nome, não ia deixar por menos. Se uma cidade pode ser definida por sua comida mais típica, então Ponte de Lima é uma terra de fartura. Numa única refeição tivemos mariscos (que vem da costa), vitela (do gado minhote da região), bacalhau (bom, como em todo lugar em Portugal) e embutidos deliciosos de porco, feitos num fumeiro próximo.

E porque não é pesado o suficiente, pode-se comer acompanhado de uma seleção de embutidos como tripas e linguiça de sangue.

E porque não é pesado o suficiente, pode-se comer acompanhado de uma seleção de embutidos como tripas e linguiça de sangue.

O arroz, que leva vaca, porco e frango na receita , é a estrela da mesa, servido em restaurantes e residências e indicado em qualquer guia da região. É levado a sério a ponto de em 2006 os pontelimenses terem criado uma confraria dedicada a manter as tradições da receita. Cada família tem sua versão, como sempre acontece, mas a receita mais conhecida é mais ou menos assim:

(receita do site Cozinha Tradicional para 10 pessoas)

  • ½ coração de porco
  • 1 cravinho
  • 1 folha de louro
  • 1 kg de arroz
  • 150 g de chouriço de carne
  • 250 ml de sangue de porco (com um pouco de vinagre para não coagular)
  • 500 g de carne de vaca (ganso redondo)
  • 500 g de costeletas de porco
  • 500 g de galinha gorda
  • 500 g de ossos do assuão
  • sal, pimenta, noz-moscada e cominhos q.b.
  • sumo  de limão q.b.

Coloque as carnes todas a ferver em cerca de 3 litros de água, com o louro, o cravinho, noz-moscada, sal e pimenta a gosto. Deixe cozer muito bem, retirando-se a espuma à superfície. Quando as carnes estiverem cozidas, deixe-as arrefecer um pouco e desfie-as. Retire a gordura em excesso da calda de cozer as carnes, retifique os temperos e deixe levantar fervura, acrescentando a água necessária. Junte o arroz e, a meio da cozedura, adicione as carnes desfiadas e o sangue liquefeito. Deixa-se ferver em lume brando até o arroz estar cozido. Por fim, junte o sumo de limão, o cravinho e os cominhos em pó. Sirva o arroz de imediato e ainda “malandrinho”.

Aqui tem um vídeo.

Pesado, sim. E delicioso também. Melhor ainda se acompanhado do forte vinho local, chamado Minhão: tão escuro que se bebe numa malga de cerâmica branca, para melhor admirar a “lágrima” vermelha. A melhor parte: sair do restaurante depois de uma refeição de dez (!) pratos e curtir a lombra vendo no lento Rio Lima passar. O clichê interiorano “esquecer da vida” aqui ganha outro peso, como a vila gosta de lembrar, por causa de uma lenda do tempo da ocupação romana.

O Rio do Esquecimento, Porte de LIma, Portugal

Depois da capital, da costa e do norte, seguimos agora para o leste e para o sul: o Alentejo.

*

Estou em Portugal com o #PortugalFoodstories, um roteiro promovido pela APETECE, entidade que promove o patrimônio gastronômico de Portugal.

Acompanhe meus posts nessa tag e siga o mapa nesse link.