Chile, Viagem

A bordo do Yaghan

A bordo do Yaghan. Patagonia chilena, 2017.

O refeitório no térreo do Yaghan era todo em plástico azul e tinha cheiro de comida envelhecendo no buffet. Deixei em cima da mesa minha cópia de “Na Patagônia” do Chatwin e minha garrafa térmica com chá preto, e levantei pra pegar um pouco de mingau de aveia com mel. Minutos depois, enquanto eu tentava ignorar a dor de cabeça que sinto quando falta café, todo mundo voou na direção das janelas do lado direito. A voz aguda de uma das crianças do navio explicou: “mira las orcas, maman!”

Era um grupo de baleias orcas subindo e descendo no mar ao lado do navio. Não teria visto sozinha, mas reconheci as manchas pretas e brancas deslizando barbatanas assim que ouvi o nome. Também não tentei tirar fotos pra não estragar o momento que durou minutos, talvez segundos, pareceu duas horas.

Pra quem vive na terra, estar em alto mar é estranho. Tem quem enjoe, quem não consegue dormir, quem sente sono.  Eu perco noção de tempo.

Imaginei que as orcas deveriam estar atrás dos lobos e leões marinhos dos mares frios do fim do mundo, tão numerosos que eu nem reparava mais neles. A viagem já tinha levado umas trinta horas e nada no cenário indicava que estivesse perto de terminar. Mas, como já disse, era difícil ter noção de tempo. Não fosse a insistência em olhar a tela do celular em busca de sinal 3G (nunca apareceu) eu nem saberia as horas.

A viagem no Yaghan não foi a viagem de navio cargueiro que sempre sonhei, ainda sonho em fazer. Até porque o Yaghan não é um cargueiro. É um pequeno barco de transporte que uma vez por semana trafega pelos canais ao sul do Estreito de Magalhães, levando gás, móveis, veículos e viajantes como eu.

Além do mais, foi uma viagem curta, mesmo com cinquenta e tantas horas de duração. Cinquenta horas no mar não é muita coisa.

A viagem a bordo do Yaghan começa em Puerto Williams, na Isla Navarino, a cidade mais austral do mundo, um povoado meio sem graça espremido entre o Cabo Horn ao leste e os dramáticos picos triangulares dos Dientes de Navarino ao oeste (escrevi sobre isso, leia aqui). O jeito mais rápido de chegar ali é a partir de Ushuaia, no lado argentino do canal, parando no controle de fronteira e seguindo de carro até a vila. Claro que em se tratando de uma ilha boa parte da população tem barcos pra fazer esse rolê. Mas turistas como eu precisam se virar, o que significa pagar caro pela travessia e não reclamar quando demora.

Puerto Williams e o Yaghan nem estavam no meu roteiro. Cheguei em Ushuaia no último dia de temporada de verão planejando ficar ali uns dez dias e voltar pra vida mundana (naquele momento chatíssima) em São Paulo. Entendi que isso não ia acontecer quando o dono do quarto que eu tinha alugado levantou as sobrancelhas e exclamou “dez dias aqui? por quê?” e eu não soube responder. Na manhã seguinte, servindo café da manhã, ele forrou a mesa com mapas e fotos pra me explicar que “Moça, veja bem, a Patagônia é incrível, tem dezenas de lugares lindos pra você visitar, não há motivo algum pra ficar só aqui. E mais, depois desse fim-de-semana quase tudo fecha. Eu mesmo não estava pensando em ficar aqui.”

no Yaghan

Frio demais pra ficar no deque.

Entendi. Acabei trocando minha passagem de avião e ficando em Ushuaia só três dias. Na manhã seguinte, repartindo goles de café preto e porções de pão integral, meu senhorio me ajudou a montar um semi-roteiro começando na Isla Navarino, território chileno, e acabando em El Calafate, de volta à Argentina, de forma que eu poderia passar pela cidade histórica de Punta Arenas e por Puerto Natales, a porta de entrada para Torres del Paine, viajando de barco e ônibus, vendo um pouco de tudo.

No segundo dia, andando no cais de Ushuaia, consegui localizar um única companhia fazendo travessia com barcos para Puerto Williams em abril. Dei sorte: havia um na manha seguinte. “Tem lugar?” “A gente dá um jeito de te acomodar” respondeu a argentina com alguma ironia. Entendi na manhã seguinte, quando lá estava eu com minha roupa de frio, passaporte e mochila, enfrentando o vento patagônico (capaz de arrancar o trem do trilho num dia inspirado) ao lado de quatro únicos colegas de viagem (um austríaco que ia subir as montanhas, uma argentina de Rosario que ia visitar a prima e um casal que não falou com ninguém). O marinheiro argentino responsável por nos atravessar, morador de Puerto Williams, apareceu depois de uns quinze minutos atrasado e nos colocou dentro da cabana da autoridade portuária. A travessia por mar leva algo como meia-hora, o suficiente para a argentina de Rosario me apontar um albatroz e dar gritinhos de alegria. 

Ví mais albatrozes a bordo do Yaghan. São reconhecíveis por causa da enorme envergadura, que pode chegar aos três metros e meio. Também vi gaivotas, mas essas só aparecem quando perto da terra. E as orcas, que me fizeram pensar no meu filho, no tanto que ele gostava de animais marinhos quando pequeno e em como nesse momento ele provavelmente estaria jogando videogame com os amigos no quarto com as janelas fechadas na casa do pai e provavelmente estaria mais feliz assim do que preso com a mãe no barco, no frio, numa viagem de cinquenta horas.

Não é possível que o tempo importe tão pouco assim.

Mas não é que não importa. É que no mar o tempo passa diferente, ou a gente absorve de outro jeito, um jeito menos ansioso e mais realista. Cargueiros de verdade, e ainda vou viajar em um, podem levar meses em travessia, parando em portos, ilhas e continentes. Atrasos de dias são esperados. Mas o Yaghan não é um cargueiro, é mais como uma balsa superdesenvolvida, indo e vindo com as coisas que não chegam na Isla Navarino de outra forma, como tratores e motocicletas.

A viagem costuma ser curta, algo como um dia. E a paisagem, apesar do olhar embevecido dos marinheiros, só é bonita quando amanhece e perto de anoitecer, se o céu estiver limpo. É legal quando aparece orca e albatroz, verdade. Fora isso, apenas é o que é: um monte de mar, as aves, os ocasionais picos ao fundo.

A bordo do Yaghan. Patagonia chilena, 2017.

Estreito de Magalhães, 2017.

Na primeira noite choveu o tempo todo e eu quase não dormi mas fiquei bem protegida e confortável na minha poltrona na primeira classe. A surpresa veio cedo na manhã seguinte. ”Dois dos quatro motores morreram a noite passada,” contou o marinheiro no café da manhã, puxando assunto. “Mas não precisa se preocupar, há bastante comida para todos e o tempo estará bom nos próximos dias”. Minha expressão ao ouvir “próximos dias” deve ter entregado o desgosto, e ele riu. “Talvez dois dias a mais, não mais que isso”. Mais tarde ele me ajudou a localizar a rota do Yaghan nos mapas pendurados no corredor. e saiu falando “ilha Dawson, lindo lugar”, “essa travessia é a mais bonita, fica numa área militar protegida”, “aqui tem muito gelo e não dá pra passar no inverno”, etc. Os nomes das ilhas e passagens se misturam aos que a gente aprende estudando história – Magalhães, Drake. Na hora eu pensei quão mais bonito o cenário poderia mesmo ser, quando o que eu via pela janela em horas que passavam de forma confusa era sempre mais ou menos igual. Agora parece rude, mas na hora era foi uma observação sensata. Talvez estar no mar desperte pra nuances de cor e texturas ou belezas maiores que meus olhos inexperientes e admiradores de montanhas e altitude não consigam captar. Além do mais, o frio não permitia ficar mais do que dez minutos no deck.

Olhando pra abril ou maio passado parece que a viagem na Patagônia levou muito mais tempo do que realmente levou, porque em pouco mais de duas semanas eu vi quase tudo que queria ver: geleiras, montanhas, neve, condores, caranguejos gigantes, guanacos. E pouquíssima gente, porque a Patagônia é uma das regiões menos habitadas do mundo.

Também parece que a viagem no Yaghan durou mais do que deveria. Buscando nas minhas anotações (louca do caderninho, lembra?) descobri que foi um total de 56 horas. Na minha cabeça era uma semana. Mas não é nada. Acontece que quando você tá esperando algo acontecer, olhando pela janela e tentando não pensar em tudo que deixou em terra firme, qualquer tempo é tempo demais.

Leia também

Exploring remote Puerto Williams, Chile – the southernmost city in the world

O vento, o condor e a bandeira da Isla Navarino

OBS: essa viagem não teve convite ou parceria de empresa alguma e foi 100% paga com meu dinheiro. Para saber mais sobre como viajar a bordo do Yaghan, contate a Austral Broom.