Comida, Viagem

Bouchon lyonnais

Tem quem chame Lyon de capital gastronômica da França. Não sei o que parisienses pensam disso, mas que é um título e tanto para um país que leva comida tão à sério. Tem a ver com a localização: Lyon fica no pé dos Alpes Franceses, ligeiramente ao sul, no meio do país. Foi rota de comércio importante, principalmente de seda. Livre de tragédias naturais, conseguiu manter seu centro velho quase intacto com o passar dos séculos e foi uma das primeiras cidades a ter o selo de Patrimônio da Humanidade da UNESCO. Populosa, foi palco de tragédias humanas durante a Revolução Francesa e um dos principais focos de resistência durante a ocupação alemã da Segunda Guerra.

É berço da nouvelle cuisine francesa e lar dos bouchons, os restaurantes pequenos com comida pesada (pense embutidos, ovos, cremes, frituras) servida entre generosas garrafas de vinho beaujolais em mesas com toalhas xadrez. Muito do que temos no imaginário como “bistrô francês” no Brasil é herança desses locais.

Foto: Bouchons na Rue Saint Jean, Lyon / por David via flickr.

Foto: Bouchons na Rue Saint Jean, Lyon / por David via flickr.

A tradição gastronômica justifica Lyon como a sede de dois eventos que tem edição em janeiro próximo: o Sirha (sigla para Salon International de la Restauration, de l’Hôtellerie et de l’Alimentation) e o Bocuse D’or, campeonato bienal que premia os melhores chefs do mundo.

O Sirha é uma enorme feira de gastronomia que reúne cerca de 200.000 pessoas que vão a Lyon para ver e experimentar produtos e tendências. São cerca de três mil exibidores, mais a programação de debates, workshops, concursos, demonstrações e afins. É um evento profissional, somente para convidados, que acontece desde 1983. É importantíssimo para um mercado que não pára de crescer. Tanto que o Rio de Janeiro o importa, junto com uma etapa do Bocuse D’or, em outubro de — leia mais nessa reportagem do Globo.

Já o Bocuse D’or é um festivalzão de comida, que recebe tanto elogios pelo juri estrelado (o chef canarinho superstar Alex Atala já foi presidente do júri) quanto críticas por suspeitas de sabotagem (os espanhóis nunca ganharam um!).Parece engraçado pensar em torcidas e bandeiras quando se trata de gente preparando comida com a maior seriedade do mundo, mas é exatamente isso que acontece:

Etapas locais acontecem em várias cidades do mundo no decorrer de dois anos. A final é sempre em Lyon, claro. Na última década houve um boom de chefs inovadores e talentosos vindos da Escandinávia, premiando nomes da Dinamarca, Noruega e Suécia. Em 2013 o primeiro lugar voltou a ficar com um francês: Thibaut Ruggeri, ovacionado no palco.

Para entender um pouco a importância que Lyon dá a comida, leia esse post ótimo do Anthony Bourdain. E veja esse episódio da terceira temporada do programa dele na CNN, Parts Unknown, gravado na cidade.