Brasil, Prosa, São Paulo

Mantendo a sanidade no Carnaval da Vila Madalena

De dentro do restaurante ouço o batuque chegando e a massa de gente aumenta junto com o volume do som. À frente uma moça dança com o estandarte do bloco e atrás vem a turma com guarda-sóis coloridos, braços para cima, cornetas. O tema é frevo e esse é só mais um entre os muitos blocos de rua da Vila Madalena. Umas 150 pessoas, se muito, dão um tempo no meio do quarteirão antes de seguir viagem, levando junto a serpentina, o baticum e os foliões.

Oficialmente o Carnaval não começou, mas é domingo de sol no bairro boêmio de São Paulo e antes de terminar o almoço eu toparia com um casal de Super Homem e Branca de Neve, uma variedade de meninas com coroas de flores, meninos com chapéus gigantes e até uma galera colocando garrafas nas lixeiras. Meu bairro é um barato, diria Nara Leão.

O problema é que a Vila Madalena é bipolar.

Pra cada família curtindo chorinho na esquina da Purpurina com Harmonia no começo da tarde, há um grupo de bermudão bebendo vodka quente direto da garrafa e tocando terror madrugada adentro. É o bairro da Mercearia São Pedro, do Bar das Empanadas, da esquina da Aspicuelta com a Mourato. E também é um bairro residencial, onde pessoas compram pão na padaria de manhã, pegam ônibus, vivem.

Essas pessoas já tem que engolir os questionáveis prédios de arquitetura moderninha, a invasão da galera do escritório com crachá pendurado, os turistas procurando a estação de metrô. E em fevereiro as pessoas se conformam com o barulho do Carnaval entrando com a janela, o acúmulo de lixo extraordinário, o cheiro de xixi na calçada.

Só que não dá para se conformar com bêbado batendo punheta na frente da sua casa, gritando no estacionamento do posto de gasolina até quatro da manhã, arremessando garrafa com xixi em janela de prédio – três relatos reais.

Foto do G1. Leia aqui.

É culpa dos blocos? Não. Mas sabendo o que acontece quando a noite cai e os blocos dispersam, fica difícil achar ruim que a Prefeitura estabeleça horário limite e que a PM chegue com jato d’água pra mandar geral embora. Num mundo ideal, a noite acabaria sem histeria e as ruas seriam limpas para começar de novo no dia seguinte. Na prática, cada vez que o Carnaval chega, o bairro boêmio morre mais um pouquinho.

A Vila Madalena é uma delícia e é uma merda.  Mas é meu bairro. E daqui ninguém me tira.

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