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Sobre livrarias: City Lights, São Francisco

City Lights bookstore, San Francisco

Livrarias são meu ambiente ideal. Pensa num lugar quieto e cheio de coisas interessantes: livraria.

Sempre quando viajo marco alguma livraria para conhecer. Londres tem a Stanfords, fundada em 1835 dedicada à guias de viagem e atlas. Porto tem a Lello, provável livraria mais bonita do mundo, que inspirou o cenário da livraria do Harry Potter. Lisboa tem a Bertrand, no Chiado, a livraria em mais tempo em atividade no mundo. Portland tem a Powell’s, que e é um abuso mesmo: uma quadra inteira, cinco andares, mapa gratuitos para ajudar você a navegar o lugar, sessões de absolutamente qualquer coisa e muitos usados. No mesmo clima, Nova Iorque tem a clássica Strand (“onde livros são amados”). Minha livraria gringa do coração fica perto de São Francisco: a Book Passage de Marin County, onde passei dias felizes como aluna da Travel Writing Conference.

Mas, principalmente, São Francisco tem a City Lights. A “livraria dos Beats” na divisa entre North Beach e Chinatown, vizinha de parede do Kerouac Alley onde turistas e fãs de On the Road vão tirar foto. A City Lights foi entro da revolução literária dos anos 1950 e cresceu muito desde a abertura em 1953. Mas ainda publica livros de poesia marginal e dá prioridade a títulos com temas políticos, filosóficos e espirituais, se você pensar em espiritual como alma e cultura, não auto ajuda. Como nunca dei muita confiança pra literatura beat (quem sabe é uma fase que ainda vou ter) estava ignorando o lugar há dois dias, mesmo hospedada num quarto minúsculo durante uma crise ansiosa no North Beach Hotel, a uma quadra de distância. *

Mas numa manhã de sol, depois de pagar caro demais por um muffin e um latte numa cafeteria hipster qualquer de North Beach,  parei para olhar a vitrine. Avisos atrás do vidro diziam para desligar o celular, para entrar e ler um livro (ou dois, ou mais) sem compromisso, para abandonar all despair ye who enter. Lembrei que meu quarto no North Beach tinha cheiro de xixi, que eu tinha pelo menos quatro horas até começar a próxima etapa da viagem, que meu bolso tinha pouco mais do que o dinheiro do transporte até Marin County. A imagem de uma senhora sentada no chão da livraria, aproveitando um raio de sol e lendo um livro como se na sala de casa, terminou de me convencer a entrar.

Passei um tempão xeretando as estantes de literatura, tomando sol pela enorme janela de vidro. Achei nova literatura brasileira e umas seleções de contos do Machado de Assis em inglês na estante de livros sul-americanos. Achei um livro para meninas só sobre grandes personagens mulheres da história. Achei uma porção de nomes asiáticos, africanos e latinos. Um monte de fanzines. No subsolo, a seleção de música tinha jazz, punk e funk. A seleção de literatura de viagem tinha livros sobre trens, sobre o Vietnã de Pol Pot, sobre os crimes anbientais de navios cruzeiro. Várias coisas que eu nunca tinha visto, que eu queria ter e não ia comprar porque estava sem dinheiro. Tudo bem. Peguei uma seleção de livros, botei em cima da mesa de madeira e passei a próximas horas (três, quatro?) olhando livro por livro, copiando trechos, roubando água do filtro. Totalmente imersa na minha introspecção, sem interrupções nem de colegas leitores nem de livreiros trabalhando. Só lembrei da hora de ir embora quando a fome bateu. Na saída, antes de encarar dim sums gordurosos num pulgueiro chinês sem fila, comprei o que dava pra comprar: um cartão postal da City Lights em 1953.

Saí pela porta pensando que a City Lights é um lugar que nunca vai vender café, Moleskines nem genéricos do Jardim Secreto. Ainda bem.

City Lights, San Francisco: Abandon All Despair

City Lights, San Francisco: Educate Yourself

City Lights, San Francisco: Stash Your Sell-Phone

* essa história faz parte do Mas Você Vai Sozinha, meu livro de histórias de viagem que sai pela Globo Livros em agosto/setembro. Assine o newsletter do blog para saber sobre o lançamento.