Música

Cocteau Twins: 25 anos do Blue Bell Knoll

* Bluebell knoll é uma flor azul com formato de sino, que cresce nas montanhas escocesas.

Um dos primeiros CDs que comprei motivada pelo meu próprio gosto musical, com uns 14 anos, foi o Heaven or Las Vegas do Cocteau Twins. Lembro de reconhecer o nome de alguma matéria antiga na Bizz e escolher o dito como companhia numa viagem para a casa de campo da família. Na mala, além desse CD e de um diário, estava o Disintegration do Cure e um punhado de roupas pretas – é, eu tive essa fase.

O Cocteau Twins, trio de Elizabeth Fraser, Robin Guthrie e Simon Raymonde em sua formação mais duradoura, é uma banda que desperta amores intensos em fãs suficientemente fiéis para passarem por cima de rótulos como “ethereal” e “dream pop”.

Cocteau Twins

Robert Smith declarou certa vez em entrevista que o grupo faz ‘a música mais romântica’ que ele já ouviu. É honesto dizer que tanto o Cure quanto as bandas de shoegaze como My Bloody Valentine e Lush devem muito para as canções intensamente melódicas do Cocteau, em especial dos discos Treasure e Blue Bell Knoll, de 1988, primeiro esforço comercial e princípio do fim da relação da banda com a gravadora da qual se tornou sinônimo – a britânica 4AD.

Blue Bell Knoll foi lançado num momento em que o trio buscava tanto uma distribuição melhor nos Estados Unidos quanto superar as crises afetivas do casal Fraser e Guthrie. Essa primeira metade dos anos 1980, período especialmente criativo da música britânica, foi muito bem aproveitado pelo Cocteau: Treasure, lançado em 1984, definiu o caráter etéreo que se tornou indissolúvel do trio. Em 1986, com Raymonde afastado para se dedicar ao supergrupo da 4AD, o This Mortal Coil, Fraser e Guthrie trabalharam no Victorialand, mais um apanhado de ambiência sonoras do que um álbum de canções. No mesmo ano, sem usar o nome Cocteau Twins (roubado de uma canção do também escocês Simple Minds), o trio lançaria com o compositor ambient Harold Budd o disco The Moon and The Melodies.

Blue Bell Knoll resgata a musicalidade sonhadora de Treasure e a formação clássica do Cocteau, num novo estúdio e experimentando com instrumentos como um cravo. Musicalmente, apresenta uma muralha de efeitos de guitarra, baixo e bateria eletrônica, sobre a qual flutua a voz sobrenatural de Liz Fraser. Após o lançamento a cantora afirmaria que foi “seu trabalho mais desgastante”, criado em um processo que ela “não pretendia repetir”. Para o público, o esforço foi válido: Blue Bell Knoll é um álbum livre, que não faz concessões em relação à personalidade criativa do trio mas é claro o suficiente para que uma de suas canções emplacasse na MTV e nas college rádios norte-americanas.

No meio da discografia completa do Cocteau, nove anos na cronologia da banda, Blue Bell Knoll marca também o começo do fim. A opção por uma nova gravadora, a Capitol, buscando melhor distribuição nos EUA, significou num curto prazo o fim da relação do Cocteau com a 4AD. Mau negócio: a 4AD logo viu outra banda de seu cast, o Pixies, encontrar sucesso nos EUA sem  abandonar a casa. E o próprio Cocteau nunca emplacou nos EUA como aconteceu no Reino Unido. O trio gravou outros três discos menores (Heaven or Las Vegas, Four-Calendar Cafe e Milk and Kisses), lançou singles e coletâneas e encerrou a carreira em 1998, alegando diferenças irreconciliáveis e abalados pela separação do casal Fraser-Guthrie, cinco anos antes.

Por ser um disco do Cocteau distribuído nos EUA por uma grande gravadora, Blue Bell Knoll é ainda hoje mais fácil de encontrar do que qualquer álbum ou single da discografia, inclusive aqui no Brasil. Isso faz dele o provável disco mais conhecido da banda, ainda que Treasure seja o mais expressivo, Victorialand o mais desafiador e Heaven or Las Vegas o mais comercialmente viável – claro, dentro do quão comercial uma banda que tem uma vocalista que canta sem palavras pode ser.

PS: obrigada pela correção, Wanderson Wans.

BÔNUS

Essa maravilha de versão de “Song to the Siren” gravada pelo This Mortal Coil com voz de Fraser e guitarra de Guthrie em 1983, é homenagem à uma canção de 1970 do folk Tim Buckley. Fraser mais tarde teria um romance com o filho de Tim, o também cantor e guitarrista Jeff Buckley – que morreu afogado ao nadar num rio no Mississipi em 1997. Existem rumores sobre um disco que os dois teriam gravado juntos. Nunca foi lançado, mas dá pra ouvir esse dueto, All Flowers In Time Bend Towards the Sun.