Portugal, Prosa

Como cancelar um acordo de AirBnB

Passagem na Alfama, Lisboa

Cá estou em Lisboa. Tirando um quarteto de senhores de meia-idade animadamente viajando sem as esposas e família e falando sobre tudo que vão aprontar, foi um voo tranquilo, com pouco mais de nove horas de duração. Como não durmo, deu tempo de ler um capítulo inteiro sobre a ocupação moura no sul de Portugal, terminar um texto, ver dois filmes, caminhar pelos corredores,fazer duas refeições e ir ao toalete umas cinco vezes, sendo que numa meu desodorante roll-on explodiu na minha axila e na outra tinha xixi no chão. Odeio avião.

Cheguei em Lisboa debaixo de névoa umas sete da manhã. Peguei o metrô até a Alfama, o bairro velho cheio de turistas, marisqueiras e bares de fado. E quando cheguei no apartamentinho alugado via AirBnB a senhora dona informou que não estava disponível. “Há outros hospedes. Não estarei disponível, mas uma amiga vai aparecer para fazer seu check in às 15h”. Isso num SMS, quando eu já estava há um quarteirão de distância, subindo uma rua de pedrinhas portuguesas com mala e mochila. Na chuva. Eu tinha avisado meu horário de chegada há dias, mas de que ia adiantar brigar agora? Com a dona do local incomunicável, a única opção era cancelar e ir pra outro lugar. Um lugar com teto e cama. Só isso. Podia até ser o hostel na esquina. Só que esse não tinha vaga.

Sentei no café na frente da estação junto com outros turistas, pedi um pastel de nata e a senha do wifi e cliquei na opção “cancelamento” do AirBnB. Fui imediatamente conectada via telefone com uma pessoa chamada Bia, falando português. Expliquei com calma o que tinha acontecido, confirmei que tudo estava registrado via mensagens do sistema. Bia quis saber se eu estava bem, se minhas coisas estavam seguras. Pediu pra eu guardar recibo do meu café e do transporte que tivesse usado, porque o BnB se responsabilizaria por qualquer prejuízo. Em seguida informou que a devolução do meu pagamento já estava sendo feita e que se eu não conseguisse arrumar um local com o mesmo preço, eles pagariam a diferença. Me deixou com um contato por email e telefone para o caso se eu precisar de qualquer ajuda para achar outro lugar.

Melhor que isso, só se o quartinho alugado estivesse vago e eu estivesse tomando um banho quente. Mas aí já não era culpa da Bia. Eu podia ter fechado um outro hotel ou pousada caro e pedir pra eles pagarem? Sim. Ao invés disso preferi escolher no mapa um hostel qualquer, contanto que fosse perto. As coisas que o sono faz conosco. Só encontrei na quinta ligação – um quarto tinha acabado de vagar e estava limpo, disse a recepcionista simpática. Ela não falou nada sobre os quatro andares de escada, mas lembrou de dizer que tinha wifi, café e água de graça. Vim correndo.

É um lugar feio, com cheiro de armário fechado e roupas de cama que eu não teria em casa. Mas é limpo e o wifi funciona. Fica no meio de uma porção de escadarias e ruelas. É de onde escrevo agora, às quatro da manhã, ouvindo a balada aqui do lado tocar putsputs e a chuva ainda caindo lá fora. Fiquei.