Índia, Prosa, Viagem

Comprando roupa no East Fort

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* saí sem câmera, desculpe nossa falha.

A pequena e sorridente senhorinha apareceu com uma xícara de chá perfumado. Minhas novas BFFs me empurraram na direção de uma cadeira. “Senta! Senta!” diz a mais velha, responsável pela venda. O inglês delas é muito melhor que o meu e fazem questão de gesticular e falar alto, para me ajudar a entender. Sou a única cliente no vasto terceiro andar de uma loja de roupas indianas, na região do East Fort de Trivandrum. Aceitei o chá e dei o primeiro gole – mistura de folhas de Assam, leite, açúcar e temperos, especialmente cravo e cardamomo. Silêncio. Doze moças e mulheres olhavam pra mim com sorrisos fixos.

“Olha, parece que vocês querem que eu diga algo, mas não sei o quê…”
“O chá! É bom?”
“Está delicioso eu poderia tomar todos os dias!”
“No Brasil, tem?”
“Não, só outros tipos de chá, mas o indiano é melhor”

O grupo explode em risadas e palmas. Como a gentileza, a ansiedade em ver suas particularidades apreciadas parece característica do indiano. A hospitalidade é a melhor, a paisagem é a mais bonita, o chá é único, os filmes são ótimos e as tradições, corretas. O turista deve ser capaz de apreciar o que há de bom. O brasileiro também é pouco assim e a curiosidade da dúzia de mulheres uniformizadas em sáris verdes brilhantes me faz pensar em como um grupo de funcionárias numa loja de departamentos vazia no centrão de São Paulo reagiria à uma turista exótica querendo fazer comprar roupas locais.

Eu já tinha negado umas vinte opções diferentes de shalwar kameez, o onipresente conjunto de vestido, calça folgada e xale usado pelas mulheres. Reclamei que tudo é caro. Minhas amigas davam risada em conjunto. “Dez mil rupias! Barato!”. Dez mil rupias dá uns 160 dólares, mas essa é uma roupa elaborada: amarela e azul brilhante, peito bordado, saia em camadas. Quero algo simples, explico, para usar na rua de dia, com tecido leve, barato, fácil de lavar. E mais vestidos aparecem, com todo tipo de tecido, padrão e cor. Escolho um conjunto em tons de verde e cinza escuro, com uma discreta aplicação de pedrarias na barra e no peito.

Vou até o pequeno provador acompanhada do grupo. Elas querem saber de onde sou, onde estou hospedada, como cheguei. Tudo ao mesmo tempo. Passam as mãos no meu cabelo curto, espetado e sujo, tentando pentear. Me sinto uma estrangeira relaxada, incomodada com minhas roupas largas e velhas, com meu desodorante vencido. Uma coisinha branca, mal cuidada e estranha perto daquelas moças morenas com seus uniformes de trabalho elegantes, os cabelos longos penteados para trás, as testas enfeitadas por pequenos círculos vermelhos. Mas para elas eu também sou especial. Emitem um sonoro ‘ohhhh’ em coro quando as tatuagens aparecem. “Você não precisa de um vestido com mangas, já tem mangas verdes na pele!” diz a mais jovem e curiosa, apontando para meu braço e rindo.

Essa é uma loja popular, com outdoors espalhados pelo caminho que meu ônibus fez da vila praiana de Kovalam até a região de East Fort. Tem cinco andares, cada um dedicado à uma especialidade: roupas étnicas para homens, roupas infantis, tecidos para sáris, tecidos para sáris de casamento, roupas femininas. E faz sáris, shalwar kameez e outras variedades de roupas indianas sob medida, o que aprendi com meus primeiros minutos dentro da loja – eu vinha de uma loja tradicional, duas ruas abaixo e carregava uma sacola plástica com um vistoso sári dentro. O ansioso vendedor que me atendeu na porta me levou direto para um balcão nos fundos do primeiro andar, onde uma senhora de olhar rígido pegou a sacola, abriu e começou a esticar o pano colorido – depois de rir do pequeno pacote de chips de banana que eu tinha colocado junto.

Onde comprei?, como vou usar?, precisamos medir para fazer a blusinha que vai por baixo, vamos até o provador? Me confundo, arrisco uma porção de explicações no meu inglês nervoso e demorei para entender: não, esse eu vou levar pro Brasil assim, quero conjuntos para usar agora. A vendedora e o vendedor olham, tentando entender. “Ready made?” Rindo da minha falta de experiência com esse universo complexo que é a vestimenta indiana, o vendedor me leva até o elevador. “Terceiro andar! Shalwar kammeez!”

A porta do elevador abre e noto que há um senhor em pé, suado e com uma pintura vermelha na testa. “Para onde?”, pergunta. É o ascensorista do menor elevador do mundo. Lembrei da Rutavi falando para me acostumar a não fazer nada sozinha. “Terceiro andar, por favor”. Ele aperta o botão num gesto solene e lá vamos nós.

India, Trivandrum, EastFort

Amma, tuktuks e os portões do East Fort (foto do blog TrivandrumDistrict)

A experiência é totalmente diferente da que tive na loja anterior, meia hora antes, perto do Padmanabhaswamy, o centro espiritual de Trivandrum que é fechado para quem não é praticante do hinduísmo. Foi meu primeiro rolê fora do resort onde o KBE me colocou, pegando o ônibus de linha que passa na frente do hotel no ponto inicial até o final. Meio nervosa com a multidão, caminhei pelo entorno sem saber direito o que fazer ou para onde olhar : templos menores, turistas gringas tirando fotos com iPhones, sadhus descalços protegidos apenas por um pedaço de pano laranja, vendedores de jaca agachados nas calçadas, músicas ecoando de diferentes caixas de som, camelôs vendendo os mesmos produtos baratos que encontramos na 25 de Março, o barulho irritante das buzinas dos ônibus e tuk tuks, homens gritando na minha direção coisas que não entendo – o turista é indisfarçável. Meio que para fugir do caos da rua por cinco minutos e meio que para ver o que ia encontrar, entrei numa loja de tecidos.

“Conectando gerações desde 1935” anuncia o slogan da Co-Optex. De cara, pedi para ver um sári de seda preta com delicadas borboletas bordadas em laranja e dourado. Uma obra de arte, mesmo. O vendedor, sacando que estava lidando com uma pessoa sem o menor talento para entender esse tipo de produto, e sem a menor paciência de ser meu mentor na ancestral arte do sári, derramou informações numa mistura de hindi e inglês – tamanho do tecido, quantidade de fios, que mais? Muito caro, falei. Procuro algo mais barato. Irritado, ele começa a jogar os quadrados de tecido em cima do balcão. “Errr, acho que gosto do roxo”. Mais um monte de blocos de tecido roxo aparecem. Pergunto o preço de um que tem detalhes em verde. Ele explica a aplicação de bordados nas extremidades (não entendi) e diz que pode fazer 20% de desconto. Tentando me imaginar enrolada naquelas cores, decido levar. Ele cobra, me entrega o pacote e vai dar atenção para o grupo numeroso de mulheres que acaba de entrar.

Sedas indianas

Acha que é fácil escolher?