Escócia, Prosa, Viagem

Corpach – Escócia

Corpach, Scotland

[essa viagem para a Escócia aconteceu em 2012]

Ainda estou morrendo de sono quando a simpática Bev entra na sala com o que parece um par de coloridos pássaros de crochê sobre uma bandeja. O pequeno aparelho de som guincha com o som de um milhão de gaitas de fole e o prato sobre a mesa me encara, desafiador: peixe defumado e cogumelos. Bev pousa os pássaros na mesa ao lado e pergunta com a doçura de uma vovó: “Mais chá, dear?” O nevoeiro impedindo a vista pela janela e o gosto de whisky de ontem na garganta ajudam a explicar: acordei na Escócia.

Bom dia, Corpach.

Bom dia, Corpach.

Não estou numa cidade moderna como Edimburgo, em um clássico do velho mundo como Glasgow, tampouco num cartão-postal com castelos e lagos habitados por lagartos gigantes. E sim na singela Corpach, vilarejo das Highlands escocesas, na extremidade oeste do Caledonian Canal, que atravessa o norte do país em direção à Inverness. Faz frio à beça lá fora e Bev e Toby, o casal que gentilmente me recebe na pequena pousada, pergunta se prefiro torradas com geléia ou manteiga. Quero os dois. Só que terei que explicar minha presença.

“Durante o verão há muita coisa para fazer, sabe? Trilhas, cachoeiras… as montanhas estão secas e há luz até tarde. Com mais tempo você pode fazer um passeio de barco até Loch Ness pelo canal” explica Toby, que além de cozinheiro e marido de Bev, é dono do simpático cão Santana e ostenta um orgulhoso bigode loiro, perfeito com sua camiseta do Credence. “E durante o inverno, que só começa em duas semanas, há bastante neve. A estação de esqui de Fort William fica lotada!”

Fort William é a capital dos esportes de aventura do Reino Unido. Mas eu não vim navegar nem esquiar. Minha temporada em Corpach nesse fim de outono, quando a temperatura não passa dos dez graus, os dias terminam cedo e a neve ainda não chegou, é de apenas quatro dias, sendo o de amanhã dedicado à maria-fumaça que sai de Fort William na direção das ilhas do norte. É um agradabilíssimo passeio de um dia a bordo de vagões puxados por uma locomotiva a vapor numa das estradas de ferro mais bonitas do mundo, passando por montanhas e campos das highlands escocesas e pelo viaduto Glennfinann, impressionante construção do fim do século 18. Estou ali para escrever sobre esse roteiro para uma revista online de turismo direcionada para jovens brasileiros que fazem intercâmbio. Quem reservou o quarto em Corpach ao invés de Fort William foi a revista.

Não que a revista tenha errado: o bed & breakfast de Bev & Toby está localizado ao lado de um lago, na mesma rua do mercado, do jornal local, do museu de rochas (sim!) e do pouco mais que existe em Corpach. É uma graça, tem paredes forradas com tecido, mesas com livros de fotos da Escócia e uma lareira constantemente acesa. Meu quarto fica no segundo andar e tem vista para a atração principal da região, o monte Ben Nevis, mais alto da Grã-Bretanha – 1.340 metros acima do nível do mar, numa região já alta. Na prática, é apenas um morrinho.

Bev & Toby não parecem muito entusiasmados com minha viagem transcontinental para escrever sobre a velha locomotica que leva turistas até uma vila de pescadores no meio do nada, mas enrolo os dois dizendo como foi fácil chegar usando as explicações do site, como o timetable de trens britânicos é pontual e como o B&B é agradável. Tudo verdade, claro. E além disso, a comida é ótima. Ontem, após chegar, tive uma das melhores refeições da minha vida, preparada por Toby: salada morna de beterraba e coisas verdes, filé de salmão preparado com manteiga, sopa de batata com carne e pedaços de pão, regado com goles de whisky feito ali mesmo em Corpach, que comprei durante tentativa de passeio. Frustada pelo frio e pela ausência de outros seres vivos na rua, o melhor do rolê acabou sendo a parada no mercadinho local, onde, além da bebida, consegui jornal e chocolates.

Satisfeito com a explicação e os elogios, Toby vai buscar as torradas. É a deixa para Bev: “Ah, ia me esquecendo! Mas tenho certeza que ainda estão quentes” e pousa o pratinho com os pássaros na minha frente. A cabeça da ave de crochê é um tipo de tampa e retirando a roupinha percebo que são ovos, dois, cozidos, provavelmente com a gema mole, certamente deliciosos com um pouco de sal. E, claro, protegidos por suas roupas de lã, ainda estão quentes. Que perfeito exemplo da hospitalidade do norte da Grã-Bretanha, onde a comida sempre deve estar quente e os longos meses de inverno permitem essa profunda dedicação ao artesanato.

Oi?

Oi?

Após o café encontro fotos de montanhas verdes, lagos brilhantes e castelos em ruínas nos muitos folhetos disponíveis perto da porta de entrada do B&B. Olho pra fora: garoa, vento e o tal Ben Nevis escondido numa nuvem. Toby sugere que eu pegue o ônibus que leva até a estação de esqui, na mesma cadeia de montanhas, fácil de chegar, onde posso passar o dia. “Muitas trilhas e, se o tempo abrir, a vista é linda”. E existe alguma chance de abrir, pergunto. “Ah, claro, de tarde o tempo vai firmar, está no jornal”. Toby não entende quando pergunto se as trilhas são seguras. “Bom, é difícil se perder. Com neve, sim, você poderia sair da trilha sem querer. Mas nessa época do ano… olha, as trilhas são usadas há centenas de anos, não se preocupe”. Ladrões? “Não, não, nunca ouvi falar de algo assim”.

Ok. Protegida por gorro, luvas e um recém adquirido casaco de couro forrado com pele de carneiro (dez libras num mercado de rua no east side londrino, onde cheguei vinte dias antes no melhor esquema retirante tropical ou seja, morrendo de frio), atravesso a estrada para esperar o ônibus. A expectativa de um passeio sem planejamento, o ar fresco e a barriga cheia espantam a ressaca. Pontualmente às 08h13 da manhã um ônibus de materializa na estrada e abre a porta para me deixar embarcar. Conto as moedas para entregar ao condutor e ele, vendo minha confusão com o dinheiro estranho, volta a acelerar e pergunta ‘de onde você é?’. O que no sotaque duro do norte soa como ‘wer aye form?’.

Olha, faz tempo.

Olha, faz tempo.

Explico que sou brasileira. “Oh, dizem que o tempo lá é ótimo!” Sim, é verdade, mesmo no inverno é muito agradável, respondo enquanto sento na primeira cadeira do ônibus vazio. Explico que estou lá por causa do trem, que é minha primeira vez na Escócia, que cheguei ontem, que não vi nada além de uma noite muito escura e que ontem bebi um whisky feito ali mesmo. Ele apenas acena com a cabeça. Talvez entenda apenas parte do que estou dizendo, dado o sotaque de terras distantes. Ou talvez ele entenda, acostumado que está com falas de outras partes do mundo. De qualquer forma, a única vez que ele abre a boca de novo é para apontar o local da destilaria de whisky, pouco mais em frente, na mesma estrada. Aproveito a deixa e desço no próximo ponto, pouco depois de uma placa com o desenho de um castelo indicando o Inverlochy Castle. Agradeço e parto. Não são nem nove da manhã.

As ruínas tem o mesmo nome de um castelo mais moderno, transformado em hotel de luxo, que fica há cerca de meia-hora de carro dali. Aqui o Inverlochy é uma série de paredes de pedra que não sustentam teto algum. Há o que deve ter sido uma torre de guarda, um portão. Quem quer que morasse ali tinha uma bonita paisagem, já que esse Inverlochy original, datado do século 13 e destruído ao longo dos séculos por sucessivas guerras entre clãs, fica na beira de um bosque de folhas amarelas de um lento e largo rio castanho escuro. Pensando em batalhas medievais sangrentas, fiz algumas fotos e andei por cima de túmulos de pedra no cemitério ao lado antes de voltar para a estrada, onde tomei a direção indicada pelo condutor do ônibus até avistar a tal destilaria.

O que me aguardava era um passeio bem menos divertido do que caminhar pelas ruínas – que já não eram grande coisa. Por cerca de dez libras vi incontáveis barris de madeira e tonéis de bronze, subi e desci uma porção de escadas ouvindo o guia ditar informações que não entendia e que, na verdade, não despertavam nenhum interesse. Tudo isso acompanhada de um casal bangladeshi: o senhor vestindo um sóbrio terno de lã cinza e a senhora ostentando um colorido sári azul e verde por baixo do grosso casaco de inverno.

Se era uma turista inesperada, aqueles dois eram encarnavam o clichê de forasteiros. Tudo, a começar pelo sotaque, dizia que aquela dupla não tinha o que fazer na destilaria entre Corpach e Fort William. A crise de ácido úrico nos pés inchados, que impedia que a senhora usasse calçados de frio naquela medonha manhã chuvosa de outono, só pioraram essa impressão. Minhas gentis intenções de ajudá-la nos lances de escada ou puxar assunto foram recebidas com agradecimentos secos. O que não foi nada comparado com os olhares de reprovação que os meus três acompanhantes enviaram quando, ao fim do passeio, na degustação, pedi mais um gole de whisky. A minha simpática brasilidade estava sendo de alguma forma confundida com falta de modos, como se ao puxar conversa em torno de uma garrafa de bebida fosse grave crime de convivência social. Lá estava a brasileira bêbada, se aproveitando da bebida do anfitrião! Insisti, com um sorriso, e o guia me serviu mais um copinho (copinho mesmo, do tamanho de um polegar) que virei num gole antes de dar fora dali, pensando em como mal-estar social é pior que ressaca.

O rolê na destilaria: melhor não.

O rolê na destilaria: melhor não.

O solitário passeio sem planos piorou muito. Fiz confusão com o sentido da estrada e fiquei esperando o ônibus no lugar errado. Só percebi quando o vi passar, do outro lado. Comprei um copo de café aguado no posto de gasolina e esperei mais quarenta minutos pelo ônibus certo, com fome, frio e o olhar de desaprovação do velho guia da destilaria a zombar de mim pela janela. Quis pegar carona (outra dica do Toby) e não passava carro algum. Quando o ônibus chegou, o condutor, um imigrante (sérvio? croata? búlgaro?) puxou papo comigo e não desistiu. A imagem das montanhas verdes com gado pastando e gente ruiva usando kilt nunca esteve tão distante. Ao invés disso, tinha a próxima hora sentada no banco gelado de um ônibus que subia uma estrada cheia de curvas no meio da cerração e o incompreensível inglês com tempero de refugiado de guerra do meu novo amigo.

Quando o finalmente desci na frente da estação de esqui, chovia miseravelmente. Uma chuva lateral, fina e gelada. Corri para dentro da estação e encontrei um desanimado funcionário cuidando de subir as pessoas ausentes na gôndola do teleférico que, por duas libras e meia, leva você até o topo da Glenn Nevis, onde fica Nevis Range Mountain Resort, a 650 metros de altura. É dessa montanha que trilhas levam até o irmão maior, o Ben Nevis. Naquelas circunstâncias era difícil imaginar um passeio mais triste. Um tour por zonas de guerra na África oferecia emoção, já os vinte minutos de subida de teleférico, dentro da nuvem, oferecem apenas frio. Quando finalmente desci, fui recebida por uma cerração tão densa que poderia ser confundida com fumaça de borracha queimada

Forcei a vista para distinguir algumas formas se mexendo à frente: uma família de desavisados turistas, insistentes como eu, que tentavam ler as placas de informação das trilhas, em gaélico e em inglês. Eles seguiram pela da direita, o que me fez decidir pela da esquerda, na direção oposta ao Ben Nevis, com o qual começava a antipatizar.

Achando que a névoa poderia representar o mesmo tipo de perigo da neve em matéria de se perder nas montanhas, segui em frente olhando para o chão para enxergar a trilha, até porque não havia mais nada para ver em qualquer direção. Sem saber o nome da trilha ou onde ela vai, prestava atenção apenas no som do teleférico ficando cada vez mais distante. O silêncio permitia escutar o vento frio, um riacho de água e aves desafortunadas em ninhos na vegetação.

Não precisei de mais do que meia-hora para o passeio dentro da nuvem ir de miserável para glorioso, e não por causa da mudança de paisagem, que não houve, e sim por que a sensação de isolamento me agrada. Sendo uma pessoa tranquila que só fica irritada com a companhia de outras pessoas, aquele silêncio branco e frio era um tipo de cenário ideal. E o sentia primeira vez em, quanto tempo?, um semestre, cinco anos, duas décadas, uma vida? Ninguém para interromper, perguntar, cutucar, criticar, alimentar, conversar. Libertador.

A trilha terminou num banquinho, disposto sobre o chão de pedra depois de uma subida íngreme, que convidava para a parada. Imaginei a paisagem que um casal de namorados ruivos e sardentos usando kilts teria numa tarde de verão: as montanhas coloridas das Highlands, um castelo, o topo do Ben Nevis pintado de branco, um lago refletindo o sol.

Hoje era só eu, a neblina e a vista que não dava para ver. Lembrei da garrafa de single malt local, que tirei da mochila e bebi acompanhada de um chocolate e dos meus próprios pensamentos. Nem sempre é preciso ir tão longe para ficar tranquilo com você mesmo, claro. Mas dali de cima de uma montanha cujo nome até agora não sei (era o Glenn Nevis? quem se importa?) sem conseguir ver mais que dez centímetros à frente do nariz, por um raro momento tudo estava muito bem.

Muito bem, obrigada.

Muito bem, obrigada.