Escócia, Prosa, Viagem

De trem na Escócia: West Highland Line entre Glasgow e Mallaig

Mallaig Coast

Sabe quando a gente celebra o ‘ano do país tal no Brasil’ ou o ‘ano internacional da água’? Então: 2013 é o Year of Natural Scotland, algo como ‘o ano da Escócia natural’. Não estou inventando, olha aqui.

Faz sentido. A Escócia é um belo país e destino pra quem curte paisagens vastas, ruínas medievais, travessas fumegantes de comida substanciosa e lareira acesa depois de uma caminhada na garoa. Oferece castelos transformados em hotéis, aulas de história cheias de violência e intriga e, claro, larga oferta de cervejas e whiskys (esses, sempre terminados em y).

Foi essa Escócia com neblina gelada de fim de outono que me recebeu vinda de Glasgow. Após três horas e tanto de viagem, desci do trem em Corpach uma parada depois de Fort William na West Highland Line – que, dizem, é uma das estradas de ferro mais bonitas do mundo. A linha parte todos os dias da Queen Station em Glasgow e leva cerca de quatro horas no trajeto completo até Mallaig, pequena vila portuária e ponto de partida para a ilha Skye e as Western e Small Islands.

Atravessa as chamadas ‘terras altas do oeste’, uma região de paisagens grandiosas. Montanhas, vales e lagos das West Highlands estão entre os cenários mais impactantes da Europa, tingidos de verde no verão e de vermelho no outono, cobertos de neve no inverno e cheios de animais na primavera.

O melhor jeito de ver essa parte da Escócia é a pé e de trem. Viajar de trem funciona muito bem em toda a Europa, mas no Reino Unido em especial: é relativamente barato, altamente aproveitável e ridiculamente pontual. As Ilhas Britânicas são cobertas por uma rede ferroviária super eficiente, então você pode trocar as filas e demais irritações dos aviões por uma viagem tranquila e confortável vendo passar pela janela paisagens como essa:

Eu pensava em como a rigorosa timetable ferroviária exemplifica a singular pontualidade britânica quando peguei outro trem, dessa vez a maria-fumaça de Fort William  para Mallaig.

Fort William é o final da West Highland Trail, a trilha de caminhada que começa em Glasgow e leva entre cinco e sete dias, e também o começo do ‘Caminho para as Ilhas” (Road to the Isles, ou Rathad nan Eilean nessa língua maravilhosa que é o gaélico). Também dá para ir direto de Londres para Glasglow ou Fort William com o confortável Caledonian Sleeper, que sai de Euston, como conta meu herói, o Man in Seat 61 – leia aqui.

Um dos pontos peculiares da viagem, meia dúzia de paradas antes de Fort William, é a ‘mais remota estação ferroviária do Reino Unido’, a desolada Corrour, que atualmente abriga um… restaurante! Mesmo estando longe de qualquer vila ou estrada, a estação é parada tanto do Caledonian Sleeper quanto dos trens da West Highland Line. E é nessa estação que Renton, Sick Boy, Spud e Tommy descem nessa cena de Trainspotting.

Fort William tem igrejas e monumentos, pubs aquecidos por lareiras, uma High Street apenas para pedestres e o simpático povo do norte da Escócia – dizem que na Grã Bretanha quanto mais ao norte, menos antipatia você encontra e, na minha parca experiência, afirmo que há algo verdadeiro nisso. Na sombra do Ben Nevis (a montanha mais alta das Ilhas Britânicas, com 1344 metros) e do Loch Linnhe, Fort William seria uma graça não fosse cortada por uma rodovia. O pouco charme proporcionado pela faixa de asfalto acaba mantendo a cidade no status parada-padrão: acomodações, comida, compras de lembranças e utilidades e uma destilaria (que eu visitei e contei aqui).

Por causa do Ben Nevis, dos lagos, da tal trilha de dias até Glasglow e da cadeia de montanhas Ardgour, Fort William é também base para uma porção de esportes de aventura. É por isso que tem uma ótima loja de equipamentos para esporte (a NeviSport) ao lado da estação da ônibus, que quebrou o maior galho quando a alça da minha ridiculamente pesada sacola de viagem… arrebentou. [Não esqueça a principal regra da estrada: viaje leve. Sempre. O taxista que me ajudou a tirar essa mesma mala do táxi em Glasgow riu, perguntando o que ‘tem o que aí dentro, um defunto?’ e eu quase chorei de vergonha, lembrando que o peso era de garrafas de whisky.]

Saindo de Fort William há também uma estrada de asfalto, que faz a mesma rota até Mallaig. O trem permite menos privacidade e liberdade que um carro, mas oferece chá e scones e passa por cima do viaduto Glenfinnan, espetacular construção em arcos de 1898, beirando o Loch Shiel e perto do monumento do mesmo nome, que marca o local onde Bonnie Prince Charlie começou o segundo levante Jacobitino.

Informações históricas à parte, o viaduto ficou famoso ao aparecer nos filmes do Harry Potter – fãs vão reconhecer. O sucesso da série, que continua superpopular no Reino Unido, incentiva o passeio de maria-fumaça, o mesmo que eu peguei naquela manhã gelada de outono, pintada como o Expresso de Hogwarts. O Jacobite Steam Train só funciona entre os meses de maio e outubro, vai e volta de Fort William até Mallaig num passeio de um dia, com paradas nos pontos mais bonitos e, se você der sorte, com chance de ver cervos correndo ao lado dos trilhos. O descanso do passeio deixa umas duas horas para almoçar e gastar em Mallaig. O que, acredite, é suficiente.

Mallaig

Numa viagem com mais tempo, vale a pena pegar o ferry em Mallaig para Skye, as Western (Lewis, Harris, North e South Uist) e as Small Muck, Eigg, Rum e Canna) Islands. Ou voltar para a água doce e procurar o tipo estranho de turismo voltado para um animal hipotético no Loch Ness – o que pode ser feito navegando pelo Caledonian Canal, obra do começo do século XIX que liga a pequena Corpach à Inverness, capital das terras altas escocesas e inspiração para a tapuia Campos do Jordão, aqui no estado de São Paulo mesmo. Mas isso é, espero, assunto para uma outra viagem.

Mais West Highland Line

http://www.visit-fortwilliam.co.uk
http://www.nationalrail.co.uk/

PS:
Loch = lago ou mar interno;
Glen = vale largo e profundo;
Moor = planice alta que não serve para plantações
#informei