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“On the Map”: uma história dos mapas do mundo

Uma das primeiras coisas que fiz na casa nova foi pendurar um mapa-mundi na parede. Fica na frente da mesa onde trabalho todos os dias, dentro do meu escritório/quarto. E naqueles momentos em que a gente olha pro nada, buscando a inspiração ou palavra perdida, meus olhos param no mapa.

É um daqueles mapas normais com latitudes/longitudes, trópicos, oceanos e afins. É impresso num material plástico e posso raspar a tinta com a ajuda de uma moeda para mostrar os países que visitei (algo que comecei mas não terminei, é muito chato).  Às vezes fico reparando como o Cazaquistão é extenso ou como o Japão está muito mais ao norte do que eu pensava ou como Cuba fica perto dos EUA.

Mas esse mapa não está certo.

O mundo já foi bem menor,

O mundo já foi bem menor,

Esse tipo de mapa é o mapa que nos acostumamos a ver: é um “Mercator”. Esse esquema do mundo foi criado por um cartógrafo alemão no século XV, pensado como ferramenta de navegação. Mercator foi um dos primeiros a aceitar o fato de que é impossível mostrar a realidade num mapa plano e seu modelo, apesar de não ter sido pensado para ensinar geografia no século XX, acabou se tornando a forma como aprendemos a enxergar o mundo: com o hemisfério norte dominante.

Hoje é aceita a idéia de que o mapa-mundi de Mercator não representa a realidade geográfica. Nele, o tamanho da Europa é exagerado, é possível navegar em linha reta logo abaixo do Ártico e a África é menor que a América do Norte. A projeção de Gall-Peters, projeto de 1885 retomada da década de 1970, mostra o mundo mais próximo do que ele realmente é (pelo menos em teoria).

Mapas sempre seguiram uma agenda política, comercial ou religiosa. Não existe mapa perfeito. Ou ainda, segundo Jerry Brotton, professor de estudos da Renascença na Queen Mary University de Londres e autor de 12 Maps That Changed the World, “todo mapa é subjetivo”.

O tamanho real da África: cabe Europa, Índia, China e EUA e ainda sobra espaço.Leia mais nesse post.

A história dos mapas começa na primeira vez em que alguém riscou a localização de uma manada de bisões na parede de uma caverna. E está historicamente ligada a rotas de comércio, poder religioso e política.

O escritor inglês Simon Garfield conta essa história com senso de humor e uma preferência quase sádica por ridicularizar catolicismo e os grandes exploradores europeus em On the Map: A Mind-Expanding Exploration of the Way the World Looks, um livro de 2012.

Garfield vai da Grécia antiga ao Facebook para explicar “a história de como pensamos que o mundo é”. Ele conta porque a América tem esse nome, lembra que nos mapas europeus a Califórnia já foi uma ilha  e derruba mitos sobre os grandes feitos dos exploradores brancos na África.

O mapa do metrô de Londres criado em 1933: ícone de organização, elegância e clareza. É usado até hoje.

O mapa do metrô de Londres criado em 1933 (quando boa parte de São Paulo não tinha nem asfalto), um ícone de organização, elegância e clareza usado até hoje.

Cheio de ilustrações (infelizmente em PB), o livro costura anedotas da Royal Geographical Society, citações de literatura (em especial Joseph Conrad, ele mesmo um aficionado por mapas) e cultura pop (Indiana Jones, Casablanca, Facebook, Twitter).

Inglês, Garfield dedica um capítulo inteiro ao processo de mapeamento do Reino Unido, começando com a reconstrução de Londres após o grande incêndio de 1666.

Voltando ao mapa-mundi de Mercator versus o Peter’s Projection (que você vê na ilustração principal desse post), fique com esse trecho de um episódio antigo do The West Wing, que era O seriado sobre a Casa Branca antes de House of Cards.

Foi um longo caminho desde os antigos mapas egípcios ou chineses que mostravam rotas comerciais por terra ou mar até os mapas portáteis digitais que carregamos no bolso.

Talvez aí esteja a questão mais importante da revolução cartográfica em andamento: os mapas digitais/dinâmicos que você carrega no bolso pra cima e pra baixo não tem a uma rota comercial, um monarca ou uma religião como centro: tem você mesmo.

A era do eu é isso aí.

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