Brasil, Viagem

O que você precisa saber para ir ao Jalapão

Dunas do Jalapão e Serra do Espírito Santo / Marcos Amend, Shutterstock

Passei uma semana no Jalapão com meu filho nesse começo de setembro. No último dia da viagem, durante o almoço num fervedouro especialmente lindo, ele quis saber qual lugar, em todas as minhas viagens, era o mais bonito. Não soube o que responder e saí com aquele clichê de que cada lugar tem sua beleza própria, que não dá pra comparar e etc. Mas passei o resto do dia na estrada de volta pra Palmas, pensando no assunto. E olhando o marrom, verde e azul do cerrado passando devagar pela janela do jipe decidi que, taí, o Deserto do Jalapão, Tocantins, deve bem ser o lugar mais bonito onde já coloquei os pés.

O Jalapão fica no meio do Brasil, onde a região Centro-Oeste vira Norte, perto da divisa com a Bahia, Piauí e Maranhão. É uma área remota e de acesso difícil, por onde dá pra andar dezenas de quilômetros sem ver absolutamente ninguém. Por lá vivem gaviões, lobos-guará e lagartos, o fogo e a areia são parte da vida e as veredas (o equivalente à “oásis” no cerrado) escondem olhos d’água que viram riachos de água fresca azul-clara. É tão bonito que é perfeitamente possível entender que pessoas larguem tudo e comecem vida nova por lá, caso da Maria José, nossa guia paulistana. “O Jalapão é bruto”, diz o ditado local. É bruto, sim. Mas é viável. Abaixo, algumas dicas que trouxe comigo após uma semana com meu filho no cerrado.

Dunas do Jalapão. Foto: Gaía Passarelli

A areia das dunas do Jalapão vem da Serra do Espírito Santo, logo atrás. É o lugar para ver o sol nascer ou se pôr.

O que ver

O norte do Brasil é a região menos povoada do país, e muito do Jalapão ainda é inexplorado, então os passeios são sempre meio que os mesmo: os fervedouros, a Pedra Furada, trilha na Serra da Catedral, nascer ou pôr do sol nas dunas, visita à Cachoeira da Velha, banhos de cachoeiras em Taquaruçu. A região tem vários quilombos e nas paradas, além de ouvir histórias e aprender sobre a vida na área, também dá pra comprar doces como rapadura e artesanato de capim dourado. Não espere muito das cidades-base do Jalapão, que são Ponte Alta, Mateiros e São Felix do Tocantins. Elas oferecem nada ou muito pouco além de uma parada de descanso. Os atrativos mesmo estão dentro das fazendas e do Parque Estadual. Dos quilombos, o Mumbuca é o mais famoso e tem uma festa da colheita de capim dourado todos os anos.

Jalapao: Fervedouro da Bela Vista

Mergulhar num fervedouro é como mergulhar numa piscina: a água é doce, fresca e clara. A água que sobe da areia no fundo faz bolhas de ar e não deixa você mergulhar. A sensação é difícil de descrever: imagine flutuar dentro de uma nuvem de areia branca super fina.

Como ir

A partir de Palmas em carro 4×4. É possível viajar independente, mas tem que segurar muito a onda de dirigir o 4×4 em estradas não sinalizadas. Recomendo ir com uma operadora de turismo. Pesquise e faça todas as perguntas que julgar necessárias: quais os passeios? o que está incluso? terei algum gasto extra? como é o veículo? quantas pessoas vão no grupo? onde vou dormir? o que vou comer? O site do turismo do Tocantins tem uma relação de guias. Ao contratar um especialista no Jalapão você colabora com a comunidade local e aprende coisas sobre a área que não vai achar em livros.

Estrada no Jalapão. Foto: Gaía Passarelli

O Lonely Planet tá certo: “it is very vast, with unmarked roads”

O que comer

Café da manhã nas pousadas ou hotéis é café preto, leite, pão, queijo coalho, alguma fruta e suco. O almoço e jantar normalmente são oferecidos pelas famílias nas fazendas onde estão fervedouros ou outras atrações são bastante básicos: arroz, feijão, farinha e algum legume, com frango ensopado, bife de boi estilo sola de sapato (se você der azar) ou peixe frito (se você der sorte) . O peixe mais comum é a caranha, bastante saborosa porém cheia de espinhos.. Não se acanhe e coma com as mãos. Alguns lugares também oferecem chambari, que é um corte de perna de boi com bastante tutano.

A parte de frutas é bem mais feliz, com riqueza de graviola, cupuaçu, mangaba, barú, banana, manga, caju e cajá. Elas se prestam a sucos e doces, e esses também podem ser de abóbora e buriti, o frutinho redondo e duro da onipresente árvore-símbolo da região.

Em Palmas você tem mais chance de experimentar a culinária do cerrado, como arroz com pequí, peixe no leite, peixada com coco-babaçu ou frango tostado (assado na brasa com alho, sal, toucinho, açúcar, cebola e pimenta-do-reino, bom demais). Comi um tucunaré frito excelente no Pneu’s Peixaria (grande nome!) perto da Praça dos Girassóis. Também me recomendaram a peixaria Tabu, que só abre a noite.

Tucunaré por guentermanaus via Shutterstock

Se encontrar peça tucunaré, peixe de rio da região norte do Brasil.

Onde dormir

Pousadas: em Mateiros/São Félix/Ponte Alta você vai encontrar opções bastante simples e, na minha experiência, limpas e adequadas se você não espera algo além de comida, banho e ar-condicionado. Outra opção é ficar em casas de moradores locais, normalmente com outros viajantes.

Camping: se esse é seu lance, desde que você leve seu próprio equipamento é perfeitamente possível acampar em fazendas e locais preparados com facilidades de banheiro, descarte de lixo e afins. Perguntei para algumas pessoas da área sobre camping selvagem e a opinião foi um unânime “é melhor não”. Há um esquema de camping de luxo, com tudo preparado para te receber em esquema rústico-chique. Chama Korubo e parece bem confortável, mas é caro e tem fila de espera. O blog Viagens Cinematográficas tem um guia sobre visitar o Jalapão ficando lá, leia.

Hotéis: O hotel com mais estrutura é o Jalapão Eco Lodge, na Serra da Catedral, e oferece bonitas cabanas tipo rústico-chique, além de atividades como caminhadas, pedaladas e observação de pássaros.

É importante você levar em conta se vale a pena ficar hospedado num lugar só, porque os rolês de ida e volta a cada dia são longos e cansativos. O esquema que eu usei foi tipo road trip, com pernoites nas vilas próximas aos atrativos de cada dia.

Pousada da Dona Neide em Mateiros, no Jalapão. Foto: Gaía Passarelli

Pousada da Dona Neide, em Mateiros, a principal cidade do Jalapão.

Quando ir

O Jalapão tem duas estações: muito quente e quente demais. Pra rafting, o ideal é o inverno (dezembro-março), quando chove e os rios ficam mais cheios. Pra passeios, melhor ir no verão (junho-agosto), quando o céu é mais limpo e as águas são mais claras. As estradas são horríveis tanto secas quanto molhadas e veículo adequado é essencial nas duas estações.

O tempo a ficar depende de você, mas considere que é legal é ter ao menos uma semana. Não é um lugar fácil de chegar/sair, os trajetos são longos e numa viagem muito curta você vai ficar com a sensação de que poderia ter aproveitado mais.

Vista da Serra da Cruz a partir da Pedra Furada, Ponte Alta, Tocantins

O Jalapão é bruto! Na época de secas o mato queima mesmo. As queimadas fazem parte da vida do cerrado, mas o turista tem que tomar cuidado extra para não colaborar com isso. Bitucas de cigarro são altamente perigosas.

O que levar

Espírito de aventura, bom senso e energia são essenciais. Fora isso, não vai dar para comprar nada pelo caminho, então leve tudo que você precisa, incluindo medicamentos, repelente e protetor solar. Ainda bem que não precisa de muita coisa: uma mochila pequena com roupas leves, confortáveis e que protejam do sol, mais roupa de banho, chinelo, toalha e chapéu. Uma máscara para mergulho não é essencial, mas vai fazer seu passeio mais legal, principalmente se você viaja com criança. Também leve dinheiro em nota (não vai ter “maquininha do débito”, acredite) para comprar doces e artesanato nas vilas ou nos quilombos. Em Palmas tem caixas eletrônicos no aeroporto, nos shoppings e em alguns postos de gasolina.

Estrada no Jalapão. Foto: Gaía Passarelli

Leve protetor solar, resistência à poeira e alguma paciência para quando as coisas derem errado. Acontece.

Viagem responsável

Por mais que o cerrado seja um ambiente resistente, a presença humana é problemática. Vale a máxima de não deixar nada pra trás. Tome muito cuidado ao dirigir: às vezes animais atravessam a pista. Não deixe nenhum lixo para trás e, caso seja fumante, preste atenção em onde bater cinzas. Bituca na mata não, nunca, de jeito nenhum. Ouça sempre as recomendações do seu guia, respeite os costumes simples dos moradores, não pise fora das áreas delimitadas nas dunas e pelamordedeus não mergulhe nos olhos d’água com o corpo besuntado de protetor solar ou com o rosto maquiado, como (pasme!) vi uma modelo fazer no Fervedouro do Buriti :/

Jalapão, dentro do fervedouro

Sabe essa água dessa cor? Só é assim porque não é poluída. Visite o Jalapão, mas mantenha desse jeito.

Quem leva

Eu fechei meu pacote em São Paulo com uma agência de viagens com pegada responsável, a Bee W Travel. Uma vez no Jalapão, quem cuidou de nossos traslados, passeios e informações, sempre com muita atenção e carinho, foi a Jalapão Eco Tour.

Outras dicas
http://www.40grausnocerrado.com.br/
http://www.venturas.com.br/
http://www.korubo.com.br
http://www.jalapaoecolodge.com.br

Leia também

Jalapão no site Lonely Planet gringo
Jalapão: entenda antes de ir (Viaje na Viagem/Ricardo Freire)
Como planejar sua viagem para o Jalapão (Catraca Livre)
E outras boas dicas nesse post de 2014 (mas ainda válido) do Sete Malas

Imagem do destaque: Dunas do Jalapão e Serra do Espírito Santo, Tocantins, via Shutterstock
Ps: Essa não foi uma viagem de trabalho e esse post não é um publi-editorial.