Prosa

Escrevendo no Freewrite

Astrohaus Freewrite

Meu Freewrite chegou! É uma máquina de escrever super leve e portátil, conectada via WiFi ao seu email e nuvem. Surgiu como um projeto de crowdfunding em 2014. Apoiei o projeto sabendo que o produto ia demorar pra chegar. E demorou mesmo: recebi o meu Freewrite mais de 18 meses depois de entrar no crowdfunding. Mas nunca duvidei que meu Freewrite seria entregue, porque os criadores do projeto mantiveram contato com os apoiadores em todas as etapas.

Minha dúvida era sobre o que chegaria pelo correio. Coisa de comprar no escuro, sem review de usuário pra ler. Além dos updates da equipe, a única opção durante a espera foi acompanhar no Kickstarter as discussões sobre possíveis-impossíveis funcionalidades. Até receber e abrir a caixa na segunda-feira, o Freewrite era só uma ideia. Eu não sabia se ele seria leve ou pesado, se o teclado seria confortável, se sync com a nuvem funcionaria mesmo, o plástico seria vagabundo.

Bom, minha espera acabou essa semana, junto com a de dezenas de financiadores. De cara, sei que o Freewrite é leve (e bonito!), o teclado é super confortável, o sync com a nuvem funciona e o look & feel agrada. Só que, assim como outros colegas Freewriters, na primeira hora de uso senti que tinha jogado dinheiro fora. Ainda bem que invés de fazer textão no Freewrite Community, decidi testar por uns dias.

 

 

 

Escrever no Freewrite não é como escrever no computador, nem como escrever numa máquina mecânica. É outra coisa. E essa falta de familiaridade torna a experiência inicial meio frustrante. Tipo que nem beijar alguém pela primeira vez – raramente acerta de primeira, mas com o tempo vocês encaixam.

O lance é que o Freewrite tem problemas. Algumas pessoas acham que esses problemas não são exatamente pequenos e outras entendem que são inerentes a um produto em versão alpha. Pra mim, os problemas são tão parte do processo quanto meus typos e acredito serão resolvidos com updates de sistema.

Exemplo: não tem arrow keys. Isso significa que você não pode voltar para corrigir uma palavra errada três linhas acima, como num computador. E nem passar branquinho e digitar por cima, como faria com papel. Arrow keys nunca estiveram no plano do Freewrite, é importante dizer, mas muita gente (como eu) não atentou pra o que isso significa. Na prática é irritante.

Além disso, o teclado de língua estrangeira não é ideal. Tive que colocar pequenos adesivos plásticos para marcar como as teclas ficam quando seleciono o teclado em português. O insistente aviso de ligar o WiFi é um crime numa máquina distraction free. Até o momento a máquina exporta apenas em .doc (via sync, e dá erro quando há um caractere estranho na primeira linha de texto) e .pdf (via email). Para baixar o .txt, só indo no Postbox (a nuvem do Freewrite) e fazendo o download manual. Ainda não existe a opção de transferir o texto via USB, nem de desligar a luz da tela de digital link e nem de bloquear o device com senha. Também não existe uma capa para Freewrite nem dá para configurar o screensaver.

A lista de desejos dos usuários é longa, porque o ideal é que as pessoas possam usar o Freewrite como bem entenderem: com ou sem arrow keys, com ou sem avisos de WiFi, exportando em .doc, .rtf ou .txt, via Google Docs ou USB.

Difíceis são os defeitos de hardware. Alguns Freewrite desligam quando conectados a um MacBook com o cabo USB que vem com o aparelho. Outros têm um probleminha na base e ficam sambando na mesa. Alguns ainda um defeito mecânico que trava o botão vermelho on-off.

 

 

 

O meu Freewrite, folgo em dizer, não tem nenhum problema desse tipo. E passado o estranhamento inicial, encaixamos. E encaixamos muito bem, obrigada.

O Freewrite serve para fazer rascunho. E só. Qualquer texto, seja um post de blog, seja um livro, começa no first draft. Consertar os typos, mudar a ordem das frases, apagar ou acrescentar um parágrafo, inserir itálicos e negritos vem depois, na edição. Escrever não é sinônimo de editar, apesar de os editores de texto modernos unificarem o processo. Isso é pratico por uma infinidade de motivos, mas interrompe o processo criativo também. Para algumas pessoas, quanto mais livre e fluido o rascunho for, melhor. O Freewrite é pra essas pessoas.

A vida tem distrações demais. A lição de casa do meu filho, o almoço pra fazer, a louça pra lavar. O freela pra entregar, a reunião pra participar, o blog pra manter vivo. A leitura de todos os dias, o Pilates, as tentativas de vida social. Escrever não fica exatamente de lado (tô sempre escrevendo) mas no geral rende menos do que eu gostaria. É raro conseguir meia hora que seja de fluxo criativo. O melhor método anti-distração é escrever no caderno, mas passar pro computador depois é um processo chato. Então o Freewrite é novo método pra mim, agradável e eficiente. 

O Freewrite impede que eu pare para olhar o celular, fazer café ou dar atenção pra Jezebel? Claro que não. Mas ele registra o que escrevo sem distrações num teclado muito agradável e manda a produção pra nuvem. Alcançar a meta de 1000 palavras a cada manhã tem sido bem fácil. Depois eu carrego, edito, corto, mudo, mexo, corrijo, conserto. Ao longo dessa semana, nesse sistema, escrevi pelo menos cinco textos aproveitáveis. Um é esse que você tá lendo agora. Tem outros não aproveitáveis também. O que me leva ao único defeito do Freewrite que realmente me tira do sério e me fez escrever um email enfurecido pra equipe: não é possível apagar os drafts do sistema. Eles ficam lá, flutuando no limbo para sempre.

E coisas inúteis flutuando no limbo pela eternidade nunca são uma coisa boa.

 

 

Enfim… valeu o investimento feito lá em 2014, quando o Dólar não estava R$3,00 ? Sim. Compraria pelo correio hoje, correndo o risco de gastar uma pequena fortuna em shipping e impostos? Acho que não. À venda em https://getfreewrite.com/

Outras opiniões

Flavorwire: I Tried the $500 Typewriter Gadget That Sends Your Rough Drafts to the Cloud
The Atlantic: The Future of Writing Looks Like the Past
Wired: The Retro Freewrite May Just Be the Ultimate Word Processor
Mashable: The $500 Freewrite word processor is pretentious hipster nonsense