Itália, Viagem

O que não fazer em Veneza

“Essa cidade é impossível!”

Essa era eu, suada, amassada, irritada e atrasada, gritando pelo celular com o amigo que me esperava no Campo Santa Margherita. Na certeza de que ia conseguir chegar sozinha, tinha dito que não precisava me buscar. “Tranquilo, eu já sei o caminho de cabeça”. Imagina. Tem gente que vive em Veneza a vida e continua se perdendo. Até o GoogleMaps se perde em Veneza. Quem sou eu para encontrar o caminho numa cidade como essa?

Mais do que um mapa dobrável, a primeira coisa que você tem que ter se quiser sobreviver na Sereníssima é senso de direção. A segunda coisa é tempo e a terceira é jogo de cintura. Porque Veneza não é uma cidade fácil. Por mais que seja bela, peculiar, histórica e impressionante, ainda assim alguns turistas voltarão para casa achando a cidade fedida, lotada e “nada demais”.

Compreensível. Uma das mais interessantes cidades do mundo e lar espiritual de escritores (Thomas Mann, Hemingway, Henry Miller, Balzac, Capote, Proust), o micro-arquipélago de atmosfera romântica se tornou um case dos malefícios do turismo. Quando cidades como Barcelona determinam regras para conter o turismo no local, é justamente para evitar o que aconteceu em Veneza.

Foto: Francesca Cappa via flickr/CC.

Foto: Francesca Cappa via flickr/CC.

E o que aconteceu ali? Pra começo de conversa, essa é uma cidade muito especial. As pontes, as igrejas, os campos e a Piazza San Marco tornam Veneza uma das cidades “tem que ver” tanto para americanos e asiáticos em visita à Europa quanto para europeus explorando o próprio continente. Veneza atrai visitantes há séculos. Só que hoje esses turistas chegam em monstruosos navios cruzeiros que despejam dezenas de milhares de turistas por dia na cidade flutuante de vielas e pontes estreitas.

A indústria dos cruzeiros espera estar carregando cerca de 25 milhões de pessoas por ano até 2020 (fonte: Cruise Market Research). Veneza, um dos portos turísticos mais populares da Europa, sofre com o impacto do diesel jogado na lagoa e lixo deixado por turistas. Tanto que existem movimentos para limitar o acesso dos cruzeiros. Há quem defenda inclusive a total proibição dos navios e de turistas de um dia.

O turista que desce do cruzeiro para entupir as lixeiras com garrafas descartáveis, comer em restaurantes ruins que empregam imigrantes em condições insalubres ou gastar dinheiro em dois cafés em San Marco, não deixa Euros em hotéis e restaurantes. O que ele deixa é dinheiro na forma de taxas suculentas no Autoridade Portuária de Veneza. Alguém faz muito dinheiro com o excesso de turistas, e não é a população local. Essa, aliás, diminui ano após ano, de saco cheio dos sotoportego congestionados e dos altos preços dos aluguéis.

Para você que quer (e deve!) visitar essa cidade espetacular e não quer ser apenas mais um turista fazendo peso nas pontes enquanto tira uma selfie, aqui vão sete dicas para aproveitar melhor Veneza.

O que não fazer vs O que fazer em Veneza

NÃO: Beba Belinni no Harry’s. A não ser que algum interesse literário justifique, não perca seu tempo e dinheiro. Esse site definiu bem: “alguns lugares são melhores quando esquecidos”.
SIM: Saboreie um Spritz num baccari (pequenos bares) na beira de algum canal no fim do dia. Ou no terraço do Bauers.

NÃO: Faça um passeio de gôndola. É caro, as filas são enormes e você vai se sentir como todos os outros turistas de Veneza navegando pelo canal numa fila de gôndolas enquanto um gondolieri canta Il Sole Mio. Convenhamos: você nem precisa estar numa gôndola pra isso. Na verdade, você nem precisa ir até Veneza! Mas, se você insiste, o Walks of Italy ensina como não cair numa roubada.
SIM: Aprenda sobre essas embarcações que são parte da história da cidade. Você pode ser gondoleiro por um dia. Pode até comprar a tradicionalíssima camisa com listras vermelhas ou azuis (a Emilio Ceccato é a única loja que vende para os gondoleiros). E pode ver o Squero de San Trovaso, uma pequena praia/cais onde cada uma das gôndolas venezianas são construídas.


NÃO: Tome café na Piazza San Marco. Há quem diga que é o mais caro da Europa. Você vai pagar para sentar, vai pagar o couvert artístico e vai tomar um café comum num lugar lotado enquanto ouve Il Sole Mio pela 400ª vez. Fuja.
SIM: O espresso em Veneza é tão bom quanto em qualquer lugar da Itália (se café super forte e cremoso é sua praia, claro). Qualquer confeitaria ou restaurante com mesa na calçada vale. Apenas se lembre que serviço de mesa é cobrado a parte. Uma boa dica é o Caffe Del Doge, que oferece degustações de grãos de várias partes do mundo.

NÃO: Compre garrafas de água descartáveis.
SIM: Carregue sua própria garrafinha e encha em qualquer uma das muitas fontes da cidade. A água de Veneza é limpa e tratada.

NÃO: Fique só nos pontos turísticos. É a forma certa de só encontrar turistas em Veneza.
SIM: É incrível como apenas virando uma rua você encontra vielas vazias, igrejas (são 139) tranquilas e a Veneza de verdade. Arrisque. Se perca.

San Michele, Veneza. Foto: Albert, via Flickr/CC. / https://flic.kr/p/eC7yrw

San Michele, Veneza. Foto: Albert, via Flickr/CC.

NÃO: Dependa dos water-taxis. Algumas “corridas” podem levar €50,00 do seu orçamento. A não ser que a localização do seu hotel ou apartamento exija, não há porque usar os barcos o tempo todo.
SIM: A regra de ouro de hospedagem em Veneza é aprender a andar. Os seis distritos formam uma cidade pequena e absurdamente agradável – ainda que, sim, bastante confusa. E isso vale para turismo também. O Walks of Italy oferece vários rolês por Veneza, fora de locais lotados, sempre andando com um guia local.

NÃO: Os tourist menu dos restaurantes podem ser uma solução fácil quando você está perdido e com fome, mas jamais serão a melhor opção. E nem a mais barata.
SIM: Pare num café/bar e procure tramezzini: sanduíches de pão branco sem casca, recheados com todo tipo de coisas deliciosas, como frios, legumes, embutidos, ovo e queijos. Se for mais pro fim da tarde, acompanhe seu drink de ciccheti (o equivalente de tapas, mas não confunda espanhol com italiano, per cortesia!). No inverno há vendedores de crema fritta pelas ruas. Nesse post dei uma dica parecida e o Walks of Italy tem um (en inglês) sobre a melhor comida na cidade.

Tramezzini. Foto do blog Gurmandistan, que tem um post ótimo sobre esses clássicos/baratos sanduíches italianos. Leia aqui.

* Estive na Itália por vinte dias entre maio e junho/2015 à convite da Eurail, do AirBnb e do Walks Of Italy dentro do projeto #ExploreItaly. Leia mais aqui.

** MAIS **

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