Tailândia, Viagem

Fui Sozinha: Chiang Mai (por Lívia Aguiar)

Fui à Tailândia pela primeira vez em março/abril de 2012, quando estava fazendo uma volta ao mundo sozinha, que durou nove meses de viagem intensa por vinte países. Nessa viagem, passei 7 dias comendo, visitando templos e me perdendo pelas ruas estreitas da Cidade Velha de Chiang Mai, que é bem diferente do estereótipo de Tailândia que conhecemos, porque fica no meio das montanhas, no norte do país. O centro histórico é a “Old City”, Cidade Velha, com ruas minúsculas, templos antigos e vários lugares charmosos. A Cidade Velha é cercada por um muro e um fosso e tem 5 portões, um ao norte, um a leste, um a oeste e dois ao sul. É fácil se orientar por eles.

Gostei tanto da vibe que voltei à Tailândia em novembro de 2015 e fiquei três semanas em Chiang Mai. Fiz um curso de massagem tailandesa que durou 14 dias e também aproveitei para participar do sensacional Festival das Lanternas, aprender a cozinhar comida tailandesa e me envolver na cena de artes plásticas e musical da cidade, que tem jam sessions de jazz regulares com tailandeses e gringos expatriados apaixonados por música.

Praticando massagem tailandesa na coleguinha de classe :D #eusouatoa #sabaitai #thaimassage #itm

A post shared by Lívia Aguiar (@eusouatoa) on

Porque a vida é barata, tranquila, a comida é ótima e a internet funciona bem, Chiang Mai agrega muitos nômades digitais de todos os cantos do mundo – e eu estava tão confortável que quase fiquei por lá também, hehe. E tambémor causa dos nômades digitais, Chiang Mai também tem uma profusão de cafés fofos com wifi grátis, aê!

Por que Chiang Mai?

É a principal cidade do norte da Tailândia e capital cultural do país. Chiang Mai tem uma tradição gastronômica forte e cena artística efervescente, com várias galerias de arte contemporânea, ateliers abertos para visitação que oferecem workshops regulares e feiras que vendem produtos de designers locais (essa matéria em inglês tem várias dicas pra você que está interessado em artes). Como antiga capital de um reino, Chiang Mai também tem templos antigos riquíssimos em detalhes, alguns museus históricos e feiras tradicionais com artesanatos das tribos das montanhas tailandesas.

É fácil andar para todo o lado dentro dos muros da Cidade Velha e há um sistema de transporte de caminhonetes vermelhas que fazem trajetos definidos por um precinho baixo e também é possível alugar bicicletas (a cidade é muito plana e se você ficar fora das grandes avenidas é bem tranquilo pedalar) ou motos (ninguém vai te exigir carteira internacional. Nem qualquer carteira de motorista, na verdade) para percorrer distâncias maiores, além dos tradicionais tuk tuks (esteja disposto a perder uns minutos barganhando o preço).

Três pequenos monges ❤️❤️❤️ #thailand #chiangmai #eusouatoa #sabaitai

A post shared by Lívia Aguiar (@eusouatoa) on

Quando e como ir?

A melhor época é entre novembro e abril, estação seca. De abril a maio é a “burning season”, quando o ar está muito seco e os tailandeses realizam queimadas para preparar o solo para a estação das chuvas. Ou seja: dá pra ir (e eu estive lá nessa época em 2012), mas vai ser um clima meio Brasília em agosto. Depois disso, começam as monções: abre uma torneira no céu e chove praticamente o tempo todo, todos os dias. Setembro é o pior mês de todos. Chuvas são uma catástrofe para quem está indo para as praias tailandesas, mas se essa é a única época que você tem para viajar, é possível aproveitar vários rolês em Chiang Mai, ainda que o ideal seja mesmo ir numa época mais seca.

Como ir? Muito fácil! De Bangkok partem ônibus (forma mais barata, fique de olho para comprar um de uma boa companhia que tenha ônibus que não vão quebrar no meio da estrada), voos (forma mais rápida) e trens diários (forma mais charmosa, escolha um trem noturno e a cama de baixo, que vira uma cama de viúva incrível – até a classe mais econômica é ótima).

Trem para Chiang Mai #eusouatoa #sabaitai #traintravel #thailand

A post shared by Lívia Aguiar (@eusouatoa) on

Onde fiquei

A maioria dos hotels e hostes ficam mais ou menos perto do mercado de Sompet, dentro da Cidade Velha. O entorno do mercado é meio que uma zona backpacker com hostels baratos, mas também tem o maravilhoso e luxuoso Tamarind Village ali perto.

Fiquei no A Little Bird Guesthouse que não é dos hostels mais baratos de todos, mas é barato mesmo assim, tem ar condicionado no quarto, um terraço super good vibes, é silencioso e perto do North Gate da Cidade Velha – já fica na parte nova da cidade, mas é bem perto de tudo, eu percorria a cidade toda à pé.

O que comer

O prato tradicional da cidade é o Khao Soi, um curry vermelho preparado com pimenta, temperos thai super refrescantes, macarrão fresco, leite de coco e frango (alguns restaurantes têm versão vegetariana), finalizado com cebola crua, picles de repolho e macarrão frito. Uma combinação de apimentado, refrescante, ácido, doce, macio e crocante que é imbatível e inimitável! E o Khao Soi é comido com macarrão, diferente dos outros curries tailandeses, que são servidos com arroz (é herança da proximidade de Chiang Mai com a fronteira chinesa). Recomendo muito o do Huen Muan Jai Restaurant, que fica perto do North Gate da Cidade Velha. Ele é frequentado quase que totalmente por famílias tailandesas, mas tem cardápio em inglês :) mas a verdade é que você vai achar Khao Soi em vários restaurantes da cidade.

Os sucos de frutas de Chiang Mai são imperdíveis, é uma variedade enorme de combinações e confesso que me surpreendi com o suco de banana com água e polpa de coco (juro, fica ótimo e refrescante, fica a dica pra lojas de suco brasileiras). No mercado de Sompet tem duas ótimas opções, mas os melhores mesmo são preparados na barraca da Sra Pa, no Chiang Mai Gate Market (que fica em um dos dois portões sul da cidade).

Também amo a salada de mamão verde, que é um prato típico do sul da Tailândia, mas vendido por toda parte (peça com pouca pimenta, o tradicional é MUITO apimentado!) O mamão verde vem ralado e crocante, temperado com limão, molhos thai, amendoim e camarãozinho seco (que você pode pedir pra tirar se for alérgico ou vegetariano).

De sobremesa típica, recomendo muito a manga com arroz grudento (mango sticky rice), que é bem isso: arroz grudento molhadinho com leite de coco e manga bem madura cortada por cima. Delícia demais.

O que fazer

Devido à tradição gastronômica de Chiang Mai, há uma abundante oferta de cursos de culinária tailandesa que duram um dia (ou meio, se tiver com pressa). Recomendo MUITO o curso da chef Yui, o “A Lot Of Thai”. O preço vai ser um pouco mais alto do que os folhetos de divulgação dos hotéis, mas os poucos reais a mais valem MUITO a pena: ela fala inglês perfeito, tem muito conhecimento para passar, conta como substituir os ingredientes que não temos no Brasil para repetir as receitas em casa (e inclusive conhece o Brasil e sabe indicar onde comprar os temperos secos tailandeses no bairro Liberdade em São Paulo!)

A escola de cozinha fica na casa da família dela e é meio afastada do centro, mas ela pode buscar você no seu hotel. Cada aluno tem sua bancada com todos os equipamentos necessários pra aula, o livro de receitas é bastante completo e o tour pelo mercado (que faz parte de quase todos os cursos ofertados) é feito nos arredores de Chiang Mai, num mercado nada turístico e com vendedores simpáticos que não vão te cobrar mais só porque você é turista (e a Yui também não vai te deixar pagar mais que o preço justo).

Livia Aguiar: Chiang Mai, aula de cozinha com Yui

Curso de cozinha Professora Yui mostra os diferentes tipos de molhos usados na cozinha tailandesa.

Vários “jungle tours” pelas montanhas e tribos também partem de Chiang Mai, mas confesso que não fiz nenhum porque esse tipo de turismo com as tribos virou um “show”. Tem algumas tribos das “mulheres girafa”, que têm o pescoço alongado por aros de metal, mas elas são em sua maioria refugiadas das guerras civis no Mianmar. E trekkings pelas montanhas de Chiang Mai me pareceram meio programa pra gringo que nunca viu floresta tropical… como a gente já tem muitas dessas aqui, preferi gastar meu tempo fazendo outros programas que não existem no Brasil. Filosofei um pouco mais sobre as diferenças entre os turistas europeus, americanos e australianos e os brasileiros nesse post, escrito em 2012 durante a minha volta ao mundo.

E o o encontro com elefantes? Centros de cuidados de elefantes são bastante divulgados nos hotéis, mas na maioria das vezes exploram os paquidermes. Todos vão dizer que os elefantes foram resgatados de um circo, blablablá, mas quase sempre essa história é mentira. Se quiser mesmo ter um encontro com um elefante, o Elephant Nature Park é a melhor opção. Você não vai montar num elefante, mas vai poder alimentá-los e acompanhá-los até o rio para um banho (o que é muito legal!). Leia mais sobre a questão dos elefantes usados como atração turística nessa reportagem do The Atlantic (em inglês).

Para quem está buscando espiritualidade, Chiang Mai tem diversos retiros de meditação. O templo Doi Suthep, que fica numa montanha próxima, tem um retiro de meditação vipassana (daqueles que você fica sem falar por vários dias). Nesse post (em inglês)  tem uma lista com várias opções e tipos de meditação para quem quer aprender a meditar ou melhorar sua experiência meditativa.

O que ver

Templos, templos e mais templos. Eles aparecerão por todos os lados dentro e fora da Cidade Velha de Chiang Mai. Entre nos que apelarem mais aos seus sentidos, todos têm sua beleza e dá pra ficar observando os monges fazendo suas tarefas diárias por um dia inteiro. Aproveite a calma dentro deles para meditar e descansar antes de sair no calor da rua para o próximo passeio.

Além dos templos na cidade, o Doi Suthep é um templo que fica encarrapitado numa montanha próxima à cidade. Existem tours que fazem o caminho ou você pode contratar uma das caminhonetes vermelhas para te levar até lá. A vista lá de cima é muito linda e o templo em si é impressionante.

Os mercados são de encher os olhos, mesmo pra quem não quiser comprar nada. A oferta é vasta: tem feiras durante o dia, feiras noturnas, feiras com foco maior em comida, artesanato, design local, mercados de alimentos e até dá pra comprar sementes para plantar algumas verduras tailandesas no Brasil – só não deixe muito à mostra na mala porque a Receita Federal não curte esse tipo de mercadoria.

Acho que a minha maior descoberta nessa última viagem a Chiang Mai foi o North Gate Jazz Co-Op , um bar que tem jazz ao vivo tocando todas as noites. Terça-feira é dia de Jam Session e com certeza é o dia mais cheio (e melhor), porque qualquer um pode vir e improvisar junto. Aparecem músicos muito bons, alguns turistas de passagem, alguns expats e muitos tailandeses que têm a manha do jazz. É um ambiente descontraído, divertido e um bom lugar pra tomar uma cerveja e fazer amigos #ficadica pra quem vai sozinha.

Noviços se reúnem pro mantra do pôr do sol #sabaitai #chiangmai #eusouatoa #tailandia #thailand #buddhism

A post shared by Lívia Aguiar (@eusouatoa) on

O que comprar

Os artesanatos tradicionais de tribos tailandesas são maravilhosos e muito baratos. Encontre-os nos mercados pela cidade e também em lojas em Chinatown, onde inclusive é mais barato (mas só abrem durante o dia). Levei sapatos bordados a mão pra presentear, calças tradicionais folgadinhas tingidas de índigo natural, blusas bordadas e umas sandálias feitas com pneu de caminhão que são antiderrapantes e super confortáveis (calço 39-40 e tenho pé largo, é difícil achar sapato pra mim), que eu comprei de um sapateiro que fica do lado de fora do Warorot Market, em Chinatown. Dentro da Cidade Velha, uma rua é fechada durante o fim de semana com produtos de designers locais, que são bem interessantes. E é tudo mais barato do que os mercados de Bangkok.

Quer levar um produto diferente e apoiar jovens artistas locais? Vá até o Taphae East, em Chinatown. Lá você vai encontrar acessórios, roupas e os incríveis cadernos feitos a mão da Dibdee Binder. O centro cultural é num espaço lindo e também tem um café e um restaurante, tudo bem delicioso. Fique de olho no Facebook deles para ver se vai ter alguma programação especial: às vezes tem workshops de encadernação, shows, sessões de cinema, feiras… é incrível e todo mundo fala pelo menos o básico de inglês.

“Mas você vai sozinha?”

SIM!

Chiang Mai é bastante segura para mulheres viajando sozinhas. Eu nunca recebi nem uma cantada e me senti bem tranquila andando à noite sozinha, inclusive pelas ruas mais vazias do centro. A cidade tem uma atmosfera relaxada, com  muitos cafés, feiras, mercados e monges por todo lado. Dito isso, é preciso sempre lembrar de cuidar da bolsa e da carteira, afinal pequenos furtos acontecem em qualquer lugar do mundo, especialmente em mercados lotados.

Se estiver procurando companhia, o North Gate é apenas um dos bares legais onde você pode conhecer novas pessoas (viajantes e locais) e se você quiser badalação jovem cheia de gringos e bebida barata, o Yellow é o seu lugar.

Fui sozinha: Chiang Mai

Leia também

Para mais informações sobre a Tailândia, veja esse meu post geral sobre segurança e preços.

* foto do destaque: mercado em Chiang Mai, via 501 room, Shutterstock.