Peru, Viagem

Fui Sozinha: Cusco

Foto: Allen.G via Shutterstock CUSCO, PERU, FEB 18 - Aerial view of Quechuan Incan women in traditional garb walking on cobblestone street in Cusco, Peru, on February 18, 2017. Quechuans often wear traditional outfits for photos.

Verdade seja dita, essa não foi uma viagem sozinha para Cusco. Foi uma viagem com colegas jornalistas para trilhar o Vale de Lares, uma das rotas alternativas para Machu Picchu, aventura boa que vou contar por aqui logo mais. Eu que estiquei o convite para conhecer melhor a íngreme capital do Império Inca, que já tinha visitado duas vezes em viagens curtas de trabalho — quem acompanha o blog deve lembrar da viagem com o 3 Travel Bloggers que rendeu esse vídeo com o colega colombiano Daniel Tirado. Também veio de Cuzco a crônica “Conselhos Sentimentais de um Xamã Andino” que você pode ler na íntegra aqui no comum.vc e que mais tarde entrou no meu livro Mas Você Vai Sozinha?.

O que encontrei dessa vez foi uma cidade diferente da que eu lembrava. Abaixo eu conto. Antes, vamos tirar da frente uma dúvida: é Cusco ou Cuzco? Bom, na língua quéchua é “Qosqo”, a cerveja local chama Cusqueña e o Lonely Planet Peru ensina que as duas grafias são válidas. Essa coisa de grafia variável é constante no Perú. Ao procurar pelas ruínas de Ankasmarka, por exemplo, você vai encontrar Ankasmarca, Ankasmarca e afins, inclusive em sinalizações oficiais. Portanto, não se apegue.

#VanLife. Um lembrete de Alexander Supertramp. Entendedores entenderão. Foto: Adriano Fagundes.

Quando/como ir

A estação de seca nos Andes vai de maio a setembro e a temporada de turismo acontece principalmente entre junho e agosto. Isso por causa do tempo seco e das férias escolares nas cidades sul-americanas . Nessa época espere encontrar muitas famílias indo/voltando de Macchu Picchu (que fala Maxu Piktchu e não Maxu Pixu, que quer dizer “pinto velho”#informei).

A época de chuvas, de novembro a março, tem duas vantagens: tudo é bem mais barato e se você for encarar trilhas a mata estará muito verde. Mas a considerável desvantagem é a iminente possibilidade de tempestades torrenciais inviabilizarem passeios nas montanhas. Além disso, Machu Picchu fecha em fevereiro.

Por ser o aeroporto mais próximo, Cusco é porta de entrada para Machu Picchu e parada obrigatória para quem vai visitar as cidades do Vale Sagrado. Há inúmeras agências de viagem para todo tipo de orçamento e gosto oferecendo pacotes que vão de passeios de um dia à expedições de uma semana. Você pode encontrar e contactar as agências e fechar passeios chegando lá, mas é mais esperto fazer isso com antecedência. Primeiro porque Machu Picchu está cada vez mais cheia e limitada por regras para conter o número de visitantes; segundo porque vale a pena pesquisar a reputação das agências e evitar cair em roubadas. Minha recomendação é a Mountain Lodges of Peru, que tem pequenos hotéis nas montanhas, só trabalha com guias locais e grupos pequenos e tem acesso a lugares distantes e pouco conhecidos.

Não deixe de considerar o soroche, o mal de altitude que pega algumas pessoas (tipo eu) de jeito. Os sintomas mais comuns são dores de cabeça, enjôos, dificuldade de concentração e falta de ar. Mas, salvo raras exceções, não é nada grave e se você cumprir a regra de descansar o corpo no primeiro dia, evitando comidas pesadas e esforço físico, deve ficar bem. O remédio local é a folha de coca seca que você pode comprar em qualquer lugar: basta mascar um pouco e deixar em contato com gengivas. Também há pílulas à venda em farmácias, mas nunca tomei. Também considere o clima. Cusco é uma cidade alta, 3.450 metros acima do nível do mar, e faz frio mesmo no verão. Leve casacos, botas e pense em camadas de roupas para as trilhas. Protetor solar é essencial.

Plaza de Armas de Cusco, com a Catedral espanhola ao fundo e a estátua de Pachacuteq, “o melhor Inca” e construtor da cidade.

O que comer

O prato mais famoso é o lomo saltado: filé em lascas com cebola, tomate, coentro e pimentão, normalmente servido com batatas fritas e arroz. Outro tradicional encontrado em qualquer restaurante local (e meu preferido) é o ají de galina, que leva frango num molho amarelo e acompanha arroz com milho branco. Pollo ala brasa é o frango assado basicão onipresente no Peru, servido com arroz e vegetais, normalmente bem temperado, com casca crocante e carne suculenta. Ainda no assunto braseiro, brasileiros estranham mas o cuy, (que a gente conhece como porquinho-da-Índia) aqui é comida e vem assado em espetos. As causas são pequenas torres de massa de batata amarela com todo tipo de recheio, de peixes à abacate, de ovo à camarão, invariavelmente frio e delicioso. Já os famosos ceviches peruanos aqui são de cogumelos ou de truta porque estamos nas montanhas e longe da fartura de frutos de mar de Lima. Por causa da extensa variedade de vegetais, vegetarianos passam bem em Cusco, uma vez que quase tudo é baseado em combinações coloridas de milhos, batatas, grãos e pimentas.

Para beber: chicha morada (refresco doce de milho roxo, é doce e delicioso, dê uma chance), cerveja Cusqueña, café, chocolate quente, chá de coca e de cacau (com pedaços de laranja é bom demais, procure!) e de muña (uma planta que parece hortelã e é digestiva), sucos frescos e Inka Cola.

Para aprender sobre a comida peruana e como imita-la em casa (em São Paulo dá pra achar a maioria dos ingredientes por causa da forte comunidade peruana) vale fazer uma aula de cozinha. A cooking class mais famosa é a do Marcelo Batata, que tem um restaurante próprio numa ladeira perto da Plazoleta Nazarenas – onde fica o Belmond Palácio Nazarenas, o hotel que me hospedou em outra viagem à Cusco.

Ají de gallina do Marcelo Batata em Cusco: meu prato preferido na viagem toda.

Ají de gallina no restaurante Marcelo Batata em Cusco: meu prato preferido na viagem toda.

O que ver

Dá para conhecer as principais atrações de Cusco em dois dias, mas recomendo pelo menos quatro, sendo um para descansar e aclimatar e três para trabalhar as pernas subindo e descendo as ruelas e escadarias coloniais. Como em quase qualquer cidade, o melhor da viagem está em andar sem pressa descobrindo coisinhas e lugares. Isso vale especialmente para San Blás, o “bairro boêmio” de Cusco onde estão os cafés, restaurantes e lojas mais legais, além do obrigatório mirante para a foto instagramável da cidade.

San Blas, Cusco, Peru

Muros de pedra em San Blas, Cusco

Alguns museus e passeios são imperdíveis tanto pelo valor histórico quanto para entender o processo de transformação de Cusco de capital inca para a cidade cosmopolita que é hoje. Então por mais que você faça a linha “odeio turistas”, para entender Cusco (consequentemente muito da América do Sul) você precisa visitar o templo Qoricancha, as ruínas de Saqsayhuamán e Tambomachay e as duas construções principais da Plaza de Armas, a Catedral e a Companhia de Jesus — a maioria faz parte do “passaporte” turístico de Cusco, um ingresso que reúne 16 atrações num pacote e que você compra em agências de viagem ou no atendimento ao turista na cidade que fica atrás do Qorikancha (é necessário ter o passaporte em mãos). O site oficial tem informações pontuais e o SundayCooks tem um bom post em português aqui.

Na prática não precisa de guia para fazer a maioria desses passeios e circular de ônibus entre uma atração e outra requer algum planejamento mas é totalmente possível. Considere entrar em grupos de agências e visitar as atrações com um/a guia local: além de ter transporte garantido, a chance é que você vai aprender muita mais do que se estivesse sozinha.

O que está fora desse pacotão turístico e vale muito a visita: o Museu Inka, o Museu de Arte Pré-Colombiana (principalmente as salas dedicadas à joalheria indígena) e o Museu do Pisco (dica: é um bar). O Museu da Coca, na praça de San Blás, é pequeno, simpático, meio kitsch e bastante explicativo.

Never as happy as when 🌎💃

A post shared by Gaía Passarelli (@gaiapassarelli) on

O que comprar

A malharia, joalheria e gastronomia de Cusco merecem espaço na sua mala e voltar com ela cheia não é nada difícil. Nas ruas comerciais e mercados você vai encontrar de roupas caras de lã de alpaca à grãos como quinoa e milho branco (procure no Mercado San Pedro) e peças incríveis de ouro, prata e pedras semi-preciosas. Também vale visitar os estúdios de artistas de qualidade variável espalhados pelo bairro de San Blas.

Se for escolher um item só, não pense muito e vá de tecelagem. Mas preste atenção, porque a arte dos ricos tecidos bordados dos Andes tem pouco a ver com os pedaços de lã colorida com motivos gráficos que você encontra nas lojas de souvenires. Vi com meus olhos e confirmo que são os mesmos em Cuzco, em Chichicastenango ou em Oaxaca e tem qualidade de trecaiada chinesa.

Centro de Textiles Tradicionales de Cusco, Peru

Trabalho manual no Centro de Textiles Tradicionales de Cusco.

Para diferenciar um produto artesanal autêntico de uma porcaria industrializada qualquer considere o preço e o peso. Uma peça feita a mão pode levar até um ano de trabalho e isso custa, ou deveria custar, um pouco mais caro. Quanto ao peso, os fios de lã de verdade, trabalhados e tingidos, são pesadas mesmo e mesmo dobrados vão ocupar espaço na sua mala.

A dica é escolher bem. Faça perguntas, prove, peça para ver mais e investigue a parte de trás do tecido: o trabalho manual sempre é arrematado por pequenos nós. Tem um post legal sobre isso no site Terramundi. Tome cuidado com o ato de pechinchar, um costume que não é tão comum na América do Sul e que pode ser confundido com uma desvalorização do trabalho.

O melhor lugar para comprar peças, que podem ir de simples cintos bordados até mantas maravilhosas, é o Centro de Textiles Tradicionales de Cusco. Cada peça é numerada e vem com o nome e aldeia da pessoa fez. Nenhuma peça é igual a outra e o lugar também tem um pequeno e bem montado museu que conta a história da tecelagem andina e da cooperativa.

Em San Blas também há uma pequena loja da Fair Trade que vende principalmente peças menores como luvas e gorros.

Descoberta da viagem: essa loja/museu/depósito de peças bordadas a mão no coração da Plaza de Armas. Foto: Adriano Fagundes

Descoberta da viagem: essa loja/museu/depósito de peças bordadas a mão no coração da Plaza de Armas. Chama Tienda Museo textiles de Josefina Olivera e hijos e fica no Portal Comercio, loja 173. Só comprei uma fita para amarrar a máquina fotográfica, mas ainda sonho com o poncho roxo de U$400 que estava pendurado na porta. Suspiros. Foto: Adriano Fagundes

Mas você vai sozinha?

Cusco é demais. Sério mesmo. Porém poucas vezes me senti tão incomodada em estar sozinha, e nem era por causa de saudades da turma da trilha. Tenho um tipo físico que me ajuda a passar despercebida em vários lugares mas, apesar de pequena e morena e talvez por causa do cabelo curto ou da pele muito branca, me senti chamando a atenção a todo instante. A explicação provavelmente está no tipo de turismo exagerado e predatório que tomou conta de Cusco nos últimos anos. É difícil andar tranquilamente em Cusco Vieja, mesmo com fones de ouvido, óculos escuros e passo apertado. Em cinco dias sozinha na cidade tive o braço agarrado mais vezes do que quis contar, fui alvo de vendedoras de souvenires insistindo em contar histórias tristes para vender colares de prata e de avanços de caras oferecendo “algo especial para a noite, senhorita?”. Andando com meu grupo por Cusco alguns dias antes não teve nada disso, daí fiquei com a forte a impressão de que por ali mulher sozinha é vista como alvo fácil e oportunidade a ser aproveitada.

Meu conselho: vá. Pelo amor de todos os apus, vá mesmo. Mas se informe sobre os truques mais comuns, não dê atenção para os guias de turismo oferecendo passeios nas ruas (SEMPRE compre em agências, pesquise com calma antes de viajar) e tome cuidado ao andar a noite sozinha.

Aquela coisa: na viagem como na vida.

Fui Sozinha: Cusco, Peru. Gaía Passarelli, 2017-18

 

Veja também

Fui Sozinha: Patagônia (Argentina e Chile)

Fui Sozinha: Porto, Portugal

Fui Sozinha: Oaxaca de Juarez, México

Importante