Turquia, Viagem

Fui Sozinha: Istambul

By badahos Stock photo ID: 170821352 Sultan Ahmed Mosque in Istanbul against the blue sky

(Por Gabriela Cavalheiro)

Pisei em Istambul pela primeira vez em junho de 2016, vinda de Sarajevo, e a primeira coisa que notei foi o caos do trânsito. Hoje, escrevo este texto como alguém que escolheu Istambul como lar temporário. E sei que caos é o que define Istambul. Mas não só caos como uma desordem, e sim caos enquanto cosmos, o universo aberto ao descobrimento. Pode checar, está no dicionário! Por isso, minha perspectiva é de quem fala daqui. Vim a convite de um amigo e tive a chance de conhecer a cidade com os olhos de um local, alguém que insistiu em me privar das armadilhas pra turistas.

Quando vim pela primeira vez, cheguei num cenário bem diferente, desembarcando no Ataturk Airport (dica: é um excelente aeroporto pra conexões para quem viaja para a Ásia) apenas quatro dias depois de um atentado em que atiradores abriram fogo contra turistas no terminal internacional. Na ocasião a cidade estava excepcionalmente vazia.

Pratos de cerâmica no Grande Bazar de Istambul. Foto: Anna Soelberg via Shutterstock.

Pratos de cerâmica no Grande Bazar de Istambul. Foto: Anna Soelberg via Shutterstock.

Quando ir

Quem pretende conhecer Constantinopla, que é como os gregos chamam Istambul, precisa ter uma coisa em mente: venha no verão. Durante o verão a cidade fica muito mais vazia do que no inverno, porque apenas os turistas árabes se atrevem a enfrentar as temperaturas altíssimas.  Mas, não só isso. Tudo fica mais calmo e viajar com mala de verão é muito mais prático, porque o inverno turco é bastante severo. Além do mais, os turcos que residem em Istambul costumam ir pro litoral durante o verão. Além disso, durante o verão, tudo fica mais barato e desde o golpe de estado ocorrido em julho de 2016, os preços caíram demais por aqui, então se você deseja visitar o país, agora é uma boa hora.

Mas se você decidir vir no inverno, prepare roupas bem quentes e lembre que neva em Istambul.

Istambul no verão? Dá pra ir, sim! Foto: Gabriela Carvalheiro.

Istambul no verão? Dá pra ir, sim! Foto: Gabriela Cavalheiro.

O que comer

Você precisa experimentar o café da manha turco. E prepare-se para experimentar de tudo: o café da manha deles é uma refeição inteira! Além da variedade de queijos, pães e ovos que podem ser mexidos, fritos, com suçuk (um tipo de linguiça bovina, os turcos são muçulmanos e não comem porco), também há salada (pepino, tomate e um tipo de pimentão verde), azeitonas, geléias e molhos comuns da culinária árabe como tahine, mel com kaymak (um tipo de creme leitoso, que lembra nata, mas muito mais saboroso). Para beber café coado (sim!), café turco (em que o pó é misturado à água) ou chá preto. Na maioria das vezes o chá já vem incluso e você pode tomar à vontade.

A culinária turca é muito boa e bem pesada. Se divide em diferentes regiões e, assim como os italianos costumam ser específicos com seu bairrismo culinário, os turcos também o são. Em Istambul você consegue experimentar de tudo, mas não pense que comer kebab te transforma numa connoisseur da culinária otomana. O kebab nada mais é do que qualquer prato com uma carne que seja preparada naquele enorme espeto rotatório, comum na Europa e também em algumas cidades do Brasil. Dentro da enorme variedade de kebabs, você pode comer o iskender (carne servida no prato coberto com pão e molho e tomate, acompanhado de iogurte, é meu segundo favorito), o shish kebab (que vem nos espetos e lembra um pouco o espetinho brasileiro), o dürum kebab (sanduíche tipo wrap) ou o cağ kebab — esse, sim, meu favorito, em que a carne é grelhada aos poucos num espeto menor, bem próximo da brasa, e é servido no prato com tomate e cebola picados, uma pimenta grelhada e acompanhado de uma porção de lavash, um pão fino como uma folha de papel. Você será servido aos poucos e as porções consistem em quantos espetos você quiser comer. Eu só como um, mas geralmente as pessoas comem de três a quatro, porque a carne é bastante leve e os pedaços são pequenos. Você mesmo prepara seu sanduíche: rasgue um pedaço do pão, coloque pedaços da cebola e do tomate e em frente. Simples e delicioso!

Cağ kebab: simples e delicioso. Foto: Gabriela Carvalheiro.

Cağ kebab: simples e delicioso. Foto: Gabriela Cavalheiro.

Além dos kebabs, há muitos outros tipos de pratos com carne como o pide, que lembra uma esfirra aberta, mas bem maior e com apenas três variedades de recheio: carne, carne com queijo ou queijo. O pide é um dos pratos específicos da região do Mar Negro e normalmente é servido com recheio de carne e um ovo frito no meio. Existe um outro prato famoso que você provavelmente vai experimentar (ou deveria!), o lahmajoun. Há quem chame ele de “pizza turca”, mas não há nada de pizza nesse prato, é uma massa fina coberta de carne picada, cebola, limão e salsa. Existem restaurantes que só servem lahmajoun, como o Tatbak, em Nişantaşı, tradicional e delicioso. Saladas não são o forte da culinária otomana, a não ser que você vá ate Izmir, onde a culinária do Egeu exerce muita influência e as saladas são como as gregas.

Nos últimos anos houve um boom de cafés moderninhos na cidade e mesmo neles o café turco, normalmente servido numa pequena xícara, como um espresso, é mandatório. Você também pode ter a sorte lida a partir da borra do café e verá muita gente virando a xícara de cabeça pra baixo depois de beber, mesmo que não seja com a intenção de ler a sorte. A região de Cihangir, próxima ao famoso distrito de Taksim (que recomendo evitar) tem vários cafés. Um deles, o Müz – Botanik & Kahve, mistura design, plantas e café e merece uma visita. Nas ruas próximas ao Müz você encontrará vários cafés com conceitos diferentes.

Café turco em Istambul. Foto: Shutterstock.

Café turco em Istambul. Foto: Shutterstock.

Não deixe de visitar as padarias turcas, com folheados, biscoitos e coisas deliciosas de todos os tipos e pra todos os gostos. Nas padarias você também encontra o “pão francês do turco”, o simit (também vendido nas ruas em pequenos carrinhos vermelhos, geralmente por senhores de idade, muito tradicional e saboroso), e os böreks, massa folhada com recheios de carne, batata, queijo ou espinafre. Recomendo especialmente esse último.

Padaria em Istambul. Foto: Gabriela Carvalheiro.

Padaria em Istambul. Foto: Gabriela Cavalheiro.

O que ver

Uma visita aos principais pontos de Istambul como o Museu de Arqueologia, a Hagia Sophia, a Basilica Cistern, a fortaleza de Rumeli Hisari, a Sultanahmed Camii e a Mesquita Azul são paradas obrigatórias. O mesmo vale para o Grand Bazaar, que tem história milenar como o maior e mais importante mercado do período medieval. Mas esses lugares, bem como as informações indispensáveis sobre eles, são fáceis de acessar.

Então quero dizer que vale a pena sair do lugar-comum em Istambul e ver o que a cidade oferece longe dos holofotes do turismo. Os lugares que mencionei acima ficam do lado europeu, mas não deixe de visitar Anatólia, a parte asiática, do outro lado do Bósforo. Para chegar, pegue uma balsa em Karaköy (custa em torno de cinco liras turcas, menos de R$5) e vá ate Kadiköy, um bairro bem bacana e moderno nas margens do Bósforo.

Ao lado de Kadiköy fica o distrito de Moda, com dezenas de cafés, pequenas livrarias charmosas e muitos turcos fumando e tomado chá do lado de fora.

As principais atrações turísticas ficam do lado ocidental, mas para conhecer Istambul de verdade você precisa atravessar a ponte sobre o Bósforo para o lado asiático. Foto Koraysa via Shutterstock.

As principais atrações turísticas ficam do lado ocidental, mas para conhecer Istambul de verdade você precisa atravessar a ponte sobre o Bósforo para o lado asiático. Foto Koraysa via Shutterstock.

O que comprar

Não dá pra ir pra Istambul e não fazer compras. A cultura turca é uma cultura do comercio, então se prepare para encontrar pequenas lojas com produtos irresistíveis, especialmente de decoração e vestuário. E no quesito têxtil, a Turquia é parada obrigatória. Afinal de contas, a Turquia fornece tecidos pra quase toda a Europa e vários países do Oriente Médio — com mão de obra não-escrava, vale lembrar. Aqui você pode encontrar de tudo a preços relativamente módicos, desde marcas europeias como a (amada) COS, até marcas com DNA turco como a Vakko e a Yargici. Recomendo muito a visita a lojas mais conceituais como a Souq Dükkan, conglomerado de variedades oferecendo produtos de criadores locais, de bolsas à jóias e elementos de decoração. Vale visitar, mesmo que os preços não sejam os mais baixos.

Alguns dos designs do Souq Dükkan. Foto: Gabriela Carvalheiro.

Alguns dos designs do Souq Dükkan. Foto: Gabriela Cavalheiro.

Mas você vai sozinha?

Vai sim! A Turquia não está muito bem no ranking de países mais seguros para mulheres que viajam sozinha, mas também não chega ao nível assustador dos nossos vizinhos latino-americanos e do próprio Brasil nesse mesmo ranking e no quesito violência contra turistas. Além de ter uma infraestrutura adequada ao turismo, o país não sofre uma epidemia de violência urbana como a que sofrem os brasileiros. Além de um eventual pick pocket, que você encontra em qualquer lugar do planeta, em Istambul ninguém esta interessado em roubar seu celular, suas joias ou sua câmera fotográfica. Mas vale lembrar sempre que, apesar de Istambul não deixar transparecer muito, a Turquia é um país de grande maioria muçulmana, então existe um certo dress code para certos locais, como as mesquitas. Mas se você não estiver vestida de maneira considerada adequada poderá emprestar véus e vestimentas na entrada desses locais.

Blue Mosque. #istanbul #turkey #ramadan

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Com relação ao que vestir no dia-a-dia, eu não fui muito “recatada” nos padrões tradicionais, mas estava sempre acompanhada de locais. É muito claro quem é estrangeiro e quem não é, só pelas roupas. As turcas, mesmo as que se denominam não-tradicionais, raramente usam roupas mais decotadas ou shorts mais curtos. Mesmo assim, eu perambulei pela cidade (durante o Ramadan!) vestida de forma “ocidental” sem problema.

Mas se você for se embrenhar pela região asiática, fica a dica, não se vista do mesmo modo como se vestiria numa praia do Leblon ou de Santorini. Por lá as pessoas tendem a ser conservadoras e vão te olhar com cara estranha na rua se te virem com um decote ou as pernas muito à mostra. Não vou entrar no debate “respeito a tradições culturais” X “liberdade de expressão”, esse é só meu ponto de vista e ele tem funcionado bem assim. Falando nisso, eu escrevi um texto só sobre essa questão sartorial pro site Petiscos, leia aqui.

Fui Sozinha: Istambul

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