Comida, Mas Você Vai Sozinha?, México, Viagem

Fui Sozinha: Oaxaca de Juarez, México

Plaza Santo Domingo, Oaxaca, México

Fazia tempo que não viajava sozinha e eu estava me sentindo mal com isso. Menos por causa do meu livro e mais porque estava com saudades de viajar de um jeito que não é possível quando a viagem é trabalho. Eu estava na Cidade do México com o 3 Travel Bloggers e uma vez acabado o corre, precisava de uma viagem para relembrar de porque eu gosto de viajar. Explorar o mundo do meu jeito.

Por que Oaxaca

Porque essa cidade no sul do México junta as coisas sobre viagem que mais amo: clima, história, natureza e comida. Oaxaca é uma cidade movimentada, acostumada a receber visitantes, mas sem histeria turística.

Café, Oaxaca, México

Vida oaxaqueña: cores estouradas, céu limpo e café nas terrazas.

Quando e como ir

O clima é bom o ano todo, mas vale evitar a temporada de chuvas entre maio e setembro. A melhor época é o Carnaval, que dura três dias, ou na fiesta de Dia dos Mortos em novembro (leia sobre isso no Donde Ando Por Aí).

Fui em começo de dezembro, então a de Nossa Senhora de Guadalupe, o equivalente da Nossa Senhora de Aparecida no México. Oaxaca é uma cidade festiva: em uma semana que fiquei por lá ví celebrações passando pelas ruas todos os dias. Uma festa de noivado, um batizado, uma parada em homenagem ao começo das fiestas decembrinas, uma competição de comidas e danças típicas no zócalo (a arborizada praça central). As coisas iam simplesmente aparecendo pelo meu caminho. 

Oaxaca é cativante, fiquei sete dias semana mas teria esticado a estadia para um mês sem pensar duas vezes. Escolhi ir de avião a partir da Cidade do México (a AeroMéxico tem dez voos diários) porque a diferença de preço das passagens valia a pena e porque a viagem de ônibus leva cerca de sete ou oito horas — dizem que essa é legal fazer de dia porque o cenário é lindo e porque a noite às vezes rola assalto. O Compartilhe Viagens explica direitinho quais são as linhas e como fazer a viagem de ônibus.

fiestas decembrinas ,Plaza Santo Domingo, Oaxaca, México,Latino America

Orgulho mexica: garotas vestindo roupas típicas durante a parada de abertura das fiestas decembrinas.

Onde fiquei

Num hostel chamado Casa Angel *. Faz tempo que hostel não é sinônimo de lugar capenga com dormitório compartilhado e jovens enchendo a cara na sala comunal até madrugada (existe isso também) e já fiquei em alguns hostels bem bacanas por aí. A Casa Angel é um deles. Primeiro porque é um lugar agradável, bem localizado (fora da bagunça porém muito perto do centro histórico) e impecavelmente limpo; depois porque permite que você saia fazendo amigos com os colegas do hostel, sempre espalhados pelas áreas comuns como o maravilhoso terraço do lugar. Também dá pra ficar na sua se preferir (normalmente é meu caso). A única coisa ruim, que não é culpa do hostel mas que é preciso dizer, é que o restaurante de música ao vivo ao lado faz barulho até altas horas – se você se incomoda com isso, convém não ficar nos quartos perto do terraço. 

Dependendo do seu orçamento existem muitos hostels pra escolher em Oaxaca, veja a listagem completa no Hostelworld, que é a principal plataforma de reservas e avaliações de hostels do mundo.

Casa Angel Youth Hostel, Oaxaca, Mexico

Na varanda da Casa Angel, local preferido dos frequentadores pra um trabalhar de manhã ou festejar de noite.

O que comer

Esqueça tudo que você possa ter aprendido sobre comida “mexicana” num Sí Señor da vida. A comida mexicana não é o fast food pesado que a gente encontra no Brasil ou nos EUA.

Em Oaxaca, que se orgulha de ter uma das melhores gastronomias do México, o cardápio é baseado em sopas, tamales, moles, memelitas (um tipo de taco pequenininho), tlayudas (veja abaixo) e outras delicias preparadas na hora e com ingredientes locais. Quem não come glúten ou carne se dá bem, já que não faltam vegetais e legumes em todos os cardápios. A Matador Network en Español tem um post bem legal sobre delícias oaxaqueñas.

Há restaurantes ótimos dentro de todas as faixas de preço. Vale procurar a Casa Oaxaca (o mais famoso da cidade, também é um pequeno hotel e serve um café da manhã incrível), o Zandunga (especializado em comida do litoral do estado de Oaxaca), o Las Danzantes (numa casa aberta com pátio) e o La Olla (que também é uma escola de cozinha).

Esse texto ótimo do Barcinski no Edifício Tristeza tem mais detalhes sobre onde e o que comer.

No La Popular: Tlayuda, um tipo de pizza de massa de milho super fina, aqui com mole negro, frango desfiado e queijo oaxaqueño. Salsas acompanham.

No La Popular: Tlayuda, um tipo de pizza de massa de milho fina e crocante, aqui com mole negro, frango desfiado e quesillo oaxaqueño. Salsas roja e verde acompanham.

Tamale com mole e banana da terra no Las Danzantes.

Tamale com mole e banana da terra no Las Danzantes.

Para beber, procure pelas ruas as bancas de tejate (leia nesse post) e as águas frescas (água gelada com frutas, tipo refresco). Nos restaurantes sempre tem a refrescante água de Jamaica (chá de hibisco gelado) e coquetéis como a paloma, de tequila com suco de toranja.

O mezcal, principal produto de Oaxaca, é onipresente. Todo restaurante tem sua carta de mezcal, normalmente de pequenos produtores do vale oaxaqueño. O lance é tomar puro ou com a combinação de fatias de laranja com sal de gusanos. Tem uma boa explicação sobre a mágica do Mezcal no site do Visit México.

O café também é super apreciado em Oaxaca, sempre privilegiando cafeicultores locais. É fácil encontrar grãos de café com selo fair trade e certificado de origem, tanto nos mercados como o Vinte de Noviembre (veja abaixo) quanto nas simpáticas cafeterias da cidade como o Café Brújula.

Todo mundo ama café. Postais do simpático Café Brújula, que tem duas lojas em Oaxaca (a perto do zócalo é menor e mais legal).

Oaxaqueño, orgânico y justo! Procure o café La Brújula, que tem duas lojas (a da parte baixa do centro, perto do zócalo, é a mais legal)

O que comprar

Passei horas na Amate, uma livraria especializada em títulos em língua estrangeira sobre o México. Livros de receitas, arte, cultura, arqueologia, história ou literatura, além de uma seção de quadrinhos, estão misturados a pequenas peças de artesanato e outras gracinhas. O dono é um inglês que mudou para Oaxaca depois de se apaixonar por uma mexicana e o lugar acaba servindo como ponto de encontro dos muitos expatriados que vivem ou passam um “sabático” na cidade.

Colorida e aconchegante, a Amate também recebe quem quer só ficar na sombra olhando uns livros.

Colorida e aconchegante, a Amate também recebe quem quer só ficar na sombra olhando uns livros.

Já os vestidos e blusas com bordados coloridos que são sinônimo do México estão por todo lado em Oaxaca, numa quantidade tão grande que parece difícil que sejam todos feitos a mão por bordadeiras locais. Na hora de comprar esse tipo de produto vale fazer perguntas, olhar com cuidado e analisar o acabamento: muitas vezes é industrializado passando por artesanal.

Quem pira em tecidos, estamparia e bordados vai enlouquecer no mercado semanal de Teotitlán Del Vale, pertinho de Oaxaca. Dá pra ir em passeios de van organizados pelos hotéis e agências, mas é muito fácil e barato ir de ônibus, saindo da rodoviária do centro.

Tapeçarias de Teotitlán numa cooperativa de tecelões no centro de Oaxaca, fica na frente da Plaza Santo Domingo. Pechinchar é permitido, mas não é um hábito e nem sempre é entendido.

Tapeçarias de Teotitlán numa cooperativa de tecelões no centro de Oaxaca, fica na frente da Plaza Santo Domingo. Pechinchar é permitido, mas como não é um hábito nem sempre é entendido.

Outra coisa que está em todo lugar são os simpáticos alebrijes. Feitos de madeira ou papel machê, são pequenos e leves, perfeitos para trazer como presentes. Escrevi mais sobre eles nesse post.

O alebrije é a cara de Oaxaca. Feitos em madeira leve ou papiê machê, vem na forma de animaizinhos e são inspirados nos brinquedos das crianças zapotecas. Estão em todo lugar e não existem dois iguais!

O alebrije é a cara de Oaxaca. São animaizinhos inspirados nos brinquedos das crianças zapotecas. Foto: Andrey B. Kostin via Shutterstock.

Uma dica boa para comprar um pouco de tudo é a MARO, a cooperativa de artesãs oaxaqueñas. É uma loja simples, comprida e labiríntica onde você vai encontrar tecidos, estátuas, chocolates, enfeites e alebrijes sabendo que a renda vai direto para as produtoras do estado.

Saiba de onde vem a roupa que você compra. Num tempo em que qualquer coisa é vinda da China ou da Índia, vale considerar comprar em lugares que praticam comércio justo, como cooperativas de artesãos.

Saiba de onde vem a roupa que você compra! Num tempo em que qualquer coisa é vinda da China ou da Índia, vale considerar comprar em lugares que praticam comércio justo, como cooperativas de artesãos.

Nenhuma visita está completa sem uma passada pelos mercados. Os mais importantes de Oaxaca ficam na parte baixa do centro, pra baixo do zócalo. O Vinte de Noviembre (leia no Vive Oaxaca) é bastante frequentado tanto por turistas quanto por moradores e é o lugar de escolha para as aulas de culinária que acontecem na cidade. Bem ao lado, o Benito Juaréz é mais local e vende de máscaras de luchadores a guitarras passando por panelas e sapatos.

Chiles, ajos, moles e outras coisas secas que dá para embalar e levar na mala tranquilamente.

Chiles, salsas, moles e outras coisas secas no mercado Vinte de Noviembre. Dá para embalar e levar na mala tranquilamente. As panelas e talheres de ágata azul clara são parte da vida doméstica e são irresistíveis.

O que ver (e o que deixei pra próxima vez)

Basta caminhar por Oaxaca para achar programas ótimos, como o pequeno e belo Museo de Textiles, o ótimo Museo de Filatelia (num prédio lindo com jardim e café), o Museu Rufino Tamayo, dedicado a culturas pré-hispânicas, a Casa Zapata, que reúne a arte dos stencils, posters e lambes, muitas vezes com temas sociais e políticos, que decoram as paredes e muros por todos os lados.

street art,Oaxaca, México,

Colagens lembram o assassinato de professores que protestavam em Oaxaca. Ocorrido há quase dez anos, o crime segue impune na justiça mas é lembrado em muros, paredes e praças da cidade.

Duas coisas que acredito serem imperdíveis, seja qual for o tempo que você tenha em Oaxaca: o Centro Cultural Santo Domingo e a tour do Jardim Etnobotânico (abaixo). Fica um ao lado do outro. O primeiro é um enorme museu dentro do antigo monastério (o claustro de pedra verde é impressionante) que reúne peças pré-colombianas de valor artístico e antropológico. O segundo é o maravilhoso jardim atrás da Catedral de Santo Domingo, que você vai ver das janelas do centro cultural. Como o lugar reúne espécies vegetais importantes e raras de todo o estado de Oaxaca, cedidos por pueblos indígenas, a entrada é só em visitas guiadas. É mais legal se você tem um interesse específico em botânica (não é meu caso) mas vale mesmo pra quem só está a fim de umas fotos bonitas. Dura uma hora, tem grupos em espanhol, inglês, francês e alemão e nem tente ficar pra trás pra caminhar sozinha/o: o guia não vai deixar.

Vista do jardim a partir do Centro Cultural Santo Domingo.

Vista do jardim a partir do Centro Cultural Santo Domingo.

Como fui fiel ao meu plano de slow travel, acabei deixando de ver algumas coisas que sei que valem muito a pena e vão entrar no roteiro numa próxima ocasião: a visita às ruínas pré-hispânicas e as igrejas de Mitla, a vila de tecelões de Teotitlán, as “cachoeiras” de pedra de Hierve El Agua (leia bom post sobre isso no Viajar Entre Viagens), aulas de cozinha e a tour de mezcal, por exemplo. Mas tudo bem: fica a promessa de voltar com tempo e com calma.

Repetindo o café de ontem. Pena não ter descoberto antes. Fica promessa pra volta ❤

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“Mas Você Vai Sozinha?”

Sei que o México tem índices de violência parecidos com os do Brasil, também que violência contra a mulher é realidade em todo o mundo e que turistas são alvos para golpes. Mas verdade seja dita, não me senti insegura. Oaxaca é uma cidade viva e movimentada, com coisas acontecendo o tempo todo, e isso dá uma sensação boa de segurança e tranquilidade. Também vale usar um clichê: os mexicanos são muito simpáticos, não é difícil fazer amizade e se sentir em casa depois de um dia. Vai na fé.

Fui sozinha: Oaxaca de Juarez

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12 razões para viajar para Oaxaca

 

* Importante

Estive em Oaxaca com apoio do Hostelworld Brasil, que gentilmente me cedeu a hospedagem na Casa Angel. Todas as dicas e opiniões nesse post são minhas.