Argentina, Chile, Viagem

Fui Sozinha: Patagônia

Glaciar Grey, Torres del Paine, por Henner Damke

Em abril desse ano fui pra Patagônia sozinha. Não penso que uma viagem precise de motivos ou explicações, mas pra essa tenho várias. Foi uma forma de comemorar o primeiro acerto de contas (bem-sucedido, folgo em dizer) do meu livro, de celebrar meu aniversário de 40 anos, me distanciar de um problema afetivo e, como sempre, ter assunto pra escrever. Também foi um jeito de voltar a viajar de forma mais solta, depois dois anos viajando no formato press trip/trabalho.

O único problema é que escrevi quase nada sobre essa viagem.

Não é que eu esteja escrevendo pouco, não. Pelo contrário. Estou produzindo como nunca, pra mim e pros outros. Acontece que, pós-MVVS, o assunto “solo female travel” na minha cabeça meio esgotou e eu andava querendo escrever sobre outras coisas. E também não é que tenha ficado em modo de isolamento. Postei bastante no Instagram durante a viagem — com um cenário desses, como evitar?

Certeza é que assunto não faltou. Tanto em matéria de acontecimentos incríveis quanto de erros de percurso, voltei da Patagônia com muita coisa pra contar.

Como as histórias sobre o vento que ouvi de uma senhora chamada Dona Margarida; andar sozinha os 17 quilômetros até o glaciar Martial e ver neve pela primeira vez; fazer trilha acompanhada dos cachorros que moram nas florestas; chegar no vilarejo mais austral do mundo só para descobrir que não tinha como ir embora; arriscar um caso (que nunca aconteceu) com um marinheiro argentino bonito; aprender sobre as tretas de fronteiras patagônicas entre Argentina e Chile; comer empanadas de mariscos; estocar pão, queijo, vinho e café para embarcar num cargueiro e fazer refeições vendo orcas, focas e albatrozes pela janela; a subida do Cerro Bandera (essa história eu já contei); as excursões até Torres del Paine; andar a cavalo; comer sopa de peixe; encontrar lar para um gato amarelo que me seguiu em Puerto Natales; ouvir os sons do gelo partindo em Perito Moreno e chorar ao me despedir da pequena cabana onde “morei” por três dias em El Calafate.

Vou contar. Prometo. Mas antes vou dar um passo a passo da viagem. Esse é a segunda publicação de uma série e se você tem alguma pergunta específica que eu possa responder ou que caiba num post futuro. fique à vontade pra mandar aí nos comentários.

Por que a Patagônia?

Era um sonho antigo. Acho que a primeira vez que ouvi falar de Patagônia foi nos anos 1990, quando um amigo fez a viagem São Paulo-Ushuaia num Fiat Uno e sobreviveu pra contar, trazendo altas fotos (impressas) na volta. Tem uma coisa mítica de região muito isolada que me atrai e, mesmo que cidades como Ushuaia e Calafate sejam bastante turísticas, a vasta maioria da Patagônia é inabitada. É uma das regiões com a menor densidade populacional do planeta.

Também queria chegar no extremo sul do nosso continente e riscar isso da lista (já estive no extremo sul da África e da Índia). Outro motivo é que o projeto 3 Travel Bloggers despertou um amor pela América do Sul e quero concentrar minhas viagens no nosso continente sempre que possível.

Essas motivações são pessoais, claro. Mas não falta motivo pra recomendar uma viagem pela Patagônia prasamiga. É uma das regiões mais bonitas do planeta. É relativamente perto. O turismo é bem desenvolvido. Dá pra ir no inverno curtir esportes de neve e no verão pra fazer atividades como cavalgadas, rafting, pedal e trilhas. Dá pra ir pra comer e beber bem. E é bastante seguro, inclusive para mulheres solo. A taxa de criminalidade (roubos, assédio) é baixíssima e a sensação de segurança é constante.

O lado ruim: é caro. É possível contornar pegando caronas e ficando em albergues, mas mesmo assim os gastos com comida e trajetos mais longos são altos, e para chegar em algumas partes (como o parque de Torres del Paine, no Chile) você acaba dependendo de agências de turismo.

Guanacos em Torres Del Paine, Patagônia chilena.

Guanacos em Torres Del Paine, a maior atração da Patagônia chilena. Dá pra se hospedar dentro do Parque Nacional ou ficar em Puerto Natales e ir e voltar todos os dias, mas aí você vai precisar alugar um carro ou entrar numa tour.

Quando e como ir

Depende um pouco do que você quer fazer e quanto quer gastar. Se seu lance é ver neve e esquiar, tem que ir no inverno, entre maio e agosto. A locação de equipamentos e entradas em parques específicos para a prática requer pesquisa prévia e pode ser bom reservar com antecedência.

Eu não fiz isso. Fui no final da temporada de “verão” (fim de abril) menos por uma questão de planejamento e mais porque a oportunidade apareceu. Encontrei Ushuaia praticamente deserta e muitas agências de viagem e hotéis já fechados.

Fiquei vinte dias e meu roteiro foi São Paulo – Ushuaia (voo Aerolíneas Argentinas via Buenos Aires), Ushuaia – Puerto Williams (traslado de barco e van), Puerto Williams – Punta Arenas (a bordo do cargueiro Yaghan) e de lá pra Puerto Natales de ônibus de linha (passagem encontrada em cima da hora na rodoviária local), Puerto Natales – El Calafate (de micro-ônibus, agência tal) e El Calafate – São Paulo (Aerolíneas via Buenos Aires). Embarquei só com a parte Ushuaia planejada e uma vaga ideia de chegar até Puerto Williams. O resto foi acontecendo.

Três links para quem quer organizar uma viagem para a Patagônia sem medo de errar:
Posts atualizados com dicas de hoteis e roteiros no Viaje na Viagem.
“Guarda uma grana e vai”, da Amanda Viaja.
Informacões atualizadas sobre parques, hotéis e agências de viagem no site da Lonely Planet gringa.

É possível ir a partir do Brasil com o pacote completo de passagens/hospedagens/tours e traslados já definido. Não faltam agências de viagem locais com funcionários fluentes em português para ajudar, como a Brasileiros em Ushuaia.

Refugio El Padrino Puerto Williams, Chile

Refugio El Padrino o, último albergue antes da Antártica, fica em Puerto Williams, o vilarejo mais austral do mundo, no Chile. Depois de Ushuaia ainda há muito pra ver, mas os argentinos gostam de dizer que o mundo acaba em Ushuaia mesmo.

Onde fiquei

Em Ushuaia e Calafate fechei quartos via Airbnb , na verdade pequenas cabanas com cozinha, banheiro e cama.

Em Puerto Williams cheguei sem saber onde ficar. A recomendação geral é ficar no El Padrino (acima) e o pessoal foi bem simpático comigo apesar de eu não ter feito reserva, mas estava muito cheio e eu não curto repartir quarto em albergue (desculpa).  Acabei encontrando lugar (e WiFi) num alojamento de alpinistas bem simples porém quentinho e tranquilo chamado Forjadores de Cabo de Hornos.

E em Puerto Natales fiquei num hostel absolutamente delicioso chamado Ameríndia, com café-restaurante servindo cafés, chás, sopas e bolos o tempo todo, com área comum com lareira, banheiro compartilhado sempre muito limpo e um quartos privados bem iluminados e quentinhos.

Viajando sozinha na Patagônia

Na Baia Lapataia, dentro do Parque Nacional Tierra Del Fuego.

O que comer e beber

É só atravessar a fronteira pra comida mudar totalmente. No geral, a comida argentina é mais simples, baseada em assados, enquanto a comida chilena faz muito uso de temperos e dos frutos do mar do extenso litoral do país. Conte com larga oferta de tinto variando entre o “barato porém delicioso” e “excelente com bom preço” nos dois países, sempre.

Em Ushuaia, a capital da Patagônia na Argentina, você vai encontrar pães, carnes e seus acompanhamentos mais comuns como queijos e batatas, além de peixes frescos e centolla, o caranguejo gigante das águas geladas.

Menu Del Dia num restaurante Puerto Williams, Chile.

Opções do dia num restaurante para turistas em Puerto Williams, Chile.

No Chile você também encontra centolla, mas eles chegam à mesa cozidos em deliciosas sopas e caldos temperados com vegetais. Em Puerto Williams eu não encontrei restaurante algum — até tem, mas estavam fechados por causa da baixa de visitantes. As poucas tiendas abertas de dia vendiam pães caseiros, queijos e empanadas de mariscos maravilhosas e sobrevivi meus dias na cidade à base disso e das garrafinhas de vinho com rosca que levei comigo da Argentina.

Em El Calafate, a cidade que serve de base para visitar o a geleira Perito Moreno, na Argentina, eu não comi em restaurante e comprei coisas prontas para fazer refeições na cabana. Achei a cidade uma Campos do Jordão mais cafona e mais cara e meu dinheiro já estava acabando.

Em relação a café da manhã: se você precisa de café, como eu, considere a ideia de levar um pacote de café decente com você. Na Argentina a cultura do café é forte, mas nas cidades chilenas onde passei eles sempre preferem chá (ok) e o café é do tipo solúvel (argh).

Centolla já partidinha e pronta para comer. via Shutterstock.

O que ver

Em Ushuaia: a tour da ilha dos pinguins e do farol do fim do mundo (abaixo) e o glaciar Martial, que é o que você vê sempre acima da cidade. Nem todo mundo explora o pequeno Parque Nacional Tierra del Fuego, mas eu passei um dia inteiro caminhando por lá e achei muito bonito, bem tranquilo e fácil de visitar – há ônibus indo e vindo a partir de Ushuaia, mas carona também é seguro e viável. Acabei não indo à fazenda Hagerston, que dizem ser uma boa oportunidade de ver como vivem ainda hoje os colonizadores dessa parte do mundo. E se história patagônica te interessa, a cidade tem um pequeno museu, a famosa cadeia e o Tren Del Fin del Mondo.

O "farol do fim do mundo". Patagônia argentina, abril/2017.

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Em Puerto Williams: para fazer o circuito Dientes de Navarino você precisa de uns cinco dias e equipamento completo de camping e, dependendo da época do ano, de caminhada na neve. Mas dá pra ter uma ideia do lugar fazendo o começo da trilha até o Cerro Bandera, que atravessa um bosque de lengas (a árvore-símbolo da Patagônia) e tem uma visão e tanto do Cabo Horn. Também tem um jardim botânico.

Bosque de lengas na Isla Navarino

Trilha através do bosque de lengas tingido de amarelo na reserva da Isla Navarino, extremo sul do Chile.

Em Puerto Natales: Parque Nacional Torres del Paine. Dá pra passar uma semana por lá e ser feliz. Também dá pra acampar ou ficar em hotéis dentro do parque, que não fica assim tão perto da cidade. Não cometa o erro de achar que vai dar pra ir de ônibus, ver alguma coisa e voltar no mesmo dia, porque os horários não ajudam. O ideal, estando sozinha e sem carro, é mesmo entrar em alguma tour, ou gastar uma grana e ficar lá dentro. O Lonely Planet explica bem.

A vista das Torres Del Paine, montanhas que dão nome ao mais famoso parque da Patagonia chilena.

As Torres Del Paine, montanhas que dão nome ao mais famoso parque da Patagonia chilena.

Em El Calafate: a geleira. Deve ter mais coisa pra fazer, mas se eu ficasse lá um mês eu ia querer ver a geleira todos os dias, talvez o tempo todo.

O Perito Moreno (foto que ilustra esse post e logo abaixo) é um dos glaciares mais famosos do mundo e o turismo ali é intenso e super organizado. Você pode tanto ir com uma agência de turismo quanto chegar de carro. Uma vez dentro do parque há opções de trilhas e uma enorme passarela que leva cerca de uma hora para completar e que chega até uns cem metros da geleira. Também dá pra fazer um passeio de barco e ficar bem perto mesmo. O paredão de gelo é enorme, com mais de 60 metros de altura em alguns trechos, e está o tempo todo em movimento, daí os ruídos e as quedas de pedras de gelo nas águas. Imagino que no verão o céu é mais limpo, mas a vegetação outonal ao redor, em tons de amarelo e vermelho, também é bem bonita. Dica: leve água, comida (e vinho) na mochila e faça uma refeição improvisada nas plataformas ao redor da geleira, evitando gastar dinheiro no absurdamente caro (e ruim e cheio) restaurante do parque.

Dá pra ir em visitas de um dia a partir de outras paradas da Patagônia – eu cheguei lá num ônibus de excursão que saiu de Puerto Natales, mas El Calafate, é a cidade mais próxima da geleira e é onde a maior parte dos turistas fica. Tem muitas opções de hospedagem, lojas e restaurantes e me lembrou cidades do inverno brasileiro como Campos do Jordão e Gramado, meio brega. Como foi minha última parada, aproveitei para comprar presentes, alfajores e chás.

Glaciar Perito Moreno em El Calafate, Argentina

Dá pra chegar pertinho do Glaciar Perito Moreno em El Calafate, na Argentina

“Mas Você Vai Sozinha?”

É totalmente viável, possível e recomendável ir sozinha. Na minha experiência, peguei carona e andei sozinha o tempo todo sem receber nem um erguer de sobrancelhas de gente curiosa. Nas conversas que tive com as pessoas a opinião foi unânime: a gente da Patagônia é muito tranquila e casos de turistas atacados ou roubados são raríssimos.

Agora, se você vai fazer trilha ou se embrenhar na mata sozinha, tem que tomar o cuidado de avisar alguém, preferencialmente os guarda parques na entrada de cada parque nacional, e nunca (nunca!) sair da trilha marcada. Não há animais peçonhentos como cobras e aranhas, e pumas só existem dentro das reservas, mas é facílimo se perder na vastidão do cenário. Além disso, o vento é muito forte, o tempo muda e as temperaturas caem rapidamente.

fui sozinha: PATAGÔNIA

Veja também

Fui Sozinha: Chiang Mai (por Lívia Aguiar)

Fui Sozinha: Porto, Portugal

Fui Sozinha: Oaxaca de Juarez, México

O vento, o condor e a bandeira da Isla Navarino

OBS: essa viagem não teve convite ou parceria de empresa alguma e foi 100% paga com meu dinheiro, todas as indicações de agências e hospedagem são porque eu gostei da experiência.

Foto do destaque: Glacier Grey, dentro do Parque Nacional Torres del Paine, na Patagônia chilena, por Henner Damke via Shutterstock.