Livro, Música

Esse é só mais um post sobre Gilmore Girls.

Lorelay and Rory Gilmore

Já considerei Gilmore Girls um guilty pleasure.

Em meados desse ano, quando as sete temporadas originais entraram na grade do Netflix, aceitei o desafio de rever tudo. A desculpa era me preparar para os novos episódios que chegam nessa sexta-feira, dia 25/11. Acontece que rever Gilmore Girls fez a série deixar de ser um passatempo menor e se tornar uma obsessão compreensível, pertinente, justificável.

Explico.

–> esse post é spoiler free, leia tranquilamente <–

Eu nunca tinha pensado em Gilmore Girls como parte da minha formação cultural. Afinal, é uma série sobre uma jovem mãe solteira e sua filha numa pequena cidade da Nova Inglaterra. Gilmore Girls não tem nada a ver com a minha vida. Ou tem?

Terminei as sete temporadas com a sensação de que Gilmore Girls é mais legal hoje do que foi há quinze anos. Há problemas, sim (mais sobre isso abaixo). Mas é uma série para jovens que não trata a audiência como imbecil – um acerto. Mesmo que suas referências culturais sejam produto do seu tempo e os problemas centrais não sejam exatamente dramáticos, ainda assim é uma série com um mundo de coisas para reconhecer. Enxergamos ali livros, filmes e questões afetivas comuns: relações familiares problemáticas, amores não correspondidos, expectativas não realizadas.

Emily, my fav.

Também conta o fato de as pessoas de Stars Hollow serem do tipo loucas-adoráveis que todo mundo ama ter por perto. E claro que em tempos detestáveis como os nossos, um mundo fictício onde tudo tem solução é um alento. Mas o que realmente me faz seguir assistindo (inclusive a sétima temporada, que alguns fãs sequer consideram como parte da série) é que o quanto essas pessoas são loucas por seus filmes, livros, música (e café).

Só de filmes são centenas de citações. Você pode contar aqui nessa lista do Buzzfeed. E daí tem os livros. E a música, claro. Afinal, essa é uma série que teve aparição nonsense do Joel Gion, aka o cara do pandeiro no Brian Jonestown Massacre. True story. Já vamos falar sobre isso. Antes fiquem com essa homenagem ao Edgar Allan Poe que foi tema de um episódio inteiro.

Ah, sim. Teve isso.

Pode crer. Teve isso.

Gilmore Girls podia ser um filme

A qualidade mais citada de Gilmore Girls é o roteiro. Mais exatamente, os diálogos. Reza a lenda que um roteiro de episódio de Gilmore Girls tinha mais que três vezes o tamanho de um roteiro normal, que as gravações não raro viraram a noite e que a criadora da série, Amy Sherman-Paladino, não aceitava que os atores mudassem uma vírgula do texto preparado.

Compreensível.

São os diálogos que mantém os acontecimentos em ordem e levam a história pra frente. A forma sagaz e meio cretina como as pessoas se comunicam em Stars Hollow deve muito à screwball comedy dos anos 1930-50: filmes com diálogos rápidos e situações absurdas, normalmente ao redor de personagens fora da caixinha e de bom coração. Totalmente Gilmore, enfim.

Essa qualidade antiquada também causa o principal motivo de críticas à série, que é a falta de representatividade. Stars Hollow foi pensada como “small town América” e acabou sendo um lugar onde todo mundo é branco, rico e heterosexual. Se há gays, não ficamos sabendo. As protagonistas (magras, brancas, bem educadas) tem uma amiga gorda, um amigo negro e uma amiga asiática. E só.

O quanto isso é causado pelo estúdio (pense em outras séries da época como Buffy, Dawson’s Creek, Friends, Felicity) ou pela dupla de criadores, não posso dizer. Mas penso que se fosse feita hoje, Gilmore seria bem diferente, e esse é um motivo para querer o revival no mundo da pós-verdade 2016.

Outro motivo é que a série ficou sem um final digno. Daniel Paladino e Amy Sherman-Paladino caíram fora por causa de tretas com a Warner, deixaram uma sexta temporada cheia de problemas a serem resolvidos e a sétima temporada parece uma versão hipster de Days of Our Lives. Perdeu a essência, a magia, o elán, sei lá. Acabou bonitinho, mas vazio. E bons filmes, você sabe, precisam de um final que resolva a história. Certo?

Daí tem os livros

A literatura em Gilmore Girls não é só uma desculpa para mostrar Rory imersa em Sylvia Plath num banco de praça. Ela serve para deixar claro que ela e Dean jamais serão perfeitos um pro outro porque ele não curte Tolstói.

Os livros em Star Hollow são capazes de unir pessoas (o Good.Is tem um post ótimo sobre isso), mostrar mudanças profundas no comportamento de personagens ou criar simpatia por figuras que de imediato são simplesmente insuportáveis (oi, Jess).

E no mundo real as coisas funcionam meio assim mesmo.Tudo bem que no mundo real colegiais não estão discutindo literatura beat em bancos de praça, mas aposto que quem lê muito, quem já julgou livro pela capa (e já julgou pessoas pelo que elas lêem) de alguma forma vibra e participa mentalmente dos diálogos de Gilmore Girls.

Nisso a série é totalmente realista: livros unem, ensinam, separam e nos ajudam a suportar a vida e uns aos outros. Além de, claro, gerar conversas maravilhosas.

Um passeio virtual na Amazon hoje vai te mostrar vários itens tipo canecas, camisetas e cadernos que querem apenas separar você do seu dinheiro. Se permite uma sugestão, vá num desses dois livros abaixo:

Coffee at Luke’s: An Unauthorized Gilmore Girls Gabfest. Uma coletânea de crônicas e pensatas sobre o universo Gilmore . Tem cinema, musica, feminismo, sociedade, literatura e, claro, café. Também tem uma lista essencial de referências culturais no final.

The Gilmore Girls Companion. Traz análises das cenas de cada capítulo, entrevistas com equipe, quotes e a história de porque os Sherman-Paladino saíram da Warner e abandonaram o barco, o que explica a sofrível sétima temporada (e dá sentido ao revival).

Por fim, acabou de sair o livro da Lauren Graham Falando o Mais Rápido que Posso. De Gilmore Girls a Gilmore Girls e Tudo no Meio do Caminho em que ela conta como foi dar voz a Lorelai e o quanto isso impactou sua vida. Esse eu vou ler semana que vem.

* os links são de venda na Amazon, se você comprar por eles eu ganho uma comissão mas você não paga nada por isso, just saying.

Todo mundo gosta de música

Hits indie-pop dos anos 70 aos 90 são a essência de Gilmore Girls.

Há menções sobre Joe Strummer (a jaqueta! meudeus, a jaqueta!), Shins e Nena, mas o universo Gilmore não é feito só de música independente. A musica-tema da série é da Carole King (que também é produtora executiva e participa de um ou outro episódio como a dona da loja de instrumentos de Stars Hollow), Sebastian Bach é ator fixo e há um cachorro chamado Paul Anka. Para cada menção a Charles Mingus ou PJ Harvey há outra para Madonna e Led Zeppelin.

Música é tão presente que quando Stars Hollow é invadida por “trovadores” querendo uma chance com o Neil Young e o Sonic Youth aparece tocando com a filha na praça do coreto, ninguém estranha. É tão natural quanto menções sobre a E Street Band ou o Cornershop numa conversa qualquer. É parte do mundo.

Pensei em fazer um playlist Gilmore Girls no Spotify. Mas pra quê, quando já existe essa? Parabéns pelo bom gosto Lisa Santucchi, que não conheço mas considero muito. Ah, a WB tem um playlist “oficial” com os essential hits, mas é curtinho.

Leia também

Revista Polén: Semana Gilmore
M de Mulher: quem é você em Gilmore Girls?
Music We Learned from Gilmore Girls

Até sexta-feira, gente <3

PS: esses gifs maravilhosos são powered by Giphy.com/GilmoreGirls – porque essas pessoas sabem com que publico estão lidando ;)