Prosa

Hell’s Club: saudades do futuro

Não tenho saudade do que passou. Sério mesmo. Mas se um gênio da lâmpada aparecesse oferecendo a possibilidade de passar algumas horas em algum lugar do passado, eu aceitava.

Acontece que nem sempre fui essa mulher de quase 40 anos que acorda para correr de manhã, tem filho pré-adolescente e curte literatura. Muito antes da vida adulta me alcançar minha maior preocupação era a roupa pra usar no fim-de-semana, e pra onde ir depois. A década de 1990 que pra muita gente foi do grunge e do Brit pop, pra mim foi de usar roupa de plástico, pintar o cabelo com química japonesa e colecionar CDs de techno. Em 1995, eu era essa pessoa.

Hell's Club, 1994 (obrigada pela foto, Glaucinha!)

Vai, Mau! Banheiro do Hell’s Club, 1995 (obrigada pela foto, Glaucinha!)

Londres teve a Shoom!, Nova Iorque teve o Paradise Garage, Berlim tem o Berghain. E São Paulo? Teve o Hell’s Club. Não preciso conhecer nenhuma festa histórica mundial pra saber que o Hell’s não devia nada pra ninguém em matéria de comportamento libertário, gente linda e trilha-sonora moderna. O Hell’s Club teve o Mau Mau, o Gil Barbara, o Renato Lopes, o Alfred, o Julião e o Pareto no som. Teve a Ana e a Roberta, depois a Adriana e a Marina, na porta. O Hell’s era do Pil, que produzia o rolê e fazia camisetas pras pessoas usarem só porque sim. O público do Hell’s era de todas as cores, orientações e gostos. O Hell’s ficava do lado de uma delegacia, começava às cinco da manhã e ia até meio-dia. A fumaça lá dentro era tanta que a gente não enxergava nada e quando saia pra respirar ficava na neblina tomando conta da rua e comendo cachorro quente. Lá dentro você podia fazer o que quisesse, contanto que se acabasse de dançar. O Hell’s era totalmente centrado na figura do DJ e a turma ouvia músicas, falava gírias e tomava drogas que as pessoas lá fora não conheciam.

O Hell’s foi tão foda que teve várias gerações. A que participei foi a original, entre 1994 e tipo 1997. Lembro que logo antes do Hell’s começar eu estava numa onda Northern Soul e acid jazz, e ia de vez em quando em clubs como Ursa Maior e AZ 70. Minha melhor amiga começou a namorar um cara que eu não conhecia e de repente eles estavam ligados em alguma coisa diferente que estava acontecendo nas madrugadas de São Paulo. Em junho eu fui pra Europa pela primeira vez e o namorado dessa amiga me aconselhou: chega em Londres, compra a Time Out e vai pros clubs. Fiz exatamente isso. Fui no Million Dollar Babes, ví a Lady Miss Kier tocar house, comprei ecstasy no banheiro, dancei até dizer chega e voltei pro hotel andando sozinha e vendo o sol nascer na cidade. Em agosto, quando voltei pra São Paulo, minha primeira atitude foi terminar com meu então namorado que não queria saber de nada disso. A segunda foi falar pra minha amiga o que tinha acontecido em Londres. Não é exagero nenhum dizer que essa sequência de acontecimentos mudou minha vida. Hoje sei que as amizades que fiz, os caras que namorei, as drogas que tomei, os textos que escrevi, tudo tem a ver com ter estado no Hell’s Club entre 1994-97.

Não era perfeito e nem tudo foi absolutamente glorioso, é claro. A ressaca sempre bate. Mas durante algumas horas de algumas manhãs, não importa o que estivesse acontecendo lá fora, lá dentro a turma foi muito, muito feliz. Acho que nunca falei isso pras pessoas que estavam lá, mas essa foi talvez a melhor época da minha vida, certamente a mais divertida, e não me arrependo de nada, nem dos excessos de ecstasy, de ácido, de special k, de ficar acordada muito tempo e de me envolver demais em sentimentos que eu não entendia.

O auge do Hell’s, esses melhores-anos-de-nossas-vidas que a turma está celebrando no Facebook essa semana por causa de duas festas em São Paulo, tem mais de vinte anos. Nesse tempo cresci, fui em outras festas, ouvi outras músicas, tive filho, visitei mais de vinte países, casei, separei, aprendi outras línguas, trabalhei como vendedora de loja, repórter de música, apresentadora de televisão. Hoje sou uma pessoa tranquila que fica em casa escrevendo. Envelhecer, quando é bom, tem isso de te transformar na pessoa que você sempre foi. Gostei de chegar até aqui e gosto de pensar que envelheci bem, obrigada. Não sou a mocinha de espírito livre e gênio difícil de vinte anos atrás, mas ainda sou a mesma pessoa de sorriso fácil e opinião forte. Ainda bem.

Voltando ao gênio da lâmpada, eu pediria sem pensar duas vezes para estar na esquina da Augusta com a Estados Unidos numa manhã de domingo em 1995, dentro do Hell’s Club, para dançar achando que a vida nunca ia ficar melhor que isso e que o futuro estava acontecendo ali mesmo.

Leia também: One Nation Under a Groove, por Camila Yahn (que me levou pro Hell’s)

Don’t forget your sunglasses :)

Hell's Club, São Paulo, 1990s

Primeiro aniversário do Hell's Club, 1995

Porta do Columbia: Mega Ohn, Ida Feldman, Rogério Hideki, Roberta, eu, Pil Marques, Marco Antonio Rangel, Roque Castro, Luiz Normanda.

Porta do Columbia: Mega Ohn, Ida Feldman, Rogério Hideki, Roberta, eu, Pil Marques, Marco Antonio Rangel, Roque Castro, Luiz Normanda.

*** Update agosto/2016. A Fabiola Kolling (amiga e frequentadora do Hell’s original) digitalizou esses vídeos feitos pelo Alfred em 1996. Dá pra ver vários frequentadores, ouvir a música e sacar o climão do lugar. Um deles é o da noite em que o Laurent Garnier tocou. Tudo história.