Inglaterra, Prosa

Indo em frente

Abrigada do torrencial toró britânico debaixo do toldo de uma mercearia em Dalston, leste de Londres, eu só queria achar o endereço certo quase vinte horas depois de ter saído da minha casa na Vila Madalena, oeste de São Paulo.

Com bagagem e roupas ensopadas, abri o email no celular e encontrei o endereço da Thais, a amiga brasileira que me esperava no conforto de seu lar, de preferência com algumas torradas e uma xícara de chá, para me levar até o apartamento da radialista argentina que ia me alugar um quarto durante minha temporada na cidade.

O endereço batia com o que eu tinha anotado no caderno (nessa altura já borrado com gotas de chuva) mas isso não fez a menor diferença para a dona de casa asiática que tinha batido a porta na minha cara há meia hora. O 313 da Queensbridge não era a casa da Thais e isso era o suficiente para a mulher de pele escura e cabelos cobertos por véu estar totalmente indiferente à minha situação lastimável.

Ela abriu dois dedos da porta, o suficiente para deixar sair o cheio de qualquer coisa com curry no fogão. Meia dúzia de olhos curiosos de crianças me fitavam pela janela. A mãe foi veemente: aqui não mora nenhuma Thais. “Sabe, ela mudou faz pouco tempo, com o marido e a filha pequena, são brasileiros, será que…” Não. Um convite pra usar o telefone, um guarda-chuva, um sorriso – qualquer coisa teria ajudado. Mas ela me deixou parada ali no degrau.

Como miséria gosta de companhia, veio um trovão e a chuva apertou. Ninguém passava na rua. Começando a ficar escuro. Nenhum pound no meu bolso.

Desci os degraus, e decidi virar a esquerda. Só eu, a chuva, a mochila nas costas e a mala de rodinhas para puxar.

*

A história inteira é chata, mas basta dizer que de alguma forma eu encontrei a casa da Thais, cheguei no apartamento da radialista argentina e tudo ficou bem. Ou quase, já que era fim de outono e o aquecedor estava quebrado.