África do Sul, Viagem

#MeetSouthAfrica S01E01: passagem rápida por Johannesburgo e Cidade do Cabo

Passei as últimas duas semanas sendo levada por motoristas particulares de um hotel cinco estrelas para outro *. Com paradas para provas de vinhos, mergulho com tubarões-brancos, passeios por campinas entre girafas e zebras. Todos os dias terminaram com os tons de laranja e roxo do pôr-do-sol da África do Sul e um chocolate especial no travesseiro da cama arrumada.

Não é um trabalho exatamente duro. Mas não é como ter férias pagas – se você quer moleza, use o próprio cartão de crédito e banque a fatura na volta. As tours/experiências/etc começam cedo (às vezes antes do sol nascer) e você tem que estar de pé até o final do jantar. E tem tem que conseguir achar ponto certo para fotografar, tem que saber quando e onde carregar o celular, tem que superar diferenças culturais com uma dezena de nacionalidades diferentes todos os dias e, pior, achar assunto para escrever sobre um local onde passou tipo duas horas. Jornalismo tradicional não funciona. Não há tempo para entrevistas, para imersão ou análise. É primeira impressão e acabou, próximo assunto.

Bloggers em ação.

Bloggers em ação.

Como não sou fotógrafa (apesar de ter algumas imagens decentes no instagram) só me resta contar: o #MeetSouthAfrica é um programa anual do South American Tourism que leva travel bloggers de diferentes especialidades e nacionalidades para conhecer as atrações turísticas do país: restaurantes, locais de interesse histórico, reservas naturais, vinícolas. São três grupos, divididos em temas e na experiência de cada um com o país. Meu grupo foi o #SouthAfrica101, e viajei com quatro bloggers internacionais, mais uma produtora  e um camera. Minhas companhias constantes foram uma blogger sul-africana, duas garotas francesas e uma foodie australiana, sobre quem vou falar mais em breve. Todas portando máquinas fotográficas parrudas, que contrastam com minha Lumix portátil magrinha.

Mas não me abalo. Posso usar palavras para contar para vocês que minha primeira viagem para a África do Sul começou por Johanesburgo, que pela janela do carro lembra um enorme e bem-cuidado subúrbio norte-americano. Foi uma parada rápida para visitar o Constitution Hill, memorial construído logo após as primeiras eleições democráticas do país, em 1994, usando o local e tijolos da antiga prisão de Old Fort – onde ficaram Gandhi, Mandela e outros líderes dos movimentos sul-africanos de libertação.  Hoje é sede da Corte Constitucional da África do Sul e o país tem uma das mais jovens e mais progressistas constituições em todo o mundo, definida durante a gestão do Presidente Mandela. Constitution Hill é herança dos anos Mandela, e manifestação física do desejo de superação do passado turbulento do país, um processo corrente e longo.

"Um país não deve ser julgado pela forma como trata seus cidadãos mais importantes, mas os o contrário. E a África do Sul trata seus presos como animais". O que a frase de Madiba diz sobre o Brasil?

“Um país não deve ser julgado pela forma como trata seus cidadãos mais importantes, mas os o contrário. E a África do Sul trata seus presos como animais”. O que a frase de Madiba diz sobre o Brasil?

Excursões de escola visitam o Old Fort todos os dias. É uma forma de aprender sobre o passado recente do país.

Excursões de escola visitam o Old Fort todos os dias. É uma forma de aprender sobre o passado recente do país.

Gandhi viveu na África do Sul por 24 anos. Foi onde começou seu trabalho de resistência que, décadas depois, resultou na independência da Índia. Essa máquina de escrever e outras coisas que possuía no país estão hoje em Old Fort, num pequeno memorial.

Gandhi viveu na África do Sul por 24 anos. Foi onde começou seu trabalho de resistência que, décadas depois, resultou na independência da Índia. Essa máquina de escrever e outras coisas que possuía no país estão hoje em Old Fort, num pequeno memorial.

Uma noite depois partimos para a Cidade do Cabo. Sem passado turbulento ou história social – aqui é pôr-do-sol, lembranças do mundial de 2010, shopping a céu aberto na beira do mar. Tudo maquiado e lindo. Matei a vontade de subir no topo da Table Mountain, a enorme montanha que domina a paisagem da cidade e lembra os tepuis sul-americanos. Fiquei devendo andar pelo bairro colorido de Bo-Kaaop, onde a Solange gravou o vídeo de “Losing You”.

Cape Town, tu é linda <3

Cape Town, tu é linda <3

Pôr-do-sol pintando a montanha de vermelho.

Pôr-do-sol pintando a montanha de vermelho.

Meu único gostinho de comida local foi num restaurante chamado Gold, turistaço e bom a beça, que serve pratos de diversos países do continente africano em esquema degustação. Meu preferido: bobotie, um tipo de um prato extra-oficial da região do Cabo, um cozido de carne picada (no caso, de avestruz) super temperada, meio picante e meio doce, coberta com uma massa de ovos, que vai no forno. Pensa num escondidinho exótico. Faz parte da tradição Cape-Malay, uma adaptação local das receitas trazidas pelos imigrantes asiáticos.

O Gold é para turistas mas tem a boa intenção de mostrar algo da cultura local para quem está visitando essa parte tão européia da África do Sul. Além dos pratos e da decô (muitos tambores, tecidos, pinturas) rola demonstração de dança e música três vezes por noite, sempre junto das mesas. Sabe aquela demonstrações de dança e música típica que te deixa constrangido e com vontade de ir embora? A do Gold é o contrário. É forte, tribal, enérgico e orgulhoso. É como você imagina que a música africana deve ser, mesmo que a mesa ao lado seja de turistas russos. As pisadas no chão são tão fortes que você sente o prato tremer. Quando a dançarina chamou todas as mulheres negras do andar para dançar junto (e todas foram) o resultado foi algo harmonioso e feliz. Não dá para olhar essas mulheres e achar que dançar no meio do restaurante é algo fora de tom. Só dá pra achar que, porra, porque é que eu não consigo me mexer como elas?

O Gold, em Cape Town. é um restaurante que propõe uma mistura de pratos africanos e os músicos, que se apresentam três vezes por noite, vão pelo mesmo caminho. O resultado é um ambiente colorido, barulhento, rico e animado. Pra turista, sim. E bom à beça.

O Gold, em Cape Town, tem pratos africanos e músicos que se apresentam três vezes por noite. O resultado é um ambiente colorido, barulhento, rico e animado. Pra turista, sim. E bom à beça.

O bobotie é um tipo de escondidinho africano: carme de avestruz temperada, que vem num potinho debaixo de uma massa de ovos e é assada no forno.

O bobotie é um tipo de escondidinho africano: carme de avestruz temperada, que vem num potinho debaixo de uma massa de ovos e é assada no forno.

Springbokkies, anyone? Para os de paladar doce e fígado forte: metade Amarula, metade licor de menta.

Springbokkies, anyone? Para os de paladar doce e fígado forte: metade Amarula, metade licor de menta.

* Estive na África do Sul a convite do South African Tourism para conhecer o país com outros bloggers no #MeetSouthAfrica. Esse é o primeiro post da série. Acompanhe por aqui na próxima semana que tenho muito mais histórias (e as zebras? e os rinocerontes?) pra contar.