Comida, Índia, Prosa, Viagem

Oito motivos para visitar o Kerala

India: Orange Sunset Fort Kochi

A pergunta do título foi feita por um amigo no Instagram* logo no começo da viagem. “Já estive na Índia duas vezes’, ele escreveu, “mas nunca pensei em ir pro Kerala. O que tem pra ver aí?”.

Compreensível. O Kerala, no sul do país, abaixo de Goa e ao oeste de Tamil Nadu, é um estado bastante visitado por turistas, não faz parte do imaginário normal que temos da Índia: não tem Taj Mahal, sadhus tomando banho no Ganges ou trens subindo as montanhas na direção do Himalaia. No lugar, é abundantemente verde, com praias, rios, montanhas e florestas. É flexível e tranquilo, uma terra onde igrejas católicas e mesquitas muçulmanas se misturam naturalmente aos templos hindus. E orgulhoso, com a mais alta taxa de alfabetização, a menor taxa de mortalidade infantil e o menor índice de violência contra a mulher em todo o país.

O KeralaBlogExpress passou duas semanas dormindo em ótimos hotéis, comendo a deliciosa comida keralam e passeando de ônibus, barco e tuk tuk pelo estado. Até aprendemos algumas palavras em malayalam. Se acho que vale a pena? Com certeza. Abaixo, oito dos muito motivos possíveis para programar uma viagem ao Kerala.

1. Os backwaters

Nos itens sobre a Índia no livro-clichê ‘1001 Lugares para Conhecer Antes de Morrer’ está essa preciosidade do Kerala: a rede de canais de água doce que liga diversas vilas. O clima é bucólico e o visual é estonteante, com infinitos tons de verde e coqueirais cheio de pássaros. Há backwaters em toda a costa, mas a maior parte dos roteiros turísticos saem de Allepey, ‘a Veneza do leste’. Um passeio de um ou dois dias absolutamente relaxantes à bordo de uma casa-barco (com comida caseira e parada durante a noite) é suficiente para curtir a região. boathouse em que ficamos foi oferecida pelo grupo Lakes & Lagoons, com três quartos, televisão (mas quem é que quer ver televisão num lugar desses?), comida caseira e conforto simples. Veja mais nesse post com fotos lindas do Oscar Risch no blog MauOscar.

 

Devagar: tranquilidade nos remansos do Kerala.

Devagar: tranquilidade nos remansos do Kerala.

2. Trivandrum, Kovallam, Varkala

A capital do estado chama-se Thiruvananthapuram, carinhosamente chamada de Trivandrum e contei sobre nesse post. Com um aeroporto internacional (o único outro do estado fica em Kochi) é ponto de chegada e partida para quem visita as praias do sul como Varkala – menor, menos procurada e mais bonita que sua irmã rica, Kovallam. Foi a partir de Kovallam que o turismo se tornou realidade econômica no Kerala e a vila hoje tem uma variedade considerável de lugares para ficar, indo de hostels até resorts. Fiquei em dois deles: o confortável Turtle on the Beach, numa área movimentada, fácil de chegar e sair, e o nababesco Taj Kovallam, com um chiquérrimo restaurante na beira do mar. Aviso honesto: o legal aqui para quem é brasileiro são os hotéis, a comida, os passeios. Em matéria de praia o Brasil está muito bem servido.

Trivandrum: detalhe do 'gopuram', ou torre principal, do templo Sri Padmanabhswamy, que tem mais de 30m de altura.

Trivandrum: detalhe do ‘gopuram’, ou torre principal, do templo Sri Padmanabhswamy, que tem mais de 30m de altura.

3. Ayurveda

O Kerala é o único estado da Índia onde a medicina ayurvédica (criada na Índia por volta de 600 AC) é praticada por toda a população. Independente de você acreditar ou não no sistema, que usa óleos de plantas, remédios naturais, massagens e dietas rígidas para promover curas, uma quinzena detox num resort no Kerala é benéfica. Visitamos alguns lugares (veja essa lista de hotéis parceiros do KeralaBlogExpress se for pesquisar o assunto) que oferecem massagens e tratamentos diversos, incluindo o Manaltheeram, perto de Trivandrum, bem no sul do estado, considerado o melhor resort ayurveda do estado. O pacote completo começa com uma extensa consulta médica seus próximos quinze dias são dedicados ao tratamento com dieta, yoga, meditação e massagens. Sem bebida, sem cigarro, sem bicho morto e sem sexo. Ou seja, é para os fortes.

Kerala, India: Kovalam Manaltheeram

Vista do refeitório do resort ayurveda Manaltheeram.

4. Comida

Apesar do tamanho diminuto, sou uma glutona voraz e acredito com firmeza que a comida é a chave para conhecer um país. Sempre volto apaixonada pelas comidas dos lugares e com o Kerala não foi diferente. Quando a gente fala em comida indiana a primeira coisa que vem à cabeça é curry – e isso não está errado, claro. Só que há muito mais, como convém a um país com bilhão e tantos milhões de habitantes, 21 línguas, três mil e quinhentos anos de história, etc etc etc (você entendeu). Parte ótima da viagem fora, as refeições na companhia da foodie Roxanne (TheTinyTaster) e do enciclopédico Prasad (desiTraveler) que pacientemente responderam minhas dúvidas sobre a comida indiana. Outra colega, Anita Bora, fez um bom post explicando alguns dos pratos comuns da comida caseira do Kerala, acompanhando o cozinheiro de um houseboat – leia aqui.

Dá pra descrever a comida do Kerala como uma mistura de especiarias, coco, arroz  e vegetais. E, pela proximidade com o mar e abundância de rios, é fácil achar frutos do mar e peixes frescos, muitas vezes fritos e bastante picantes. Mas é o prato da foto abaixo, vegetariano, que é o tour de force da comida keralan: o substancioso sadya, servido sobre folha de bananeira e misturado/comido com a mão (não as mãos: usa-se apenas a direita). O arroz (Kerala rice, mais gordinho que nosso arroz comum e delicioso), o pappadom (um pão fino e crocante, que você quebra com as mãos e usa para ajudar a comer) e o sambar (um caldo picante de vegetais) são servidos o quanto você quiser. Uma versão menor e popular no almoço vem sobre um prato largo de metal: chama thalis.

Mas minha refeição predileta é o café-da-manhã, e no Kerala as manhãs não começam sem deliciosos idlis, bolinhos brancos de arroz cozido que você mergulha em chutneys de tomate e coco. Outro favorito é o vada, tipo de rosquinha frita feita de massa de lentilhas e os dosas, panquecas recheadas com vegetais e servidas com sambar e chutneys. O que eu ficou na minha memória foi uma coisa mais simples, panquecas finas recheadas com sementes de cominho, coco ralado ou banana fatiada e cobertas com mel. Sempre acompanhado de massala chai, o chá com leite, açúcar e especiarias que você encontra em todo lugar no Kerala.

Com tanto coco, arroz e especiarias à disposição, claro que o Kerala é um paraíso em matéria de doces. O kheer, por exemplo, é um suave mingau de arroz cozido com açúcar e leite temperado com cardamomo e açafrão e servido com pistache ou castanha de caju e, sim, é tão gostoso quanto você está imaginando. Unniappam é um bolinho frito de arroz com especiarias, usado como oferendas em cerimônias nos templos hindus; kozhakkatta são bolinhos cozidos de arroz com recheio de coco e açucar; churuttu são canudinhos fritos de massa de farinha de trigo e meu preferido é o ilayappam, uma panqueca branca e fininha, cozida em folha de bananeira com recheio de coco com açúcar mascavo e, às vezes, canela e cravo.

Arroz, pickles, curries, coalhada e o pão crocante pappadom sobre uma folha de bananeira: esse é o sadya, que se come com a mão direita.

Arroz, pickles, curries, coalhada e o pão crocante pappadom sobre uma folha de bananeira: esse é o sadya, que se come com a mão direita.

O Kerala também tem o provável melhor lanchinho de rua do mundo: banana chips. São fatias de banana fritas em óleo de coco e servidas em cones de jornal quando ainda quentes, ou sacos plásticos depois que esfriam. Matei minha última porção antes de chegar no aeroporto de Cochi e só de escrever já sinto o gosto. Também tem jackfruit chips, chips de jaca, mas nesse eu não boto tanta fé.

Kerala, India: Banana Chips

Kerala, India: Banana Chips

5. Reserva Peryiar

A subida da cadeia de montanhas chamada Western Gaths em direção à Tekhaddi é dura, mas a natureza justifica. A Periyar Tiger Reserve tem status de parque nacional e abriga cerca de 40 tigres, mais elefantes, esquilos gigantes, javalis, cervos, enorme variedade de pássaros, além dos inevitáveis macacos. O passeio principal é feito de barco pelo enorme lago que batiza o parque, mas também existem trilhas guiadas e opções de hospedagem dentro da reserva. Fica na fronteira com Tamil Nadu e perto de Kumily – onde escrevi esse post.

Kerala, India: Peryar Reserve

Lá longe: cervos na reserva Peryar

6. Wayanad

O mesmo vale para o Wayanad Wildlife Sanctuary, outra reserva no alto dos Western Gaths, só que mais ao norte. Duas das dicas de hotéis que escrevi ficam por aqui e a região recebe cada vez mais turistas procurando natureza preservada, contato com animais silvestres e com gente das tribos. O enorme parque pode ser alcançado por três cidades principais, Mananthavady, Sulthan Bathery e Vythiri – onde o colega Daniel Nunes teve um encontro com uma turma de macacos, leia aqui. Além de lagos, cachoeiras (que não pudemos ver, já que fomos na época da seca) e cavernas (incluindo uma com inscrições de seis mil anos, chama Edakkal) também tem extensas plantações de especiarias, chá e café em suas montanhas há mais de mil metros de altitude.

Cruzamos com essa família de elefantes selvagens perto da fronteira com Tamil Nadu.

Cruzamos com essa família de elefantes selvagens perto da fronteira com Tamil Nadu.

7. Kalamandalam University/Thrissur

Essa escola foi aberta em 1930 na cidade de Thrissur, conhecida como “a capital cultural do Kerala”. É um lugar para preservar e ensinar as artes tradicionais do estado na forma de música e das danças mohiniyattam, ottam thullal e do teatro kathakali. O blogger malayali Vijay Nambiar fez um post bem completo sobre o local para o site FeelFreeorFly (em inglês, aqui) e concordo com ele: a visita ao campus da universidade, com direito à entradas nas salas de aula para ver alunos concentradíssimos tomando lições de mestres sérios, foi um dos pontos alto da viagem.

A universidade é uma série de salas abertas para o calor (e para as chuvas na temporada de monções, claro) em que cada especialidade é ensinada diariamente para grupos de não mais de doze alunos. O curso todo leva cinco anos e forma mestres, que podem seguir carreira artística e dar aulas. Mas há cursos menores também, inclusive para estrangeiros. Os alunos começam com treze anos e, em idade escolar, recebem aulas do currículo normal na escola do campus. O destaque do terreno é um enorme teatro de madeira que abriga o palco onde os formandos devem fazer sua primeira apresentação como artistas.

Ensaiando o Mohinyyattam no palco principal, Kalamandalam University

Ensaiando o Mohinyyattam no palco principal, Kalamandalam University

8. Cochi/Kochin

Tudo que você pode pensar em comprar durante uma viagem ao Kerala, inclusive os sáris de seda de Trivandrum, os chás da ‘montanhas azuis’ de Munnar e o cardamomo de Tekkadhi, podem ser encontrados em Cochi. Trivandrum é a capital oficial, mas o centro comercial do estado é aqui e não é de hoje – muito antes dos portugueses chegarem em 1400 e tanto, Kochi (sim, tem várias grafias) já era um importante porto onde chineses e árabes compravam especiarias e madeira. Com o passar dos séculos a cidade conquistou e foi conquistada por portugueses, holandeses e ingleses, herança visível em suas ruas, museus, igrejas e bazares. A mistura de sotaques,  religião e sabores é o mais interessante de Cochi, que se divide em Ernakulam, no continente, e as ilhas de Fort Kochi (onde fica o bairro judeu, Mattancherry), Willingdon e Vypeen. Foi a última cidade que visitei e o lugar que escolhi para ‘descomprimir’ depois de quase um mês pela Índia. E por isso vai ganhar um post próprio em breve.

India: Mahatma Gandhi Beach

Pôr do sol na praia de Fort Kochi

* obrigada Paulinho, a pergunta ajudou a definir como abordar a viagem no blog. Quem sabe você e família possam escolher o Kerala como destino numa próxima vinda pra Índia? :)

Estive no Kerala, sul da Índia, a convite do Kerala Tourism para responder a pergunta “o que há para ver em Kerala”. Veja mais posts em Kerala Blog Express.