Índia, Prosa, Viagem

Um cartão-postal de Cochim

Postcard from Cochim

Olho pela janela do 20º andar da torre espelhada de mais um daqueles hotéis assombrosamente confortáveis que poderiam estar em qualquer lugar do mundo. Mas como esse está em Cochim, Kerala, Índia, o que enxergo é uma vastidão de coqueiros, águas verdes e escuras recortadas por ilhas cuja vegetação é ocasionalmente invadida por hotéis de luxo, uma pequena usina de energia e, infelizmente, um enorme conjunto de torres comerciais. Faz parte do progresso e seria hipócrita reclamar, considerando onde estou hospedada. Imediatamente abaixo, uma canoa estreita e comprida desliza pelo canal carregando um solitário homem de chapéu de palha que rema entre o progresso e seus dejetos na direção de mais uma das muitas redes chinesas de pesca de Cochim. Ele não é o único: três outras canoas ocupam pontos diferentes do rio e numa misteriosa sintonia pegam quase ao mesmo tempo suas varas de pesca. Lembro dos pescadores na praia de Poovar, ao sul de Trivandrum, uma vida e duas semanas mais cedo. Tiravam do mar mais lixo que peixes e mesmo esses eram pequenos. Mas estavam lá todos os dias, fazendo fila e força para tirar as pesadas redes do mar. Como eles, o pescador 20 andares abaixo vai em frente, ignorando e ignorado pelos turistas que tomam sol bebericando cerveja Kingfisher ao redor da piscina do hotel. Ele apenas tira mais um pequeno peixe da água suja do canal e volta a sentar, pacientemente esperando o próximo.