Livro

Viajando em livros, pt 2

Literatura de viagem é essencial para quem viaja, e reconfortante quando é difícil viajar.

Outro dia num grupo que sigo no Facebook alguém comentou a surreal alta do dólar. O assunto é frequente entre viajantes não só no Brasil, mas também na Europa, onde o euro também tem perdido para o dólar. “Como é que você estão fazendo para viajar?”. Bom, tirando os muitos ricos, os que viajam a trabalho ou quem pagou a viagem há meses, está difícil mesmo. Ainda bem que dá pra ler.

Outras dicas de literatura de viagem
Sete livros brasileiros para quem ama viajar
William Dalrymple: Nine Lives
Viajando em quadrinhos

Paul Bowles, The Sheltering Sky

Port e Kit “não são turistas, são viajantes”. Será que foi Paul Bowles o primeiro a colocar esse clichê numa página? Como muitos viajantes modernos, o casal de The Sheltering Sky não consegue parar num lugar e atravessa o norte da África (logo após a Segunda Guerra) procurando uma autenticidade que sua própria bagagem (cultural, emocional e física) os impede de encontrar. Spoiler: muito antes de GRRM aparecer, Bowles já matava personagem principal. E é aí que o livro fica especialmente interessante. Bernardo Bertolucci transformou o livro num lindo filme em 1990, com participação de Bowles, um viajante ávido de olhar poético, que usou muito de suas aventuras como base para ficção.

Sarah MacDonald, Holy Cow!

A protagonista de Holy Cow: An Indian Adventure faz uma viagem de mochilão pelo subcontinente e vai embora horrorizada. Mas uma indiana determina: você vai voltar e vai viver aqui com o amor da sua vida. A história acontece exatamente assim, e é real. É uma visão ocidentalizada da Índia, claro. Mas Sarah é capaz de rir de suas próprias interpretações e aprendizado, e lida com o absurdo da vida em Mumbai com um senso de humor e respeito que, acho, deve muito aos indianos que conheceu durante essa jornada pelas diferentes religiões do país.

Hugo Pratt, Guido Fuga, Lele Vianello, The Secret Venice of Corto Maltese

Um guia de viagem diferente, The secret Venice of Corto Maltese. Fantastic and hidden itineraries traz sete roteiros baseados na Veneza de Corto Maltese, o personagem criado pelo italiano Hugo Pratt no fim dos anos 1960. Marinheiro de cidadania britânica, Maltese viajou o mundo (Sibéria! China! Brasil!) e vivia nas Antilhas. Veneza foi cenário de muitas histórias publicadas ao longo de mais de vinte anos de tiras e livros, mas é principalmente personagem da vida de Pratt. As longas caminhadas e descobertas do artista nessa cidade singular são a alma desse livreto publicado por dois de seus amigos e colaboradores em 2013. Essa não é a Veneza da Piazza San Marco lotada, dos Belini inflacionados, ou das osterias chefiadas por chineses. É a Veneza das dezenas de igrejas, das inscrições em latim escondidas nos sotoportego e dos jardins secretos . Uma cidade que vive de noite e é absolutamente encantadora. Esse é o melhor guia de viagem que já comprei.

Tim Cahill, Jaguars Ripped my Flesh

Cahill é um herói da literatura de aventura e presença fiel entre os professores da Book Passage Conference. É fundador da Outside Magazine e um aventureiro nato, incansável e divertido. Suas histórias, como a da primeira expedição estrangeira ao Monte Roraima (que está nesse livro) é o mais perto do que a literatura de viagem dos nossos tempos consegue chegar da época de ouro das aventuras de exploração do século passado. E Cahill tem a vantagem de ser um escritor excepcional, capaz de reportagens fiéis, sensíveis e espirituosas. Esse Jaguars Ripped My Flesh é o primeiro de uma série de coletâneas de histórias curtas, todos com nome e capa de livreto pulp, como Pecked to Death by Ducks e A Wolverine Is Eating My Leg. Recomendo todos.

Daniel Kalder, Strange Telescopes

Um livro estranho, esse. A aventura que Kalder conta em Strange Telescopes: Following the Apocalypse from Moscow to Siberia começa nos subterrâneos de Moscou e termina nos extremos da Sibéria. Dura um ano e é por vezes tão surreal que você acha que está lendo ficção. Tanto que o próprio escritor parece perdido no hermetismo do mundo que tenta mostrar e, por isso, o livro acaba sendo cansativo de acompanhar. Os melhores momentos são quando Kalder conta com personagens bizarros, como seu guia ao lado B de Moscou.

* o How to Travel Light recebe uma comissão por venda a partir dos links nesse post, mas isso não altera o preço para você :)

** MAIS **

Mailing do How to Travel Light: uma vez por mês, de graça, só com os posts mais legais -> clique aqui e não perca nenhum!