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Morro acima: as escaleras electricas da Comuna 13, em Medellin

Uma escada rolante não é nada demais. Mas encontrar uma no meio de uma grande favela sul-americana tem algo de especial. É exatamente isso que está no coração da Comuna 13, a maior (150 mil habitantes) e historicamente mais violenta favela (ou “comuna”) de Medellín, Colômbia.

As escaleras eléctricas do Barrio Independencia são seis lances de escada rolante que sobem e descem milhares de pessoas todos os dias no coração da enorme Comuna 13. Chamo de bairro porque favela mesmo, acredito, é o que a gente vê em São Paulo, Rio, Recife. A área pareceu mais um bairro simples de casas de bloco com telhados de zinco, feito sem planejando, onde moradores circulam por um labirinto de ruas sem planejamento.

Ao redor das escaleras, inauguradas em 2012 a um custo de U$7 milhões, as ruas são limpas, as casas são coloridas, os muros são grafitados, as crianças vão uniformizadas para a escola e as tias vendem crema de frutas. Um pouco de maquiagem faz parte do pacote. Uma famosa marca de cerveja prepara uma ação de marketing em que vai reformar e colorir mais telhados (fica bonito quando visto de cima) e no mesmo dia da minha visita um diretor de cinema famoso ia passar por lá (o Darren Aronofsky).

Independencia, Comuna 13

Independencia, Comuna 13

Uma campanha da Prefeitura exibe rostos felizes de “heróis da Comuna 13” em cartazes e funcionários uniformizados com coletes vermelhos (todos moradores do bairro) distribuem panfletos que exaltam os benefícios do serviço. Existe plano de repetir as escadas em outras partes, mas por enquanto as escaleras, mesmo integradas ao excelente sistema de metrô de Medellín, servem principalmente como instrumento de orgulho de quem vive na Comuna 13.

Funciona. Não há uma lata de lixo à vista, mas o lugar está limpíssimo. Em cada “piso” há uma quadra onde crianças brincam e bancos para sentar e admirar a vista. Cadeirantes, idosos e crianças que até 2012 tinham que subir os 350 degraus que dividiam as partes alta e baixa da comuna, agradecem. Ainda há muitos idosos e crianças tendo que subir e descer andando os morros de outras partes da cidade, é claro. Mas não dá para descontar a sensação benéfica que a obra deixa no bairro.

Guia do Graffitour na Comuna 13, Medellin.

K-Bala, do crew Censura Mestra, morador da área, na frente de sua casa. Dali dá pra avistar a Comuna subindo o morro, e dividida no meio pelos lances da escalera.

A visita às escaleras foi parte de um passeio maior, o Graffitour, iniciativa local apoiada pela prefeitura da Medellín que mostra os enormes murais grafitados da área. Existe uma vontade de contar como Medellín superou um período trágico e longo (Medellín já foi considerada a cidade mais perigosa do mundo) e é ótimo que isso seja feito por alguém que vive ali e que não vê as coisas com lente cor-de-rosa nem tem receio de fazer críticas. K-Bala nos contou que há biblioteca sem livros, que um centro de internet do bairro só permite que cada usuário use o computador por uma hora e mostrou como a escalera divide o bairro no mesmo sem causar benefício algum a quem não mora perto dela.

E também nos levou para ver um enorme grafite de Maria Socorro Mosquera, ativista e fundadora da Asociación de Mujeres de la Independencia (AMI), uma das “verdadeiras heroínas da Comuna 13”. É a presença dele, sua vontade de repartir o que sabe (“o que se aprende, se reparte”) e a ponte que faz entre nós, visitantes, e figuras como a dona Maria Consuelo (que vende essa maravilha de crema de mango no pé na escalera) que faz com que o Graffitour nem de longe lembre os tours que levam gringos para ver a favela da Rocinha.

Um milagre pode estar acontecendo em Medellín, cidade que há pouco mais de uma década era centro nervoso de um país em estado de guerra-civil. Mas esse milagre é mais sutil, lento e motivado pelas pessoas da cidade do que a construção de bibliotecas e escadas rolantes pode fazer parecer.

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