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Na estrada da adoração

Road crossing Caatinga Plains in Piaui, Brazil

Essa história na divisa do Piauí com a Bahia é da Heloísa Barrense, participante da Oficina de Criação de Histórias de Viagem em agosto de 2018. Siga outras aventuras dela no Instagram @helokz.

A BR-135, na divisa dos estados do Piauí e da Bahia, é conhecida pelos moradores locais como a Rodovia da Morte. Com faixas muito estreitas e algumas curvas que pegam de surpresa os motoristas, o local é palco de acidentes. Muitos deles fatais, como denuncia o apelido.

Em julho de 2017 foi a minha vez de vivenciar o local. Era inverno mas o sol ardia nas plantas secas da caatinga brasileira, derramando lágrimas de suor pela minha testa. Fazia 21 anos que eu não retornava à região e, para mim, nascida e criada em São Paulo, era um momento de dar forma às imagens que sempre me foram descritas, mas nunca vistas.

A viagem não era muito longa: de Corrente, Piauí, iríamos até Formosa do Rio Preto, na Bahia, para visitar uma das duas irmãs da minha avó. No carro, eu, minha avó paterna, minha tia-avó materna e a minha prima de 17 anos que riu muito de mim quando sugeri a ela que a Exposição de Gado da cidade, que estava perto de acontecer, poderia contratar DJs para fazer a festa.

Sentei-me ao lado do motorista, um amigo da família, sem saber que ali estaria tendo uma visão privilegiada dos acontecimentos. O carro arrancou na saída da cidade e não demorou muito para ser brecado pelos clamores das duas senhoras no banco de trás: “vá devagar”, “não temos pressa”, “esta é a rodovia da morte, vamos com cautela”.

As rugas dos seus rostos não expressavam apenas os anos vividos, mas também eram o símbolo do conhecimento adquirido sobre a região. Foram mais de 70 anos se dedicando à fertilidade daquele lugar de um pouco mais de 25 mil habitantes.

A estreita rodovia não estava tão solitária aquele dia. Em período de férias, é comum ver vários automóveis transitando. O fogo ardia dentro e fora do carro: pelas janelas, as árvores, por dentro, a êxtase de tentar atualizar duas décadas de acontecimentos em uma semana.

O papo fluía, até ser surpreendido pelo trânsito, primeiro e último que eu vi acontecer. O caminhão fechava a rodovia, enquanto mais três carros estacionavam nas faixas únicas da estrada. O pânico logo se instaurou: talvez a rodovia da morte tenha feito sua primeira vítima naquele dia.

O motorista desceu e caminhou alguns metros até a ribanceira, onde todos estavam tentando prestar socorro. Olhei para trás e vi minha avó com as mãos no rosto, desesperada. Minha tia não parava de fazer o sinal da cruz e minha prima continuava atônita, olhando para frente em busca de respostas.

“Meu Deus! Meu Senhor! Não posso olhar”, dizia minha avó, abrindo pequenos freixos entre os seus dedos. “Precisamos ajudar! Mas não quero ir lá ver”, retrucava a minha tia-avó, com a mão sob a trava da porta do carro na iminência de abri-la.

Preocupada, sem sinal de celular e sem saber como agir, senti uma mão pousar no meu ombro. Olhei para trás e vi que todas elas tinham se organizado de maneira bem natural para segurar a mão uma das outras, bem firmes. Sem nenhuma palavra, fui convidada a entrar naquela roda por meio dos olhares arregalados que se direcionavam para mim e para a cena à minha frente.

“Precisamos fazer alguma coisa”, disse minha avó, entoando um “Pai Nosso Que Estás no Céu”. Dei as mãos e segurei o riso. Vivo há 22 anos em São Paulo e nunca presenciei um acidente de carro, moto ou bicicleta acompanhada de uma oração. Não só uma, como duas, já que entoamos “Ave Maria” logo em seguida. Foi só depois de muitos pedidos aos céus que tomamos coragem para sair do carro.

A oração havia surtido efeito: felizmente o acidente não tinha ferido ninguém naquela manhã. Pudemos finalmente respirar.

Todos haviam abandonado seus próprios carros no meio da rodovia para ajudar a fazer com que os membros da família acidentada subissem de volta ao asfalto. Tinha água, bolacha e até mesmo ofertas de carona para a cidade mais próxima, onde poderiam se recuperar.

A cena acabou não sendo tão trágica e conseguimos chegar à casa da minha outra tia-avó, na beira do Rio Preto, no norte baiano. Entre uma xícara de chá, um pedaço de bolacha e uma prosa repletas de causos, incluindo o acidente na rodovia, o toque da campainha veio com uma interrupção sonora que mais tarde também se tornou música.

Uma sanfona, outra zambumba, um triângulo e vozes entoando cânticos católicos. Era a chegada da Festa do Sagrado Coração de Jesus da igreja local, que ficava ali a poucos metros, e os fiéis passavam de casa em casa abençoando os seus vizinhos. Foi festa. As lágrimas, agora, já não vinham mais da minha testa, mas dos meus olhos ao ver a dona da casa, com dificuldades para caminhar, levando o grupo até o seu quarto em busca de benção.

Foi nesse dia que percebi como Deus é brasileiro.

foto do destaque: Pedro Helder Pinheiro via Shutterstock