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News: John Peel Center para MTV Brasil

Entrevista com Tom Barker, diretor do John Peel Center for Creative Arts, em Suffolk, na Inglaterra. Estive lá em outubro, antes da abertura do local. A reportagem também traz fotos da casa e coleção de discos de John Peel, além de um papo com Sheila Ravenscroft.

(original aqui)

UMA VISITA AO JOHN PEEL CENTER FOR CREATIVE ARTS E À CASA DO DJ NA INGLATERRA

Postado Gaia Passarelli // John Peel


O lendário DJ John Peel

A primeira vez que eu ouvi falar de John Peel foi com uns 15 anos (faz tempo). Eu estava comprando discos, passei por algum Peel Session e quis saber do que se tratava. O vendedor contou: “é um DJ inglês que grava todas essas bandas que a gente gosta ao vivo em estúdio, esses discos são ótimos!”

Essas “bandas que a gente gosta” podem ser praticamente qualquer banda importante do começo dos anos 60 até a metade dos anos 2000. Peel ficou muito ligado ao pós-punk inglês por ter abraçado bandas como o Fall ou o Joy Division, mas esteve fortemente envolvido com o rock psicodélico do Pink Floid, tocava death metal e reggae e foi um entusiasta da musica eletrônica desde o começo – notoriamente o primeiro DJ a tocar drum’n’bas na rádio. Bandas como Pulp e Blur tiveram o pontapé inicial via Radio 1 e, dizem, há cartas de John Lennon e Jack White no meio da papelada que Peel guardava no estúdio.

Pra mim ele é a melhor representação do papel principal do DJ, que é levar novidades musicais para quem quiser ouvir. Para muitos, é o DJ mais importante de todos os tempos.

O John Peel Center for Creative Arts
No último dia 25 de outubro, o mundo da música lembrou o oitavo aniversário da morte Peel. Ele morreu repentinamente em uma viagem ao Peru, em 2004, mas seu legado continua forte e tem até perspectivas de melhora: em dezembro desde ano, a cidade de Stowmarket, onde Peel viveu com a família desde os anos 70, abre o John Peel Center for Creative Arts.


O John Peel Center for Creative Arts está em construção

O centro vai receber shows e eventos e é iniciativa da própria cidade. “Ele era um integrante muito querido da comunidade, e todo mundo aqui recebeu a ideia do centro muito bem”, conta Tom Barker, 35, cidadão de Stowmarket (fã de musica eletrônica) e vice-diretor à frente do projeto.

Barker lembra que Peel não falava só para fãs de música e, entre comédia e esportes, teve um programa bastante popular na sobre vida familiar, o Home Truths. “Ele era enormemente popular na Inglaterra, conhecido por avós, pais e filhos. O centro é muito bem-vindo por todos e especialmente pela comunidade musical, que vê nisso uma chance de devolver um pouco do que John proporcionou à tantas bandas e artistas”, afirma Barker.

O John Peel Center for Creative Arts está sendo montado em um prédio de 1835 que servia como mercado de grãos no centro da pequena cidade. Com as obras a todo vapor, deve ficar pronto em dezembro – mas Tom não entrega nem data nem banda de abertura, para “não colocar pressão no andamento das coisas”.


Fachada do John Peel Center for Creative Arts

Não é difícil imaginar que o local deve receber muita gente importante da música britânica, dado o amor que a indústria nutre pela figura de John Peel. Billy Bragg, Undertones e Fall, por exemplo, participaram gratuitamente de eventos para levantar recursos para o centro nos últimos meses.

O local é pequeno, para cerca de 230 pessoas. Mas é uma bela construção, que está ganhando detalhes finais. Há um palco no fundo, um mezanino todo em vidro em cima. O custo total é de pouco menos de um milhão de libras, que vem de patrocínios, incentivo fiscal e dos eventos para levantar fundos organizados pelos voluntários que trabalham no projeto.


O interior do John Peel Center for Creative Arts em construção


Tive de usar equipamento de segurança para fazer a visita

O Peel Acres
Depois de ver o centro, segui para o ‘Peel Acres’, a propriedade onde a família Ravenscroft-Peel viveu. “Mas temos que fazer uma visita rápida,” alerta Barker.

O Peel Acres é um chalé impossivelmente britânico, pintado de rosa, com muitas plantas, gatos e um empolgado cão chamado Edgard. No caminho, Barker fala com bastante respeito e empolgação sobre Sheila, a viúva de Peel. “O projeto só começou mesmo a andar depois que ela o abraçou. Ela não queria que fosse apenas o nome de Peel no prédio, queria participar – ela fica atrás do balcão vendendo cerveja nos eventos!”


Sheila Ravenscroft, viúva de John Peel, me recebeu em sua casa

A viúva de Peel é a simpática e falante Sheila Ravenscroft, mãe de seus quatro filhos e dona da casa onde está localizado o estúdio onde Peel gravou incontáveis Peel Sessions, fez os programas ao vivo para a BBC de 1970 e pouco até 2004 e armazenou cerca de cem mil , incluindo singles e CDs. Não há um iPod ou similar à vista.

Sheila me recebeu na cozinha da casa e rapidamente ofereceu chá antes de desatar a falar sobre o evento de segunda-feira passada, em que ela teve que subir ao palco dos Q Awards para entregar um prêmio para o Pulp. Ela conta que não fica à vontade no papel que Peel cumpria com tanta facilidade. Mas ficou feliz pela salva de palmas que Jarvis Cocker puxou para John Peel quando recebeu o prêmio. Ela fica animada também com o apoio de recebeu de Cocker, Damon Albarn, Karl Hyde, do Underworld [‘oh, eu amo o Underworld!’] e do chefão da Rough Trade, Geoff Travis, em relação ao centro.

O estúdio onde Peel gravou incontáveis programas tinha uma ligação direta de alta qualidade com a BBC, o que permitia que Peel fizesse os programas ao vivo, de casa. Os dois toca-discos, a mesa de áudio, os microfones: tudo continua como ele deixou há oito anos, só que mais caótico. Caixas e caixas de discos ocupam o chão e se misturam à bagunça da própria Sheila e de seus filhos – fotos, livros, caixas de jogos, prêmios, memorabilia do Liverpool FC.


O estúdio em que John Peel fazia seus programas


A caótica casa de John Peel

Os discos ficam principalmente em duas salas, uma colada no estúdio com CDs e outra, junto da cozinha. Ainda há um mezanino onde ficam mais discos. Uma parte desses discos estão organizados alfabeticamente em caixas, separados pelo pessoal que fez uma série para o site The Space esse ano, selecionando 100 álbuns de cada letra do alfabeto da coleção de Peel.

Um exemplar da primeira prensagem de Tubular Bells, de Mike Oldfield, foi um dos que apareceram na série e está logo em cima de uma pilha. Barker lembra que Peel tocou esse disco, o primeiro do embrião da Virgin Records, na íntegra logo após o lançamento. Recentemente Richard Branson, criador da Virgin Records que hoje tem status de Sir, deu uma declaração que exemplifica perfeitamente a relação que a indústria musical britânica tem com a memória de John Peel: “Se ele não tivesse feito aquilo eu acho que todo o império da Virgin teria morrido na praia. Depois de Mike Oldfield nós acabamos assinando com os Sex Pistos, Rolling Stones, Genesis”.

O local é cheio de histórias: Sheila lembra de quando PJ Harvey veio gravar seu Peel Session e, como era verão e estava muito calor, ela abriu as janelas e ficou vendo de fora, sentada no muro de pedra do outro lado da rua.

Pergunto como foi para as crianças ter toda essa gente em casa ao longo dos anos – Peel constantemente comentava sobre a presença de Sheila e dos filhos no estúdio durante o programa. “Ah, foi a melhor época da vida deles, não que eles tivessem qualquer noção disso na época”, diz Sheila. Os filhos, claro, cresceram para ter ótimo gosto musical. Tom Ravenscroft, hoje com 30 anos, segue os passos do pai, apresentando um programa na BBC Radio 6 às sextas-feiras.

E a coleção? Há interesse da British Library em arquivar e disponibilizar a discoteca para o público. Mas Sheila não parece preocupada. “A decisão é dos nossos filhos, mesmo.” E como boa esposa de colecionador que foi, Sheila não se importa com a absurda quantidade de discos na casa. “Era apenas um fato da vida,” ela ri, “a casa foi crescendo junto com a coleção e, veja, hoje é uma casa grande!”


A “pequena” coleção de discos de John Peel

Reparo num cartoon no corredor que vai para a cozinha: mostra uma sala cheia de discos, uma jovem Sheila Ravenscroft sentada num pufe e um rapaz da cabelos longos entrando com um disco na mão. ‘ah, mais um disco, que ótimo,’ diz a moça na legenda. É um retrato perfeito de como deve ter sido viver com Peel e sua música ao longo de todos esses anos.

Antes de ir embora quis saber de Sheila qual sua banda preferida. Ela diz que não gosta da pergunta mas pensa um pouco. “The Fall, talvez. Mas eu gostava de tudo que John tocava.” E logo em seguida emenda: “Dance music! Eu sempre adorei dançar!”

Mais John Peel na internet

https://www.facebook.com/JohnPeelCentre
http://www.johnpeelcentreforcreativearts.co.uk
http://thespace.org/items/s000004u

 

Mais Peel

O site The Space fez uma série fantástica, em vídeo e cheia de histórias, selecionando 100 discos de cada letra do alfabeto da coleção de Peel. Você pode ver aqui.

Todo ano em 25/10 vários sites nerds de musica celebram o #JohnPeelDay ou o#keepingitpeel. Além de festas e shows ao redor do mundo (a lista em 2012 tinha Singapura no meio) todo mundo posta musicas de bandas novas com as tags. Esse site explica melhor.

Uma boa alma coletou mais de 400 edições do programa de Peel para a Radio1 e colocou no soundcloud. Tem de tudo, mesmo. Ouça aqui.

Dois bons livros, escritos no mesmo tom entre honesto e irônico de Peel, foram lançados após sua morte: Margrave of the Marshes (2005) e The Olivetti Chronicles (2008). Dá pra encomendar na Cultura ou na Amazon, mas não tem em português. O primeiro é a autobiografia que ele deixou inacabada e foi organizada por Sheila.

Peel guardava seus 100 discos preferidos dentro de uma caixa de madeira. O John Peel Record Box só foi aberto depois da morte de Peel e tem, entre outras coisas, cerca de 11 discos do White Stripes. O Chanel4 inglês fez um documentário sobre a caixa, cheio de histórias e declarações de fãs, que você pode ver no YouTube.