Prosa, São Paulo, Viagem

O Piano da Estação da Luz

Piano da Estação da Luz

Apesar de ter pai pianista, não entendo nada de piano. Por isso não sei identificar qual é o modelo, tipo ou categoria do piano instalado na Estação da Luz, em São Paulo. Sei que é um piano vertical, de madeira escura e que tem teclas brancas e pretas.

No site da CPTM descobri que o instrumento espantosamente colocado no meio das milhares de pessoas que passam pela estação por dia é herança do projeto “Toque-me, sou teu” do artista inglês Luke Jerram. Em 2008, com o apoio da Prefeitura, Jerram espalhou pela cidade oito pianos durante dez dias. Uma idéia simples: deixar os instrumentos disponíveis (e em bom estado) para que pessoas os toquem. Dois desses pianos ficaram como presente para estações de trem/metrô de São Paulo.

Um é móvel: no momento está na estação Barra Funda, depois segue viagem para a estação Pirituba. O outro fixou residência no saguão térreo da Estação da Luz, de frente para a grande porta que dá vista para o Parque da Luz, entre duas bonitas escadas brancas que levam para as plataformas de acesso dos trens sentido Guaianazes, perto da bilheteria.

Cheguei na Estação da Luz no meio da tarde de terça-feira passada e vi a troca do pianista da vez. Um rapaz moreno, usando agasalho com capuz, dedilhava notas sem muita certeza e cedeu lugar ao ver que outro o observava. Este, usando boné branco e uma gasta camiseta azul, sentou na banqueta e começou a tocar uma melodia qualquer, que rapidamente se tornou música. Não era alguém experimentando um instrumento: era alguém que conhece piano.

Pisquei os olhos e ele estava cantando. A voz clara e segura abafada pelos passos no piso de mármore e pelos barulhos da rua. Antes de terminar o primeiro refrão, um grupo de passantes já havia formado um círculo ao redor do piano e de seu condutor temporário, entre eles uma senhora carregando uma pastinha, arriscando fazer a segunda voz para o rapaz.

Mais uma daquelas músicas que todo mundo conhece menos eu, pensei. E segui meu caminho. Procurei o balcão de informações para saber mais sobre os passeios do Trem Turístico da CPTM, que saem apenas uma vez por semana em direção à Paranapiacaba (não há vagas nos próximos dois meses), Jundiaí (há vagas para daqui quinze dias, não muitas) e Mogi das Cruzes (normalmente dá pra comprar na hora). Ajudei uma senhorinha a atravessar a rua em direção à Pinacoteca do Estado. Almocei búreka de queijo e tomei suco de maçã na Casa Búlgara. Comprei qualquer coisa numa lojinha do Bom Retiro. Voltei caminhando por dentro do Parque da Luz, onde até a criança pequena correndo atrás do filhote de cachorro labrador tem cara de mau elemento.

Levei o que, duas horas? Uma hora e meia? Não contei, mas quando passei de novo na frente do saguão de acesso da Estação foi impossível não ouvir: o rapaz do boné branco e a senhora da pastinha de couro seguiam cantando, acompanhados do piano e da porção de gente que nele se apoiava.

Os barulhos dos trens chegando e partindo, dos ônibus passando lá fora, dos usuários apressados da estação – nada disso incomodava o pessoal em volta do piano. Eles cantavam juntos outra música que não reconheci, e aplaudiram quando o rapaz do boné branco se levantou para dar lugar ao próximo pianista: um senhor careca usando uma camisa polo listrada, que arriscou uma dessas melodias que a gente aprende na aula de música na escola. Mas o grupo em volta do piano já estava desfeito, cada um correndo para cuidar da vida.

Menos a senhora da pasta de couro e o rapaz do boné branco. Eles ainda ficaram uns dez minutos conversando no saguão. Não sei se falavam das músicas, do piano, de como ele toca bem ou de como a voz dela é clara. Sei que se despediram com um cordial aperto de mão: ela desceu a escada, ele atravessou a antiga plataforma de metal que passa sobre os trilhos da Luz, onde antigamente passaram cavalos e carroças.

***

Lembrei mais tarde que eu já estive parada outras vezes naquele mesmo ponto, no saguão de acesso da estação, no degrau ao lado da grade dourada que circula a escada perto da bilheteria. É onde esperava um namorado, há mais de vinte anos, quando morava no subúrbio e vinha para São Paulo passar o dia. Naquele mesmo lugar eu terminei o namoro, depois de descobrir uma traição e decidir que merecia melhor que aquilo na vida. A briga foi apartada por um integrante da Polícia Ferroviária, que já nos conhecia de vista. Eu peguei a mochila, entrei no trem pra casa e no mesmo dia fiz uma fogueira com fotos e cartas, cortei o cabelo curtinho e pintei de vermelho. Era 1992 e eu tinha 16 anos.