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Oaxaca: visitando o mercado de domingo de Tlacolula

Mercado Tlacolula, Oaxaca, México

“É bem mais fácil ir sozinha,” disse a simpática moça loira da recepção do hostel, uma mexicana com pedaços de azul e verde no cabelo, falando inglês perfeito. Você vai gastar menos dinheiro e ter mais tempo indo sozinha. Vai aproveitar mais.” Verdade. Eu estava perguntando sobre uma daquelas tours em que uma van pega turistas em diferentes lugares e passa o dia inteiro visitando diferentes pontos de interesse. A sugestão da moça foi sincera e bem-vinda. “Ela me mostrou em um mapa de papel colado no balcão o local para encontrar o ônibus e eu subi para pegar a bolsa. Destino: mercado de domingo de Tlacolula, no vale oaxaqueño, cerca de 30 quilômetros de Oaxaca capital.

Visitando Oaxaca: Tlacolula

Demorei pra entender onde afinal ficava a rodoviária “de segunda classe” de Oaxaca: a rodoviária é na verdade um apanhado de espaços ao redor de dois quarteirões no bagunçado centro de Oaxaca onde embarcam passageiros para lugares como Mitla, Tule e Monte Alban. O processo é simples, nenhuma passagem custa mais que M$15 (tipo R$2,50) e os ônibus saem sempre de hora em hora ou algo parecido. A maioria deles vai para as cidades, vilas e povoados principais do vale de Oaxaca, de onde se pode pegar, com o mesmo baixo grau de dificuldade, outros transportes para vilas ainda menores, pueblitos.

Depois de Oaxaca, que é a capital, e Mitla, onde estão ruínas e igrejas importantes, Tlacolula de Matamoros (você precisa ver os gringos tentando falar!) é a cidade mais importante da região. Tem um pátio com igreja do século XVI, ruas planas em linha reta, uma rodoviária com loja de conveniência. A van me deixou no posto de gasolina na beira da estrada e só entendi que era o ponto de parada por ter prestado atenção no casal com chapéu de cordinha e camiseta “super dry” (mais pochete para ele, mochilinha impermeável para ela) que estava descendo ali. Turista se reconhece e por mais que meu estilo de viajar não inclua a mesma vestimenta (jeans, camiseta branca já suja por dias de viagem, alpargatas azuis, pano amarrado na cabeça, mochila de algodão com um zíper quebrado) eu também não passaria por moradora local.

Mercado Tlacolula, Oaxaca, México

Tlacolula

Oaxaca é o estado mais indígena do México e o mercado dominical de Tlacolula é um dos melhores lugares para ver esse ecletismo. Aqui estão 18 das 65 etnias do país, e também a maior população de bilíngues mexicanos, que falam o espanhol obrigatório sem abandonar o idioma nativo. Muitos são descendentes diretos dos povos que viveram ali antes da invasão espanhola. A chegada dos europeus com seu gosto por ouro e genocídio é o acontecimento mais dramático da história relativamente recente, é claro. Mas mesmo antes disso o que hoje é Oaxaca nunca foi território exatamente calmo. Zapotecas, depois mixtecas e astecas ocuparam a região em diferentes épocas e suas guerras por território explicam a variedade étnica local. 

O mercado mesmo é uma enorme construção em pedra amarela perto da igreja. Tem paredes internas baixas que formam corredores onde vendedores espalham de chocolates a queijo, de flores frescas a chapulines (grilos sem vísceras, fritos e temperados com limão, alho e pimenta), de ovos a chicharrones (torresmos). Aos domingos, ao redor desse mercado fixo, a coisa cresce de maneira orgânica. Começa na rua da rodoviária e se espalha pelo centro de Tlacolula com vendedores que oferecem pen drives com sucessos dos Los Diablitos, camisetas dos Vingadores, cestas de fibra plástica colorida trançada como palha ou linguiças apimentadas e nacos de carne que você pode pedir pra assar, temperar e comer ali mesmo. Perus vivos com os pés amarrados, panos de prato, alebrijes (animaizinhos imaginário coloridos feitos de papel machê ou madeira de copal, são bem populares em Oaxaca) e aguas frescas (água aromatizada com pedaços de fruta) se revezam de forma mais ou menos ordenada – tem de tudo em todo canto. Além das barracas fixas, há os vendedores ambulantes, credenciados ou não, que caminham com os produtos dentro de cestos, oferecendo para os vendedores fixos e pros passantes limão, pimientos ou pedaços de nopal (um tipo de cacto comestível que é a base da comida mexicana do dia a dia).

Mercado Tlacolula, Oaxaca, México

Semelhança com as nossas feiras livres não é coincidência: a intenção é a mesma.

Acho difícil escolher o que comprar em situações como a do mercado de Tlacolula, com tanta oferta e cores, texturas, cheiros, gostos e sons. As peças simples da señora Antônia me chamaram a atenção quando parei para ver a abuela da banca lado, uma senhora idosa magricela com flores na cabeça e cintura apertada por faixa de tecido Acabei notando suas cerâmicas sem pintura, com formas perfeitas e delicadas, e comprei uma caneca com pires – já pensando no tanto de chocolate diluído em água que vou tomar quando em casa, feitos com os torrões de massa de cacau com amêndoas e canela que vendem em todo lugar em Oaxaca. Só quando neguei o pedaço de plástico que Antônia queria usar pra embalar a caneca é que entendi que ela e a outra señora mal falavam espanhol – se falavam mixteca ou zapoteca eu não tinha como saber. Conversamos rapidamente por gestos, ela me convidando para sentar e ver mais, colocando o abuelito da banca vizinha, que vendia coisas de cozinha, na conversa também. Foi a situação certa pra pedir uma foto, que Antônia concordou primeiro com mão na cintura e timidez e (depois de ver o resultado) com um sorriso enorme.

Mercado Tlacolula, Oaxaca, México

A Doña Antonia, que faz animalitos e peças de cerâmica como a que tô usando pra tomar chocolate quente enquanto escrevo esse post.

Dentro do mercado fixo, já me sentindo muito a vontade com o lugar, saquei meu celular para fazer um video do ambiente. Sou bem discreta quando viajo, ando com pouca coisa, então não é como se eu estivesse exibindo uma câmera profissional com lentes e demais paranauês, só estava com meu celular que nem iPhone é. Virei para um lado, registrando um corredor em que senhoras vendiam nopal e flores. Virei para o outro e dei de cara com duas señoras de cara brava. Desliguei. Elas vieram falar comigo e pediram, em espanhol, voz baixa e firme, que não tirasse fotos das pessoas sem pedir. Balbuciei um “lo siento” e perguntei se queriam que eu apagasse. Disseram que não, que tudo bem, mas que as pessoas estavam ali trabalhado, “no es una fiesta”. Guardei o celular e poucas vezes senti tanta vergonha da minha condição de turista.

Conto isso da foto por causa do seguinte: Tlacolula recebe turistas sim (eu, inclusive) mas é antes de tudo um lugar para os oaxaqueños do vale fazerem suas compras aos domingos. Você vai ver poucos visitantes e vai encontrar muitas situações fotogênicas, como as senhoras de saião estampado e lenços na cabeça sentadas na calçada depenando frango ou garotos de roupas de algodão cru moendo grãos de cacau nas moendas de aluguel. Mas isso não significa que você tem passe livre pra sair tirando foto de tudo. Fotografar uma tigela de mole é diferente de registrar o tecido bordado a mão por uma senhora ou o rosto de uma criança. Tem gente que simplesmente deseja ser respeitada em sua privacidade. É básico, mas as pessoas esquecem: sempre peça licença antes. Compre algo. Converse. Faça parte do lugar. Entenda que ser um visitante não te dá o direito de agir da forma que bem entender. Respeito é bom e todo mundo sai ganhando.

Mercado Tlacolula, Oaxaca, México

Status: tirando foto do ambiente, escondida atrás dos enfeites de Natal.

Com as señoras de volta ao seus lugares, cortando nopal com facões e me vigiando com canto de olho, decidi refrescar a cabeça e mudar o foco (literalmente). Vi uma banca de tejate. É uma bebida ancestral, muito típica de Oaxaca, feita a base de uma pasta de milho e cacau e que pode receber nozes, coco, flor de cacau e semente de mamey ou especiarias. Uma vez misturada com água, fica coberta de espuma dentro de enormes travessas de barro, de onde é retirada com concha e servida em coloridas cumbucas de cabaça esmaltada. Aprendi isso enquanto conversava com Doña Mary, que há uma década vende tejate dentro do mercado. Ela prepara a bebida todos os dias e a pasta base pode durar uma semana, se bem armazenada. A espuma por cima, explicou, é obrigatória na apresentação, mas não é todo que curte mesmo – tem textura de manteiga de cacau e o mesmo efeito emoliente nos lábios. 

Mercado Tlacolula, Oaxaca, México

Mary do Tejate deu uma pequena aula sobre “la bebida de los dioses”. É uma deliciosa mistura de doce e amargo, servido sempre geladinho.

O tejate é pesado, mas abriu meu apetite. A regra básica para seguir é ver onde está mais cheio e imitar os locais. Se por um lado o onipresente cheiro de carne assada não me animava, por outro as possibilidades da comida vegetariana no México são irresistíveis, com suas virtualmente infinitas opções de salsas, temperos e suco de limão – que mania maravilhosa essa de botar limão em tudo! Escolhi um cantinho onde uma dona assava tortillas na hora, servindo para um grupo animado de tias que conversavam debaixo de um toldo de plástico para proteger do sol. Quando perguntei o que tinha ela nem mencionou carne: flor de calabaza (abóbora), queso (o macio e salgado queijo branco oaxaqueño) e hongos (cogumelos).

Outras compras no mercado: sales de gusanos y chapolines, tabletes de cacau para diluir em água ou leite, panos de cozinha e um pacote de tortillas de milho que voltei comendo no avião. As catrinas com jeitão made in China eu deixei passar.

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Being a conscientious tourist at Oaxaca’s Tlacolula Market