Itália, Viagem

On the Road: #ExploreItaly

Piloto: chegando em Milão.

Tenho: problema com jet lag.

Não tenho: problema em jantar sozinha.

Por isso me vi às dez e meia da noite devorando um naco de pão italiano e tomando uma taça (calice) de vinho tinto (vino rosso) numa cantina (osteria) aqui perto do apartamento que estou ficando em Milão. Não é um restaurante milanês, mas da Puglia. O milanês, especializado em arroz, fica a três quadras de distância e depois de viajar por dezoito horas e encarar o jet lag acordada caminhando entre pontos turísticos e turistas na cidade velha (vecchia cittá), não aguento o rolê. Por isso parei no restaurante mais perto.

É sempre uma surpresa jantar sozinha. Tem lugar (em São Paulo rola muito) que acha que gente sozinha espanta clientela e por isso coloca o cliente solitário numa mesa esquecida no fundo, de preferência entre o banheiro e a cozinha, melhor ainda se for no escuro. Hoje não. O garçom me colocou no meio do salão, serviu água e pão e me disse para ficar à vontade que ele já voltava. Na mesa ao lado, um casal. Na mesa do outro lado, um grupo de seis pessoas falando broken English. Em mais quatro mesas, gente jantando sozinha.

Talvez a Osteria della Pasta e Fagioli (“cantina da massa e feijão”) esteja no caminho de quem, como eu, está exausto e precisa comer algo substancial. Talvez essa seja uma região deprimente de pessoas solitárias, amargas e difíceis. Ou talvez esse seja um lugar familiar, de bairro, onde a comida é boa e barata e a atmosfera da porta pra dentro é quentinha e amistosa. Taí, fiquei com essa última opção.

A osteria de fato existe há quatro décadas. A dona, uma jovem senhora de cabelo preto e roupas folgadas, recebe algumas pessoas na porta com risada alta e abraços. Tá na cara que conhece que vem aqui pelo nome. Uma senhora elegantérrima com longos cabelos brancos contrastando com a roupa escura, chega sozinha e de cara já recebe uma taça de vinho branco (bicchiere di vino bianco) e uma travessa de sopa de legumes. Pratos com canolli fresquinhos acompanhados de pequenas xícaras de café atravessam o salão. Pessoas levantam para se servir do balcão de antipastos. A dona, que deve ter a minha idade e fala alto, gesticulando, vem na minha mesa quando eu misturo azeite e sal para molhar o naco de pão – “aqui, ela também faz isso, como eu!” grita para os garçons (camerieri).

Infelizmente as últimas dezesseis longas horas, a falta de sono, a fome e a confusão mental se unem e me obrigam a responder num fiapo de voz uma frase que mistura de português, espanhol e italiano. É pobre, mas é o melhor que tenho agora. O pessoal entende e me deixa comer em paz meu primeiro prato (primo piatto), um cozido de feijão branco e canelini num caldo leve e delicioso. O cameriere vem na minha mesa e gesticula, me ensinando a colocar azeite sobre a comida. Queria explicar pra ele que sei fazer isso, que a gente come assim que casa, que minha família é italiana, que se não fosse a falta de prática e o cansaço eu até arriscaria pedir um segundo prato (secondo piatto) de carne de cavalo, porque passou um ao meu lado agora e o cheiro estava incrível. Ao invés disso, apenas sorrio e aceno, agradecendo. E jogo o azeite (olio) verde claro e opaco por cima do meu pratão de carboidratos, temperando tudo com pimenta-do-reino (pepe nero) e limpando o prato com colheradas fartas.

Não levei celular para não ficar dependente dele, mas levei meu caderno e caneta. Quero escrever sobre o delicioso apartamento, pequeno, todo branco e cheio de luz que o AirBnb arrumou. Quero anotar as coisas de Milão que quero ver nos próximos dias, como o bar desenhado pelo Wes Anderson (o Luce). Quero contar sobre me perder no aeroporto, sobre não conseguir encontrar o ponto para pegar o tram #1 hoje de tarde, sobre a Expo Milan, sobre a capela de ossos.

Mas só consigo comer com empolgação selvagem e rabiscar coisas como AMO ESSE LUGAR, assim mesmo em caixa alta. Tudo bem. Ninguém no restaurante olha de lado pra mesa da moça sozinha. Nem pra minha, nem pras outras. Viver a própria vida não é tabu. É assim que gosto de viajar.

Limpo o fundo do prato com ajuda de mais nacos de pão (pane), termino minha bebida e afasto a idéia de encarar um bifão de carne de cavalo, um canolli ou mesmo um café. Só peço para levar a garrafa de água que pedi e acabou esquecida no canto da mesa. Na hora de pagar, o caixa tem que pedir pro barmen traduzir o valor: quatorze (quattordici) euros.

Che ora si apre domani?, pergunto.
“Mezzogiorno”, ele responde.

Perfeito. Combino comigo mesma de voltar.

Pão, macarrão, feijão. Foto: Osteria della Pasta e Fagioli.

* Estou na Itália à convite da Eurail, numa ação conjunta com o AirBnb e o Walks Of Italy. Acompanhe principalmente via instagram e snapchat (gaiapassarelli). E saiba mais aqui.