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Outras Viagens: Buenos Aires por Thais Martinho

Essa declaração de amor a Buenos Aires é da Thais Martinho, apaixonada por viagens e participante da oficina de criação de contos de viagem em abril de 2018. Siga outras aventuras dela no Instagram @thaismart. Próxima edição da oficina: dias 23/05 (quarta-feira) no Sesc Avenida Paulista.

Coração Portenho

– Desculpa, não posso ir.

Foi o que eu ouvi às vésperas da minha primeira viagem para fora do Brasil. Estava solteira há três meses quando decidi, com uma amiga do trabalho, passar o feriado de finados em Buenos Aires. Íamos nos hospedar na casa do tio dela, que havia se casado com uma argentina e vivia ali há muitos anos. Com o súbito cancelamento, eu, com passagens compradas e a cabeça em Buenos Aires, decidi: iria mesmo assim. Sozinha. Pela primeira vez.

No avião estava ansiosa, inquieta demais até mesmo para assistir um filme, mas quando desembarquei em Ezeiza não senti medo nem preocupação. Percebi que gostava da ideia de estar sozinha. Me senti uma pessoa diferente. Livre. Tive vontade genuína de bater papo com o taxista. Foi a primeira tentativa de espanhol portenho, algo que com o tempo acabei aprimorando mas que até hoje causa surpresa e certa confusão aos locais – “Pero hablás como argentina!”.

Essa também foi minha primeira noite em um quarto compartilhado de albergue. Minhas costas eram cutucadas pelas molas do colchão fino. Escutava a respiração e o ronco cadenciado de completos estranhos. O cheiro rançoso do quarto incomodava. Não consegui dormir muito bem, mas ainda assim me sentia feliz, como se fizesse parte de algo especial.

Na manhã seguinte, saí para explorar a cidade. Era um dia típico de primavera e meus olhos franziam diante da luz. Sentia o sol aquecer minha pele ao mesmo tempo em que essa pedia abrigo contra o vento. Buenos Aires sempre havia me intrigado. Talvez pelo charme dos argentinos que conheci no Brasil, sempre com aquele espanhol meio italiano e o jeito galanteador de macho alfa latino. Mas o que senti explorando suas ruas pela primeira vez foi inesperado. Ao pisar na Avenida de Mayo fui levada a um passado que não vivi. Como se tivesse estado ali antes, em outra vida. Os edifícios imponentes de arquitetura gótica contrastam com as flores e parecem uma colagem no céu de azul intenso. Respirei fundo, absorvendo todos aqueles cheiros, fechei os olhos e senti um nó na garganta. Tive certeza: estava em casa.

Buenos Aires tem cheiro de nostalgia. É um cheiro inconfundível de madeira antiga, de poeira e de aromatizador de ambientes. Buenos Aires tem uma personalidade complexa. A melancolia e a paixão caminham juntas, como em um tango. Ou como as velhinhas que tomam o café da tarde na tradicional confeitaria Las Violetas, emolduradas por vitrais coloridos. É uma cidade que sofre com saudades de seus tempos áureos, que tem uma nostalgia mesclada à energia dos jovens que caminham rápido pelas rua, dos amigos discutindo política nos bares, das brigas nas ruas. Ninguém xinga com tanta vitalidade como os portenhos: é uma arte local. Buenos Aires não tem apreço pelo moderno. Puerto Madero, que encanta apenas turistas, não se encaixa na cidade. Nos bairros mais tradicionais, nota-se a luta contra a modernização e o apego aos últimos indícios de identidade. Buenos Aires não é Europa. É uma cidade completamente latina, há anos luz do mundo em que tudo funciona e horários são respeitados. É caos, é gritaria, é cumbia tocando nos quioscos. A diferença é que tudo isso acontece em um cenário europeu, com seus edifícios desenhados por arquitetos parisienses e construídos com pedras e materiais importados da Europa. Essa herança europeia foi por muitos anos restrita à aristocracia da cidade. Claro que em um bairro fino como a Recoleta essa situação se mantém. No entanto, no centro ou em San Telmo, os edifícios antigos se tornaram funcionais, ocupados por comércios, escritórios e apartamentos de classe média.

Cansada, depois de andar seis horas seguidas, busquei um café desses antigos, que preservam suas paredes e balcões de carvalho e seu mobiliário original, como uma cápsula do tempo. Os cafés portenhos são uma instituição, alguns deles são considerados patrimônio cultural. Os portenhos passam muito de seu tempo nas mesas dos cafés, palcos de importantes debates políticos e berço de criações musicais e literárias. Pedi um café para o garçom, um senhor simpático que parecia trabalhar lá há muitos anos e comecei o processo de me sentir parte da cidade.

Mais tarde, de volta ao albergue, descobri que eles não tinham mais quartos disponíveis para a noite seguinte e que teria que sair logo de manhã. Descobri também que a noite portenha muitas vezes começa as três da manhã (até hoje, não consegui ficar até o final de uma festa para saber a que horas termina). De ressaca e já em meu novo albergue, vi que dividiria quarto com duas conterrâneas, que acabaram virando companheiras de viagem. Eu seguia em uma espécie de transe, fascinada, colecionando histórias nem sempre agradáveis. Teve a vez em que nosso quarto quase foi invadido no meio da noite por uma legião de machos bêbados que “queriam ver as brasileiras dormindo”, como se fôssemos animais exóticos em exibição no zoológico. Teve a do taxista, provavelmente louco de cocaína, que dirigia como um alucinado enquanto cantava “Menina Veneno” e contava detalhes sórdidos (e não solicitados) sobre sua viagem de formatura ao Rio de Janeiro. Teve a do assédio vindo do interfone da embaixada brasileira, enquanto tentávamos tirar uma foto ali em frente.

Voltei a Buenos Aires pelo menos dez vezes depois dessa e sempre me sinto do mesmo jeito. Até um namorado portenho tive, cinco anos convivendo com ele e sua família e aprendendo sobre o ritual do mate, do asado, os lunfardos, ditados peculiares e claro, os xingamentos. Juntos, viajamos por todo o país. Sempre que conto dele para as pessoas, ouço a mesma coisa: “ah, então é por isso que você gosta tanto da Argentina”, aliviadas, como se precisassem de uma motivação romântica para que aquilo fizesse sentido. Mas elas não sabem que na verdade me interessei por ele porque ele era argentino, não o contrário.

A história com o argentino terminou e meu romance com Buenos Aires segue firme e forte. Já se passaram doze anos desde que nos conhecemos e meu coração continua mais portenho que paulistano. Bate mais forte quando escuta um tango, ou ouve pelas ruas o sotaque inconfundível. O que torna esse romance ainda mais especial é que ele coincidiu com a descoberta de outra paixão e até um novo propósito: viajar sozinha.

Sim, talvez nosso relacionamento dê tão certo porque é à distância, mas a verdade é que depois dessa viagem eu tive a oportunidade de conhecer outras cidades incríveis e nunca senti nada parecido com o que senti por Buenos Aires.

Se me perguntam, posso dizer tranquilamente que acredito em amor à primeira vista. Ok, foi por uma cidade. Mas é amor verdadeiro.

#tbt Buenos Aires te extraño

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* Imagem do destaque: Café Rivas em San Telmo via Shutterstock.