Outras Viagens, Prosa, Viagem

Outras Viagens: São Tomé e Príncipe por Kathrin Lazo

Essa história em São Tomé e Príncipe, na África Equatorial, é da Kathrin Lazo, participante da oficina de criação de contos de viagem em abril de 2018. Siga outras aventuras dela no Instagram @perdiaposta.

É sempre verão da linha do Equador

Quando eu tinha três meses, minha mãe me levou pra conhecer o mar  no lado de cá do Atlântico. Trinta e três anos depois foi a minha vez: eu a levei pra conhecer o lado de lá do oceano.

Pareço ser uma filha bem legal, mas na verdade a ideia de ir pra São Tomé e Príncipe sozinha estava me dando medo. Por um segundo até pensei em desistir. Ao invés disso, apelei para minha mãe.

“Sodade, sodade, sodade”… a canção na voz da cantora Jéssica, que canta e toca comigo no bloco  Os Capoeira, me emciona muito, como o som dos tambores ao ritmo do ijexá. Mas eu não podia cantar sobre um lugar que eu mal sabia onde ficava, então fui eu pesquisar esse país, desses que a gente descobre em abertura de Olimpíadas, um lugar que não saiu mais da minha cabeça.

São Tomé e Príncipe.

O mau humor tava batendo. A surpresa com a falta de wi-fi e de energia elétrica, o isolamento, os mosquitos, a fome, a perda da chave… white people problems? É que pegar  tempestade em uma mini-ilha no meio do oceano, dentro em um chalé na areia, escutando as ondas batendo perto, sabendo que os humanos mais próximos estavam longe, é algo que te faz sentir muito vulnerável. Isso sem contar o peso da convivência: eu e a minha mãe não moramos juntas há vinte anos. Uma semana parecia tempo demais.

Sem o mosquiteiro, picadas. Com o mosquiteiro, calor. Uma noite daquelas que você já acorda cansada. O sol ainda não tinha aparecido e nada da chuva parar, não deu nem pra escutar a moto que traz a funcionária cedinho. O calor era o único que tinha conseguido chegar até Jalé.

Normalmente, o acento de cor era a dos panos que as lavadeiras esfregavam no riacho, mas hoje não era um bom dia pra lavar roupa. Em qualquer outro lugar do mundo seria uma manhã cinzenta, mas nas estradas de São Tomé e Príncipe não importa o clima, a cor é sempre do verde das folhagens e do azul do uniforme das crianças andando na estrada gritando pra gente: “doce, doce, doce, branca!”

“Quem mostra bo es caminho longe?” Não é preciso ser fluente em criolo-cabo-verdiano pra entender que a música da Cesária Evora faz muito sentido. Eram só trinta e quatro quilometros, mas eu já dirigia há duas horas e meia e nada de chegar. Até que um perfume no ar me fez pensar “bem que poderia ser aqui”. E era.

Mulher colhendo ylang-ylang. Foto: Pierre-Yves Babelon via Shutterstock.

Chegamos a São João Angolares e o aroma vem dos pés de ylang-ylang plantados pela família da Olinda. Contei pra filha do dono da roça que no meu país Olinda é nome de cidade. Ela já sabia. Sempre fico surpresa pelo quanto os saotomenses sabem do Brasil. Supresa não, envergonhada, porque eu não sei nada do país deles.

 

Ansiosas, minha mãe e eu nos jogamos na mata com o Sr. José, o faz-tudo da fazenda que sempre viveu por lá. O suor escorria pelas costas antes de começarmos a caminhar. No meio da floresta fechada não dava pra ver o céu, mas os raios de sol descendo entre as folhas contavam que o clima estava abrindo. Somos duas doidas das plantas e estavamos mais doidas pelas histórias de José  que pela vegetação. Entre cacaueros e obós, ele contava que ali onde era a pousada até um tempo atrás era a casa grande e que sua mãe, trabalhadora da roça, nem chegava perto. Lá também era a casa do seu pai, um feitor português que foi expulso pra Europa quando o país virou independente, em 1975 e que nunca chegou a conhecer o filho. Tava explicada a cor de caramelo da sua pele.

Já estamos bem pra frente da trilha quando consegui calcular sua idade. É que número e aparência não batiam e ele parecia ter vivido muito mais. O tempo passa diferente em São Tomé. Nas ilhas se passam muitos anos em 360 dias e as horas demoram a correr.

Nenhum turista além da gente. Minha aventura é só o caminho diário de quem vive lá, gente que garante ali sua sobrevivência. Subiam moças com cestos ainda vazios. Meninos desciam a montanha levando galões de plástico com vinho de palma e fardos cheios de fruta-pão. Um senhor recolhia as cabras que comiam no mato. Ainda sobravam umas horas antes de voltar para a cidade e como não estávamos mais a fim de aventuras achamos melhor gasta-las num lugar já conhecido. Com a chuva dos últimos dias, o mato tinha crescido rápido e a paisagem já não era a mesma. Placas? Ah tá. Gps? Imagina. Que bom que meu senso de direção nunca falha. O acesso da estrada estava mais difícil e a lama e o riacho alto desafiavam o jipe próximo da aposentadoria.

Os troncos na areia deixavam claro que tinha chovido muito em Micondó, minha praia favorita. Lá não havia ninguém e nem as nuvens tinham chegado. O acesso era tão difícil entre a mata fechada e a estrada em ruínas que nossa sombra também tinha desistido de nos acompanhar. O barulho das ondas acompanhava a música da lenha estalando num resto de fogueira queimando na faixa de mata antes da areia.

Praia Micondo, em São Tome and Principe. Foto: alfotokunst via Shutterstock.

Depois de uma caminhada até as pedras, vimos um homem se aproximando. Ele usava camiseta vermelha, calças curtas e andava sobre pés descalços, como quase todos por lá. A luz refletiu no facão enorme que carregava. Por causa do reflexo do metal, meus olhos franziam e os da minha mãe arregalavam. Os dele? Os dele sorriam.

Na ansiedade típica de quem vive há tempo demais em São Paulo, minha mãe logo pegou um galho bem grande do chão, desses que tinha chegado pelas mãos do mar, crente que ia poder se defender de um possível ataque daquele enorme homem armado. Logo ela, aquela mulher pequinininha, que não conseguia nem carregar a própria mala. .

Na calma típica de quem vive há tempo demais num vilarejo, o cara andava devagar, serpenteando entre a pouca sombra embaixo das árvores. Minha mãe pergunta de longe: “cadê o menino que vende coco aqui?” Era só uma tentativa de mostrar que esse pedaço de mundo já era um pouco nosso. A gente nem queria coco. Bom, querer a gente  queria. Não tem nada que eu quisesse mais naquela hora do que água de coco mas saímos sem qualquer dobra, a moeda local. Afinal, não se costuma ter com o que gastar dinheiro por lá. O homem disse que o menino não estava e seguiu seu rumo.

O galho agora era um compasso na mão da minha mãe, que fazia círculos na areia que era só nossa de novo. Dei um mergulho, mas não deu tempo nem pros dedos enrugarem e minha pele já ardia por causa do sol. Sentei num tronco perto da fogueira, que agora era só um restinho de brasa, e não sei se estava distraída olhando pra uma casa laranja no alto do morro ou se o homem sabia como pisar na folhagem que cobria o chão sem fazer barulho, mas eu não tinha o escutado voltar. Sua camiseta tinha manchas de suor e nas mãos três cocos faziam companhia pro facão.

De perto dava pra ver que ele devia ter nascido bem depois que eu, mas o sol do centro da Terra tinha feito a idade passar mais rápido pra ele . Os braços torneados pelo esforço diário vieram na minha direção me oferecendo a fruta. Expliquei que não tinha como pagar, mas ele não recuou. Eu não entendia muito do que ele falava. O sotaque do sul da ilha, em que pouco se pronunciam as vogais, parece português de Portugal falado por um francês — é
outro idioma pra mim. O homem falava meio pra dentro, tímido, como que se não tivesse acostumado a falar com gente de fora. Fiquei sem graça, revirei minha bolsa, mas não achei nem uma moedinha. Minha mãe, agora com as bochechas queimadas e a guarda baixa, revirou suas coisas também. A gente procurava suando e a temperatura nem o abalava, tanto que o homem já usava seu facão pra cortar o coco de um jeito que eu nunca tinha visto, como um cantil para facilitar o beber já que canudo não chega por lá — essas soluções inteligentes pensadas quando não há recursos. Tentei impedir o moço, que a essa altura eu já sabia que se chamava Ricardo, mas ele terminou de cortar o primeiro e ainda abriu os outros dois.

Me deu um, o outro pra minha mãe, e deu um gole no terceiro antes de dizer: “a amizade não tem preço.”

Ricardo e os cocos em Micondo. Foto: Kathrin Lazo.

Ricardo e os cocos em Micondo. Foto: Kathrin Lazo.

Foto do destaque: floresta em São Tomé e Príncipe por BOULENGER Xavier via Shutterstock