Comida, Portugal, Viagem

Portugal Food Stories: embutidos e frutos do mar na divisa do Algarve com o Alentejo

Ruínas do palácio Mouro, em Silves.

Estou em Lisboa, vendo a vista por uma janelinha no quarto andar de um prediozinho na Alfama. Hoje foi meu último dia com o Portugal Food Stories. A tarefa agora é digerir tudo (literalmente) e fazer um esforço em cima das anotações e memórias para salvar o que foi mais legal. Em matéria de refeições, é difícil: a comida portuguesa pode não ser surpreendente para nós brasileiros, mas é fresca, deliciosa e muito farta. Passamos por bons restaurantes, alguns ótimos, incluindo um jantar gourmet no Convento do Espinheiro.

Mas o que o português come no almoço de sábado com a família?

Isso fomos descobrir na Adega Mourão, petiscando num canto do restaurante e fazendo amizades rápidas com os frequentadores. Era uma tarde quente, o restaurante estava lotado e nos arrumaram uma mesa minúscula entre duas ânforas gigantes que, depois soubemos, estavam cheias de uvas para fazer o vinho da casa.

O restaurante tem 25 anos, mas seus vinhos são feitos de forma caseira há dois séculos. Senhores portugueses cantando e a dona da cozinha reclamando das fotos se misturam aos embutidos de porco e queijos frescos do Alentejo. Mas o que eu lembro mesmo, é o licor de poejo, também feito no local. O poejo é uma planta aromática, quase uma menta, refrescante e amarga, que pode ser usada em xaropes e comidas. Minha nova amiga insistia que é digestivo. Quem vai duvidar?

A refeição seguinte, no Noelia e Jerônimo, foi totalmente diferente e uma das melhores. É um restaurante bem ajeitado na beira do mar de Cabanas, em Tavira. Lotado, tem fácil mais de uma hora de espera na noite de sábado. Fácil entender: Noelia usa ingredientes frescos da cozinha do Algarve e dá seu toque próprio com muita graça. Foi um prazer descobrir outros jeitos de preparar sabores que já conhecíamos, como o atum curado que parecia presunto cru, outro atum selado com azeite e ervas, o cozido de camarões vermelhos gigantes, E, claro, a primeira de muitas cataplanas, o cozido de peixes e frutos do mar com legumes, parente da peixada que comemos em toda a costa brasileira, que pode ser feito com cação e outros peixes de carne firme.

O tema frutos do mar continuou firme no dia seguinte, durante almoço na Marisqueira Rui, em Silves. Marisqueiras são restaurantes de peixes e frutos do mar e, como é de se imaginar, quando mais perto da costa, mais deles você encontra. No Rui fomos surpreendidos por pratos gigantes de frutos do mar absurdamente frescos – e era só o aperitivo.

Não descobri se isso é comum no Algarve ou se foi a ansiedade de nos fazer comer o máximo possível, mas em todos os restaurantes na área, depois da carne branca vinha a carne vermelha. Aqui foi vitela e lombo de porco. Pra terminar, uma porção de sobremesas regionais feitas com gemas, amêndoas, laranja. E a torta de alfarroba, uma planta com vagens que quando moídas ganham gosto parecido com um bom chocolate amargo. Ficou todo mundo querendo levar o ingrediente para casa. E ainda deu pra fazer digestão caminhando pelo castelo mouro acima da cidade com poucos turistas, espaços abertos e o vento batendo.

Arroz com frutos no mar no Café Correia.

Arroz com frutos no mar no Café Correia.

Acabou? Não. Na manhã seguinte dirigimos para a costa alentejana e paramos para almoço em Vila Nova de Milfontes, onde o Rio Mira encontra o oceano. O Porto das Barcas existe há quatro décadas, mas só está com Sofia e seu marido “há uns quatro anos ou três verões”. O restaurante fica lotado na temporada, mas para nós estava tranquilo a ponto de as cadeiras de praia na porta estarem livres. Há uma carta de vinhos extensa, com destaque pro Douro e pro Alentejo. Tudo usado no cardápio é regional e sazonal e Sofia, que é a chef, vem à mesa explicar.

As melhores azeitonas que comi em toda a viagem (o que é muita coisa, em se tratando de Portugal) mais arroz de mariscos e costeletas de cordeiro com alecrim e batatas. Destaque para a entrada: morcelas com abóboras, de novo, as melhores da viagem. Depois ainda deu pra curtir a lombra vendo a vista.

Estive em Portugal com o #PortugalFoodstories, um roteiro promovido pela APETECE, entidade que promove o patrimônio gastronômico de Portugal. Acompanhe os posts nessa tag e siga o mapa nesse link.