Comida, Portugal, Viagem

#PortugalFoodStories – game on!

Boteco da Linha, Estoril, Portugal

A maratona gastronômica promovida pela APTECE em Portugal começou na noite de ontem com uma sessão de petiscos (amo o jeito que os portugueses falam “petxiscox”) e sangria num boteco simpático em Estoril. Mas só hoje, com um dia inteiro de tour, é que deu pra notar a seriedade da coisa.

Acordei por volta das seis da manhã, sem espaço na barriga para mais que um singelo iogurte de morango. Mesmo assim, dezoito horas depois encontrava espaço para encarar um último pastel de nata antes de descansar, num hotel pequeno em Fátima (a cidade do milagre, quem é católico tá ligado).

Nossa manhã hoje começou com uma estrada congestionada como as dos arredores de São Paulo, em direção a Peniche, a cidade mais ocidental do continente europeu #informei. Essa cidadezinha portuária fica junto de um forte do século XVI, mas nosso programa não tinha nada de história: era pesca. Mesmo com um atraso de mais de duas horas, José Fernandes, 58, e Rui Colaço, 56, nos receberam no D’nor, um barco pequeno e simples (mas equipado com GPS e sonar). A idéia era nos ensinar a pescar. No sol forte e com total falta de jeito, consegui uma cavala e três sargos para o almoço, me virando com uma vara com manivela e as iscas de camarão e marisco.

Portugal, porto de Peniche

Calmaria no porto de Peniche, que fica colado na praia portuguesa do Supertubos.

A melhor parte do rolê foi conversar com os pescadores, que ganham a vida levando turistas para alto-mar na temporada e pescando para o mercado e restaurantes locais no restante do ano. José pesca há mais de 4 décadas. Tem dois filhos adultos, que moram e trabalham na Inglaterra. Vive da pesca, mas diz que vê os peixes diminuindo a cada ano. “O mar é minha vida, sempre foi. Mas em breve o mar parece que será só água”, disse melancolicamente fitando o azul profundo daquela parte do Atlântico. E sairia dali pra fazer outra coisa, passando os 60 anos? De jeito nenhum. Até porque ele crê que a crise do peixe pode ser revertida “se o governo ouvir quem sabe como o mar funciona” – os pescadores como eles, claro.

O marujo Rui e o capitão José.

O marujo Rui e o capitão José.

Depois de limpos pelo José, levamos os peixes num isopor para Arrouquelas, uma cidadezinha próxima, onde um chef premiado, Igor Martinho, demonstrou em seu pequeno e elegante restaurante, Maeluisa, como transformar nossa pesca numa caldeirada: com cebolas, tomates, pimentões, batata, vinho branco, azeito e louro, cozinhando em panela fechada por algo entre 20 minutos e meia-hora. Quem reconheceu da tradicional bacalhoada de Páscoa das famílias no Brasil, acertou. Mas a receita não tem nada de religiosa, era apenas uma forma rápida e fácil de preparar os peixes à bordo dos barcos de pesca em viagens longas, sem uma cozinha por perto.

Sem fome, até tentei convencer o grupo a dar um tempo no hotel antes de seguir para Caldas da Rainha, uma cidade do século XV com história peculiar. Mas a parada era para comer num restaurante/petiscaria chamado Casa Antero, fundado em 1957 e Patrícia (Domingues, representante da APTECE que nos acompanha) usou Porto Tônico, ou port & tonic, como chantagem. Funcionou, ainda bem. Sentados na sombra de uma ruela sem saída nessa cidade antiga num fim-de-tarde quente, tomamos taças enormes dessa mistura de vinho do porto (fica melhor com o branco seco), água tônica e suco de lima e limão.

Portugal, Port & Tonic

Portugal, Port & Tonic

Teve comida também, claro. Croquetes de espinafre, salada de anchovas com queijo e tomate, batata doce com cavala, prego (o sanduíche português de carne com pão), pedaços de bacalhau empanados e fritos em azeite, ovos de codorna. Pra mim esse é o melhor jeito de comer, e nessa parte de Portugal parece ser regra: repartindo de tudo pela mesa.

O melhor veio no final, uma pequena porção de queijos de cabra (bem amargo e picante), ovelha (dos Pirineus, leve e suave) e vaca (“da Ilha”, o que significa que vem dos Açores, bem amarelo e salgado).

Ah, sim, ainda comprei um pastel de nata pra trazer pro hotel. Nada mal.

Salada Pacha Portugal

Rúcula, tomates, queijo, nozes, anchovas, cogumelos: SIM!

Estou em Portugal com o #PortugalFoodstories, um roteiro promovido pela APETECE, entidade que promove o patrimônio gastronômico de Portugal. Acompanhe meus posts nessa tag e siga o mapa nesse link.