Livro, São Paulo

Sobre os Prédios de São Paulo

Black and white picture of old Banespa building in Sao Paulo, Brazil. Copyright: Dado Photos

Às vezes, a gente esquece de olhar pra cima. Andando com pressa, a gente olha pra frente, vai parando de perceber qualquer detalhe e acostumando com o que nossa cidade tem de bom ou ruim. E assim alguns dos belos prédios de São Paulo vão sumindo, indissociáveis da paisagem geral.

O processo de redefinir nossa cidade, tão forte na última década, inclui encontrar o que faz da metrópole um lugar mais bonito, ou pelo menos interessante, de viver. Essa redescoberta passa pela arquitetura, tópico onde está a cara, o estilo e a historia de uma cidade. Acontecimentos, modas, ondas de imigração, esperanças, derrotas: tudo pode ser lido em fachadas de prédios, nos traçados de bairros e na localização de viadutos. É onde a estética ensina história, engenharia e urbanismo. E em nenhuma parte da cidade a arquitetura é tão essencial quanto no Centro.

É o comportamento em relação ao chamado “Centro velho” de São Paulo que interessa ao ítalo-paulistano Matteo Gavazzi e o paranaense Octavio Pontedura, da imobiliária Refúgios Urbanos. A dupla é especialista em encontrar imóveis no Centro da capital, a partir de um escritório na Rua Benjamin Constant, pertinho da Catedral da Sé (mais central, impossível!).

A paixão dos dois pelo Centro pode ser conhecida nos dois volumes de “Prédios de São Paulo”, com imagens de Milena Leonel, Carolina Mossin e Emiliano Hagge, que registra alguns dos mais belos edifícios da cidade. O primeiro livro teve duas edições e o segundo está sendo lançado via Catarse. Já é possível comprar pelo site de financiamento coletivo nesse link.

No papo abaixo, que tivemos durante uma agradável caminhada pelo centro numa manhã qualquer em julho passado, Matteo e Octavio falam sobre a paixão por São Paulo e dão dicas do que ver. O passeio pelos lugares indicados vale para iniciantes e iniciados, e é melhor quando feito com o livro em mãos – porque interessados devem comprar direto na Refúgios Urbanos, uma ótima desculpa para conhecer o Centro.

Matteo Gavazzi e Otávio Pontedura: "Estamos no Centro porque acreditamos que esse é um lugar fantástico para trabalhar."

Matteo Gavazzi, designer, e Octavio Pontedura, engenheiro: “Estamos no Centro porque acreditamos que esse é um lugar fantástico para trabalhar.”

O que é a Refúgios Urbanos?

(Matteo) A Refúgios Urbanos é uma imobiliária. Procuramos refúgios especiais onde nossos clientes possam ter paz nessa Paulicéia caótica. Somos quatro corretores que escolheram fazer isso da vida. Apaixonados por São Paulo, buscamos as historias de cada imóvel e vamos além do conceito de venda de 3 dormitório, 2 banheiros, etc. Por exemplo: há algumas semanas recebemos o mandato para venda de um apartamento no Edifício São Luiz, o mais luxuoso da Praça da Republica. Imediatamente, compramos um livro que conta a história da avenida, com informações preciosas sobre o edifício. Conhecendo essas historias, conversamos pessoalmente com os proprietários e eles, entendendo nosso comprometimento, compartilharam conosco que tinham comprado o apartamento do Presidente João Goulart na década de 1950. Não somos a única imobiliária vendendo o apartamento, mas somos a única que correu atrás dessa história. A gente não vende preço, vende requinte, historias e qualidade de vida. (nota aos possíveis interessados: o apartamento já foi alugado). Eu não sou obcecado por imóveis antigos, mas acho que a cidade crescia de maneira mais gentil quando tinha 1 milhão de habitantes ao invés de 11 milhões.

Dá pra dizer que a Refúgios é parte da retomada do Centro de São Paulo? Vocês sentem que seu trabalho faz as pessoas verem o Centro de outra forma?

(Matteo) Somos uma empresa coerente. A gente não fica gritando aos quatro ventos que ama o Centro e depois monta escritório na Faria Lima. Estamos no Centro porque acreditamos que esse é um lugar fantástico para trabalhar. Quando fui visitar o que seria nosso futuro escritório, não tive duvidas. As porta em pinho de riga de 2.50 metros, o assoalho em tábuas corridas de peroba rosa, os detalhes em mármore, o ladrilho português e os estuques belgas falaram alto. Soube que era onde eu deveria instalar a empresa, e assim foi. Estamos aqui há três anos e estamos felizes. É uma gota no oceano, mas sinto que meu trabalho faz as pessoas verem o Centro de maneira diferente. Sinto isso nos meus clientes e parceiros que chegam aqui esperando um lugar feio e ruim mas ficam deslumbrados com nosso espaço. A motivação é fazer o que acredito justo. Pra mim, é justo viver o lugar que acho o mais bonito da cidade: o Centro. Aqui tenho tudo que preciso. Cartório, restaurantes, papelarias, escritórios, fóruns, etc, tudo a pé. Pra mim isso é fantástico, não tem preço. Além disso, trabalho a cerca de dois quilômetros de casa, venho a pé ou de bicicleta. O nosso escritório também está próximo dos bairros onde trabalhamos, que são Higienópolis, Jardins e o próprio Centro. Tudo acessível por transporte publico. Não induzi nada, mas nenhuma das seis pessoas que trabalham na Refúgios tem carro.

(Octavio) O fato de estarmos no Centro da cidade é um ponto de alguma surpresa para muitos de nossos clientes e pessoas com as quais entramos em contato. Isso sempre gera assunto, perguntas e colocações. Entendo que isso por si só pode sim fazer com que mais gente pense no Centro não como um lugar a ser evitado, mas um lugar para ser vivido, descoberto e experimentado. Aqueles que convidamos ou que vão à nosso escritório se dizem, invariavelmente, encantados e surpreendidos com o que encontram ali. Se somente uma destas pessoas disser a outras que encontrou um lugar bacana no Centro, já existe a reconsideração da região. A motivação, para mim, é a da coerência, como disse o Matteo acima, mas também a de entender que o discurso alinhado a ações reais tem força transformadora redobrada.

Qual seria o passeio ideal para converter um paulistano que nunca visitou o Centro?

(Matteo) Eu acho que se a pessoa for paulistana a primeira experiência deveria ser “a deriva”. Chegue em qualquer ponto do calçadão e vá se perdendo, entrando nos lugares (quase todos permitem a entrada). Acho que essa é a melhor maneira para descobrir de verdade a própria cidade, tendo a curiosidade como guia.  Mas um passeio pelo triângulo histórico mostrando as belezas que fizeram dessa uma grande cidade seria bacana. Mostraria a Catedral da Sé, a Casa Godinho (o comércio mais antigo de São Paulo, de 1888), o interior de alguns prédios para que mostrar sua riqueza e imponência. Contaria a historia do escritório Ramos de Azevedo para exemplificar a construção da cidade europeia em cima da cidade colonial. Creio que só assim dá pra compreender a fusão final com a cidade moderna e modernista. Nem todos tem clara essa sobreposição de três cidades que vivemos nos últimos 150 anos. Também vale a visita algumas bibliotecas, como a do Palácio de Justiça no Pateo do Collegio, uma das mais antigas da cidade com acesso livre ao publico. O Centro Cultural Banco do Brasil também é parada obrigatória, assim como comer um “sonho” na casa Mathilde que ocupa o antigo logradouro do Restaurante Fasano, ou uma caipirinha com picolé no Salve Jorge da Praça Antonio Prado. O Centro é cheio de coisas pra fazer. Não tem como não se converter. Só não gosta quem não conhece.

Detalhes da fachada do Sampaio Moreira, atualmente em reforma, acima da Casa Godinho: primeiro edifício e primeiro patrimônio imaterial da cidade. Foto: Milena Leonel e Prédios De São Paulo.

Detalhe da fachada do Sampaio Moreira, atualmente em reforma, acima da Casa Godinho. Foto: Milena Leonel e Prédios De São Paulo.

(Octavio) Concordo totalmente com a idéia da “deriva”, do caminhar sem rumo ou roteiro certo, atraído por um prédio, uma loja, uma rua, um monumento ou uma praça. O Centro é uma experiência mais gostosa quando o deixamos nos levar.  Muito importante é olhar para cima! Buscar os detalhes dos prédios, ver as belas portas, a tipografia nos nomes dos edifícios, as janelas, as cúpulas. Notar os estilos construtivos distintos. Para quem nunca foi ao Centro Velho, uma caminhada pelo “Triângulo” (formado pelas Ruas de São Bento, Direita e XV de Novembro) é um excelente começo. Uma passada na Igreja de São Bento, entrar no Pateo do Collegio e na Faculdade de Direito no Largo de São Francisco são paradas importantes. Para se surpreender de verdade, é entrar na Casa No 1, na Rua Roberto Simonsen e descer até o quintal aos fundos da casa, onde é possível experimentar um silêncio inesperado, em meio à árvores imensas, ver longe através do Vale do Tamanduateí e experimentar um pouco do que era viver na São Paulo colonial.  Saindo do Triângulo pela Praça do Patriarca, atravessar o Viaduto do Chá e almoçar no restaurante do Teatro Municipal. Mas, antes de chegar lá, dar uma pequena parada bem no meio do viaduto e olhar para ambos os lados do Vale do Anhangabaú: à direita o Viaduto de Santa Ifigênia, os prédios dos Correios, o Teatro Municipal, o Mirante do Vale, o CBI Esplanada e a lindíssima (e tristemente esquecida) Praça Ramos de Azevedo (abaixo); e à esquerda os edifícios Alexandre Mackenzie, Matarazzo, Planalto, Viadutos e Palacete Riachuelo ao redor da Praça da Bandeira (para mim, uma das perspectivas mais bonitas da cidade).

 

Praça Ramos De Azevedo por Alf Ribeiro via Shutterstock

A Praça Ramos De Azevedo, logo abaixo do Teatro Municipal no Vale do Anhangabaú. Foto de Alf Ribeiro via Shutterstock.

E os livros, como surgiram?

(Matteo) Com a página do Facebook onde eu contava minhas experiências nos prédios.  Os conhecia, pesquisava e ia contando as historias com base nas lindas fotos da Milena Leonel e do Emiliano Hagge, que abraçaram o projeto. Rapidamente entendi que esse assunto interessava a muita mais gente do que eu podia imaginar. A página tem apenas dois anos e tem mais de trinta mil seguidores. Em certo ponto, quando tínhamos mais de 100 prédios catalogados e um acervo de mais de 1000 fotos, surgiu a loucura de fazer desse material um livro contando cronologicamente a historia da arquitetura paulistana. Lançamos o primeiro financiamento coletivo e produzimos a primeira tiragem. Foi necessária uma segunda tiragem, pois muita gente continuava perguntando pelo livro. A segunda campanha foi um estouro e batemos a meta de em dois dias! Hoje temos quase 5.000 filhos no mundo. O que para uma galera independentemente baseada em financiamento coletivo e sem distribuidora, é um feito!

Livro Prédios De São Paulo, 1ª edição.

Ainda existem algumas unidades do primeiro volume. A compra é com a Refúgios Urbanos (escreva para nina@refugiosurbanos.com.br e matteo@refugiosurbanos.com.br). ”A retirada do livro é feita no nosso escritório. Uma ótima desculpa pra conhecer o Centro,” conta Matteo.

Vale ressaltar o grande carinho que a editora GAPS teve no projeto, fornecendo um produto de primeira qualidade, seja como diagramação que como escolha do formato, papel, capa dura. Todas escolhas muito felizes que tornaram o livro em pouco tempo um volume obrigatório para quem gosta da cidade e quer saber mais sobre sua historia e arquitetura.

Existe um livro de casas também nos planos? Pode contar um pouco como ele é e quando sai?

(Matteo) Estamos preparando esse livro também. É um trabalho mais complexo, mas já encaminhado, que vamos lançar no primeiro semestre de 2017. A ideia e bem parecida com a dos prédios, mas uma diferença importante é o envolvimento dos proprietários com esses imóveis. Os proprietários são quem os encomendou, ou parentes, ou grandes amantes de determinado arquiteto e por isso compraram a residência em questão. Isso é muito bacana, pois mostra um lado humano dos imóveis que nos prédios fica diluído, por serem de proprietários que nem sempre estão interessados em suas histórias. Dá para conhecer as casas que estamos escolhendo em casasdesaopaulo.com.

Casa Número 1, Casas de São Paulo

Arquitetura e memória: a Casa Número 1, com origem no século 17, é uma das casas do livro. Saiba mais aqui.

Se pudessem escolher um local, monumento ou edifício para restaurar, qual seria?

(Matteo) Se fosse o coração a falar, responderia o Largo da Memória, mas ele seria pichado de novo no dia seguinte. Então escolheria um edifício, o Edifício Trussardi, do Rino Levi, na Avenida São João. Ele é a capa do primeiro livro, é lindíssimo e gostaria de vê-lo bem cuidado.

(Octavio) Tem tantos que precisam de ajuda, é difícil escolher. Mas vou ficar com o Largo da Memória também. Foi o primeiro monumento da cidade, erguido com finalidade puramente decorativa em 1814, marcando quando São Paulo deixa de ser um ponto de pouso e apoio nos caminhos para o “sertão” para ser um lugar para se viver de fato, pois não se embeleza o que não tem importância.  Além disso, é um dos pouquíssimos exemplares de construção ou estrutura verdadeiramente colonial da região central.  Sendo totalmente delirante, traria de volta para o Centro o Monumento à Ramos de Azevedo, inicialmente instalado na Avenida Tiradentes, em frente à Pinacoteca e hoje no Campus da USP no Butantã. Ele é lindo, imenso e homenageia aquele que transformou a feição da cidade colonial, o primeiro grande nome da arquitetura paulista, que abriu o caminho para a cidade moderna e cosmopolita de hoje. O colocaria no meio do Vale do Anhangabaú, ou na Praça Clóvis Beviláqua, talvez na Praça da República. Delírios à parte, traria de volta à sua beleza original o Edifício Rolim, da Praça da Sé (foto abaixo). Ele é pequeno, singelo, tem uma beleza sutil e foi um dos primeiros prédios pelo qual me apaixonei quando vim para São Paulo.

A São Paulo que você vê quando olha pra cima: Edifício Rolim, na Praça da Sé

A São Paulo que você vê quando olha pra cima: Edifício Rolim, na Praça da Sé. Foto: Milena Leonel.

Enfim: qual o lugar preferido de cada um no Centro?

(Matteo) Sem ser careta, meu lugar preferido é o nosso escritório. Ele é extremamente silencioso, tem elementos bacanas e me sinto em casa aqui. É meu refúgio pra trabalhar.

(Octavio) O meu, entre muitos outros é o Centro Cultural Banco do Brasil. O prédio é maravilhoso, tem café com mesas na rua para ver a cidade acontecer, uma loja de artes bem bacana e sempre oferece exposições e eventos de alto nível. Toda a visita a ele é uma experiência nova.

Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, Alf Ribeiro / Shutterstock.com

Centro Cultural Banco do Brasil é um dos lugares que mantém o Centro vivo de noite e aos finais de semana. Foto: Alf Ribeiro via Shutterstock.com

Para saber mais

http://www.refugiosurbanos.com.br
http://www.facebook.com/refugiosurbanos
https://www.instagram.com/refugios_urbanos/

* Foto do destaque: Edifício Banespa por Dado Photos via Shutterstock.