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Vila Nova de Gaia: por dentro da Real Companhia Velha

Real Companhia Velha, Portugal

O vinho fortificado sinônimo da cidade do Porto não é fabricado exatamente lá. Mas quase. É em Vila Nova de Gaia que estão as casas de vinho do Porto. E é bem pertinho, praticamente junto: para ir de uma cidade à outra basta atravessar a ponte sobre o Rio Douro.

Feito com uvas do douro, o Vinho do Porto é tão português quando uma receita de pastel de nata ou as louças Bordallo Pinheiro e é a maior exportação do país junto com cortiça e azeite. Grande parte das garrafas de vinho do Porto vai para a Inglaterra e vem para o Brasil.

O jeito tradicional de tomar vinho fortificado é como aperitivo ou após a refeição, junto de queijos e frutas secas. Por ser licoroso e constantemente complexo no sabor, não é um vinho para acompanhar refeição. O site da Taylor’s, uma das casas de vinho de Vila Nova de Gaia fundada no século 17, tem uma boa lista de hamonização por tipo de vinho. Sim, porque vinho do Porto tem tipos distintos: pode ser ruby, tawny ou dry white. E para tirar a cara de bebida de avô que o vinho do Porto tem, as casas de Vila Nova de Gaia começaram a criar novas receitas, como o refrescante Chip & Tonic que mostrei nesse post

História

A história do Port wine justifica os nomes em inglês. A exploração do vinho produzido na cidade do Porto foi o benefício oferecido pelo reino de Portugal para a Inglaterra como pagamento pelo suporte dos ingleses quando Napoleão ameaçou invadir o país (que também resultou na vinda da família real portuguesa para o Brasil,). A relação comercial entre França, Inglaterra e Portugal é o cerne da história do vinho do Porto. Foi o bloqueio dos portos franceses pela armada britânica no começo do século XVIII que interrompeu o comércio de vinho pelo Canal da Mancha. “Em resposta, os ingleses se voltaram aos seus aliados portugueses, e começaram a comprar grandes quantidades do vinho produzido com uvas do vale do Rio Douro, fortificando-o com brandy para aumentar o teor alcoólico e impedir que o produto estragasse nos barris”, explica Simon Manjudar em reportagem pro Guardian. O resultado é o vinho fortificado mais consumido do mundo.

Comerciantes estrangeiros à parte, o fator mais importante para estabelecer o vinho do Porto é totalmente português: a Real Companhia Velha, fundada em 1756 pelo Marquês de Pombal. A companhia, originalmente chamada Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro, visava “sustentar a cultura das vinhas, conservar a produção delas na sua pureza natural, em beneficio da Lavoura, do Comércio e da Saúde Pública” e demarcou o Douro como região vinícola – foi a primeira do mundo a receber esse tipo de certificação de origem. As medidas incluíram isenção de impostos para os produtores portugueses, para melhor aproveitar a enorme procura do vinho do Porto no mercado britânico e, depois, russo. A timeline da Real Companhia Velha conta a história em detalhes.

 

Por dentro das caves da real Companhia Velha

Mesmo que a Real Companhia Velha não seja nem a mais antiga e nem a melhor produtora de vinho do Porto, é certamente a mais importante historicamente. Assim como as outras casas de vinho em Vila Nova de Gaia, a Real Companhia Velha faz tours para contar sua história – e vender algumas garrafas no final, após uma generosa degustação). Ah, e não, infelizmente meu nome não tem nada a ver com o lugar, o que não impediu que eu ganhasse sorrisos simpáticos a cada apresentação.