Prosa, Viagem

O insone e outros passageiros de red eye flights

Red eye flights são “voos de olhos vermelhos”. Não tem tradução ideal pro português, mas dá pra entender: é o nosso corujão, voos que começam de noite e terminam depois do café da manhã. Viagens sofridas, em que todo mundo que não está na primeira classe aterrissa com cheiro de suor, cabelo desarrumado e péssimo humor.

Detesto voar em corujão. Remédios para dormir não resolvem e acabo num estado confuso de sonolência agitada. Muito melhor viajar de dia! É desculpa para passar horas fazendo coisas agradáveis como ler, escrever, beber vinho e ver seriados na telinha do avião sem interrupções. Chegando onde preciso chegar, me instalo, tomo banho, faço uma refeição, durmo e acorda pronta para fazer o que tenho que fazer no dia seguinte. Muito mais elegante.

Mas voo diurno para qualquer destino internacional, saindo do Brasil, é raro. Os voos longos normalmente partem depois das nove da noite e seguem tediosos, fedidos e irritantes, madrugada adentro. E vamos em frente, os insones e os outros personagens dos red eye flights.

O básico – A maioria das pessoas consegue dormir durante o voo. Fazem isso se apoiando nas paredes (note: gostam de viajar na janelinha) ou caindo a cabeça gentilmente para um lado ou outro. São consumidores daqueles travesseiros molinhos e coloridos em formato de U. Quando as poltronas começaram a vir com aqueles encostos modulares para a cabeça achei que os tais travesseiros cairiam em desuso. Mas não, cada vez mais viajantes viajam com travesseiros coloridos para manter os pescoços no lugar. O dono dessa patente deve ser milionário.

O tombado – Aquela pessoa que cai pra frente. Normalmente dorme mal: a coluna cansa, a pessoa acorda, rearma, dorme e tomba pra frente de novo. Uma tristeza. Mas a solução existe na forma de uma almofada inflável, triangular e enorme, que encaixa entre você e o banco da frente, apoiada na mesinha. Imagino que só pode ser usada por quem vai na janela.

Causando inveja nos colegas.

Pro alto e avante – Você sabe, a pessoa que ronca alto. É quem dorme com cabeça jogada para trás e com a boca aberta, normalmente ao seu lado. É ruim para o sistema respiratório de quem ronca e pior para a sanidade mental de todo mundo em volta.

Crianças – Ah, que inveja… Elas deitam em cima das pessoas, da bagagem, do cobertor, da comida. Não ouvem ninguém roncando, não precisam de almofadas especiais. Dormem como se no conforto do lar, sem culpa, muitas vezes usando uma fileira inteira de poltronas. Bebês são outra história. Bebês deveriam ser poupados da experiência pentelha que é um voo longo, a não ser em casos extremos. Acredite, aqueles pais estão sofrendo mais que você.

O/a ninja – Os profissionais! Você já deve ter visto algum. Eu fico totalmente fascinada/invejosa. São aqueles seres ágeis, capazes de sumir debaixo do cobertor do avião, com ou sem travesseiro. Invisíveis, não acordam para fazer xixi nem encararam o café aguado da manhã. Passam o voo inteiro dentro de sua cabana particular, de onde só saem quando o comandante gloriosamente comunica o início do procedimento de descida pelos falantes. É tipo um poder especial. É foda.

O insone – Muito prazer, meu nome é Gaía. Não tenho insônia normalmente desde que parei de tomar café após as três da tarde. Mas não sei dormir em avião. Represento uma categoria expressiva dos viajantes. Nós sofremos. Precisamos de voos diurnos. Há insones que se distraem com longas sessões de Candy Crush. Outros aproveitam para colocar em dia a leitura da série A Song of Ice and Fire. Encaram maratonas de seriados bobocas. Ficam por dentro do universo do cinema popular asiático. Acumulam irritação, sofrimento e desconforto noite adentro, aceitando o café da manhã na bandejinha mais como distração do que por fome. Invariavelmente chegam ao destino em estado deplorável.

Imagino que essa lista não faz sentido na classe superior, onde pessoas elegantes dormem em pequenas camas sob cobertores felpudos, depois de beber vinho em taças de verdade, sonhando com massagens confortáveis em destinos exóticos.

Suspiros.

Eu chego lá.