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Review: Random Access Memories para MTV Brasil

Apenas quatro veículos brasileiros ouviram o novo disco do Daft Punk antes do lançamento. A MTV Brasil foi um deles.

Daft Punk RAM

 

FAIXA A FAIXA: RANDOM ACCESS MEMORIES, O NOVO DAFT PUNK

Postado Gaia Passarelli // Daft PunkPharrell WilliamsGiorgio Moroderalgumnile rodgers

O álbum de uma dupla escondida atrás de capacetes brilhantes é o lançamento mais importante de 2013. Random Access Memories, quarto álbum de estúdio do Daft Punk, que no próximo dia 13/maio ganha streaming legal e em 21/maio estará nas lojas, passou na frente dos álbuns de David Bowie e Justin Timberlake.

Muita gente quer saber se o disco sobreviverá ao tamanho da expectativa. Eu acho que sim. Mas Random Access Memories não é um disco fácil. É ousado, lento e pessoal. É um álbum arriscado, que deve fazer mais sucesso entre crítica do que entre público. ‘Orgânico’ foi um termo bastante usado, mas ‘humano’, descontadas as ironias robóticas, é mais acertado.

Os grandes momentos são a extensa homenagem ao compositor Giorgio Moroder (‘Giorgio by Moroder’), a segunda colaboração com Pharrell Williams e Nile Rodgers (‘Loose Yourself to Dance) e a radiofônica parceria com o produtor Todd Edwards (‘Fragments of Time’). Além do já conhecido primeiro single, ‘Get Lucky’.

Brilham também a abertura (e segundo single) ‘Give Life Back to Music’, com guitarra de Rodgers, o encerramento épico com o DJ Falco, ‘Contact’, e ‘Instant Crush’, faixa cantada por Julian Casablancas.

 

Sala de controle

A audição de Random Access Memories tem um clima quase vintage, descontada a tecnologia envolvida.

Ela aconteceu na terça-feira na sede da Sony Music em São Paulo, numa sala fechada, depois de assinar um termo de responsabilidade. A única cópia do disco no Brasil está dentro de um player Denon F-4000, ligado apenas ao fone de ouvido. Ouvir, só depois de assinar um termo de responsabilidade.

A situação visa evitar o leak precoce do disco, claro. Mas também faz parte da estratégia de remeter o lançamento à uma época em que artistas e gravadoras tinham muito mais controle sobre sua obra e produto. O controle que o Daft Punk exerce funciona.

O público nos últimos dois meses uma sequência de eventos que incluiu curtos vídeos no aplicativo Vine e um teasers de quinze segundos, rapidamente loopados e transformados em versões, edits e hoaxes. Quando o primeiro single, ‘Get Lucky’, finalmente saiu, estava ganho. As manobras foram inteligentes e garantem o sucesso do álbum, independente de números.

Gravado em cinco estúdios diferentes entre Paris, California e Nova Iorque, com musicos de estúdio contratados da estirpe de John JR Robinson (que tocou com Michael Jackson em Off The Wall, entre outras coisas notáveis), Random Access Memories soa como se tivesse custado milhões de dólares – e provavelmente custou.

Faixa a Faixa

1. Give Life Back to Music
com Nile Rodgers (guitarra)
A guitarra de Nile Rodgers é inconfundível e está em quatro das faixas do álbum. Aqui ele acerta no tom melancólico enquanto o tradicional vocoder do Daft Punk pede para trazer a vida de volta à música.

2. The Game of Love 
A primeira de quatro baladas do álbum. O destaque aqui é a tristeza do robô-vocalista. “Nessa era onde vozes humanas são tratadas para ficar robóticas, achamos empolgante o fato de que você pode fazer o oposto e dar à uma voz robótica a voz mais humana possível,” explicou a dupla em entrevista para uma revista francesa.

3. Giorgio by Moroder
com Giorgio Moroder (voz)
Essa homenagem ao produtor musical Giorgio Moroder, papa da disco music, foi feita a partir de um papo de três horas com a dupla em que Moroder relembra sua relação com musica. Ao final da declaração do mestre, a faixa lembra The Chase [http://www.youtube.com/watch?v=Akyx5iu_z8Y] e se torna um épico com quase dez minutos, passeando por sonoridades variadas. Clássicoimediato.

4. Within
com Gonzalez (piano)
Mais drama em faixa piegas e primorosa. O piano de Gonzales dá espaço para uma letra triste (“I am lost, I can’t even remember my name / please, tell me who I am”) que ilustra tanto uma angústia adolescente quanto o estado da música pop.

5. Instant Crush
com Julian Casablancas (voz)
Quem ouviu o disco solo de Casablancas e a aventura synth-pop do último disco dos Strokes vai reconhecer na hora a influência. O vocalista está em casa nessa que é uma das faixas bonitas do álbum.

6. Lose Yourself to Dance
com Pharrell Williams (voz), Nile Rodgers (guitarra)
Momento totalmente disco com acertadas participações de Williams e Rodgers. É assim que eu imagino que era o [lendário club disco de Nova Iorque] Paradise Garage. Tem vocoders e crescendos e em alguns momentos lembra as orquestrações sintética de Discovery.

7. Touch
com Paul Williams (voz)
O colaborador-vocalista aqui é ganhador de Oscar: Paul Williams é um compositor de trilhas-sonoras que tem no currícilo musicas dos Muppets. A canção é mais uma das baladas que impedem o disco de decolar e dão dica de que Random Access Memories vai ficar melhor no som do carro do que da pista de dança – o que talvez seja exatamente a intenção do Daft Punk. Mas aqui os vocais piegas caminham para uma faixa de disco e progressiva, glamurosa e saudosista, com sopros e cordas que justificam a escolha do convidado estrelado.

8. Get Lucky
com Pharrell Williams (voz), Nile Rodgers (guitarra)
A única faixa conhecida até o lançamento é também o momento mais irresistível do disco.

9. Beyond
Mais orquestra, mais vocoders. É uma faixa de transição, elegante.

10. Motherboard
Talvez a mais humana do disco, com título que alude à ‘mãe Terra’. É uma experiência ambient, bem anos 90, que viaja na sonoridade hippie do Future Sound of London e no breakbeat do começo do Chemical Brothers.

11. Fragments of Time
com Todd Edwards (voz)
O produtor musical Todd Edwards canta pop de FM with a twitst. Acelerada pra metade pra frente, tem um longo (e quase engraçado) solo de sintetizador.

12. Doing it Right
com Noah Lennox/Panda Bear (voz)
Poderia estar num disco do Animal Collective? Não, e assim que a batida seca característica do Daft Punk entra, você entende o motivo. Mas os vocais de Noah Lennox estão bem perto das melodias infantis da banda indie e a faixa, que lembra Beach Boys, termina perdida em meio às tantas homenagens que o Daft Punk propõe no disco.

13. Contact
com DJ Falcon
O audio da missão Apolo 17 traz um astronauta no espaço olhando para a Terra. É um bom e épico encerramento de disco, que remete à pirâmide de luz da tour de Human After All, ‘Robot Rock’, eletrônica maximalista e outros exageros pelos quais o Daft Punk ficou conhecido. Tudo isso e um excelente loop de bateria que não seria possível em máquina alguma.