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Road trip na Highway 101: fugindo do alce em Prairie Creek

“Cuidado, ele vai te alcançar!”

Foi a última coisa que ouvi antes de cair de peito no chão. O instinto me fez proteger a cabeça com os braços, mas a pancada não veio. Assim que deixei de parecer ameaça, o alce voltou a atenção para Luca, o outro humano naquele trecho de campina, que de alguma forma conseguiu me alcançar, levantar e levar até a beira da mata onde, agachados, nos escondemos atrás de um arbusto. Tudo levou uns dez segundos, se muito. Estávamos num lugar tão errado que se o guarda-parque aparecesse ele daria uma multa antes de oferecer socorro.

“Achei que ia morrer. Juro.”
“Bom, você que insistiu para ver os alces.”
“Você me salvou. Obrigada.”
“Relaxa, ele só quer que a gente saia daqui.”
“O rebanho está vindo pra cá. A moita não vai nos proteger por muito tempo. E o sol está se pondo.”
“Fica aqui. Vou achar um caminho e volto pra te pegar.”
“PELAMORDEDEUSNAOMEDEIXASOZINHACOMOALCE.”

Você também não ia querer ficar perto desse bicho.

Você também não ia querer ficar.

“Hey. Calma. Tá tudo bem. Eu preciso olhar o caminho pra gente sair.”
“Ainda bem que você está aqui. Se ele tivesse me acertado eu agora estaria toda arrebentada, esperando os coiotes.”
“Pára de pensar nisso. Você não estaria aqui sozinha.”

Luca me olhou com uma mistura de pena e vontade de rir. Chegar perto de uma manada de alces é o tipo de coisa que eu, dada a chance, vou querer fazer. Sozinha ou não.

É fácil esquecer que parte dos Estados Unidos ainda é meio selvagem. Duas noites antes, dormindo num quarto alugado em Larkspur, na Baía de São Francisco, ouvimos uivos nas montanhas. A dona da casa contou que todo fim de tarde ela guarda os dois gatos e o cachorro na garagem, por causa dos coiotes. E também fecha o portão, por causa dos cervos que entram e comem o jardim. Isso numa cidade há vinte minutos de São Francisco.

Já na noite passada, o que nos manteve acordados foi o insistente latido das focas e leões marinhos, quase na divisa do Oregon. Esses bichos, e também ursos, águias, baleias orca, tubarões e as árvores mais altas do mundo estão no norte da California, na Pacific North Coast, uma das regiões mais bonitas de um país de natureza muito generosa.

Saímos de Larkspur numa tarde de domingo especialmente abafada, com a ideia de dirigir até onde desse. Acabamos indo até Crescent City, na divisa da California com o Oregon. Não porque houvesse algo especial para ver em Crescent City, mas porque a descrição do Curly Redwood Lodge Inn no guia era boa demais: “se você quer um lugar moderno, procure outro hotel”.

O recepcionista entregou a chave de metal dizendo “você lembra como isso funciona?” Um exagero, claro. Mas tirando a máquina de refrigerantes no corredor, tudo parecia parado em 1960, incluindo o uniforme azul com avental branco da moça do room service, as garrafas térmicas de café na recepção e a mobília do quarto.

Curly Redwood. Foto: Gianluca Marcato.

Curly Redwood Lodge. Foto: Gianluca Marcato.

Crescent City já foi destruída por tsunamis pelo menos duas vezes: depois do terremoto de 1964 em Anchorage, Alaska, e após o terremoto de 2010 no Japão. Nessa última ocasião, a cidade foi evacuada rapidamente e os danos foram apenas materiais, mas nos anos 60 a cidade não teve a mesma sorte.

Apesar de ser a sede do Redwood National Park System, fora a cafeteria Good Harvest e o tal hotel, Crescent City não nos ofereceu nada especial. É uma cidade costeira com neons de motéis baratos na beira da rodovia e uma imponente montanha coberta por pinheiros ao fundo. A costa é bonita de um jeito desolado, e os tsunami são lembrados em avisos de evacuação e placas históricas em exibição permanente no passeio que une os dois faróis da cidade. Faróis que só vimos de longe, porque o primeiro, Battery Point, estava bloqueado pela maré alta, e o segundo exigia uma caminhada longa demais. Das focas, só ouvimos os latidos. Mas vimos um tubarão morto na praia, servindo de refeição para gaivotas.

Tubarão RIP. Foto: Gianluca Marcato.

Expulsos pela maré e monotonia, pegamos o carro sentido sul com planos de ver as florestas de sequóias e parar em todas as armadilhas para turistas entre a Highway 101 e Eureka, que seria nossa próxima parada. Uma forma de apreciar o sublime e o bizarro desse trecho da Califórnia.

Sublime é a melhor palavra para descrever a visão das florestas de sequóias, as árvores mais altas do mundo. Algumas têm dois, três mil anos de vida. São protegidas por lei, mas nem é preciso entrar nos parques para procurar. As redwoods estão ao lado de casas simples, em paradas de café e na beira de estradas como a Avenue of the Giants, uma secundária da 101. Além das redwoods, o circuito de parques protege várias espécies de abetos e pinheiros, e mais centenas de animais, como o urso negro, que é menor que o urso marrom da bandeira da Califórnia (já extinto) e não raro entra em acampamentos humanos buscando restos de comida. Outra espécie protegida pelo parque é o tule elk, o alce da Califórnia, que é menor que o alce gigante do Alaska ou Canadá, mas que assusta pelo tamanho mesmo assim.

Bizarro descreve essa estética que mistura índios, totens com cabeça de animais, lenhadores gigantes e o Pé Grande, figuras comuns em todas as lojas, cafés e letreiros. Pra mim, é totalmente exótico.

Paul Bunyan e Babe dão as boas vindas ao Trees of Mistery

Paul Bunyan e Babe, the Blue Ox dão as boas-vindas no Trees of Mistery.

Trees of Mistery, por exemplo, mistura de shopping center com parque de diversões de tema montanhês. Alguém construiu duas estátuas descomunais na entrada (a do Paul Bunyan tem um microfone dando intermináveis boas vindas aos visitantes) e um teleférico para levar todo mundo (cachorros são bem-vindos) até o topo da montanha. O complexo ainda tem um museu de arte indígena gratuito, bem bonito e interessante (caso você passe por lá, fica no fundo da loja), pantufas com garras do Pé Grande, mais snow globes e imãs de geladeira do que parece possível e um monte daquelas máquinas de esmagar nickels para fazer souvenir por U$0,50.

Descendo na direção de Eureka, passamos por Confusion Hill, “lar do tímido chipalope“. Depois passamos por uma loja vendendo mudas de sequóias para gente com planos a longuíssimo prazo. Também vimos uma casa tubular construída dentro de um único tronco de árvore, a One Log House. Fica ao lado da mesma Grandfather Tree que John Steinbeck encontrou em seu Travels With Charley.

Totel na beira da Highway 101.

Totem na beira da Highway 101.

Estávamos dentro do Prairie Creek, um dos muitos parques que fazem parte do complexo Redwoods National and State Parks no norte da Califórnia. Chegamos até ali dirigindo pela linda (e curta) scenic parkway Newtonw B Drury, outra escapada da 101, na altura de Orick. As sequóias formam alamedas na beira da estrada, que fica cheia de carros e gente que pára para explorar as trilhas bem mercadas que vão floresta dentro. O cenário é lindo: troncos enormes de madeira vermelha e textura macia, um mundo de folhas verdes, samambaias gigantes, riachos gelados, a ocasional pequena ponte de madeira. De vez em quando você até vê alguém no caminho, mas no geral a sensação é de solidão total. Não há sequer mosquitos. O silêncio é imenso, mesmo que estando perto da estrada.

O jipe está logo atrás da árvore e está na foto por motivos de escala.

Não dá pra fotografar. O jipe está logo atrás da árvore e ficou na foto por motivos de escala.

“Se vocês querem algo diferente das sequóias, tentem o Fern Canyon. Mas não fiquem na praia de noite!” Fern é a palavra norte-americana para samambaia, e o cânion é exatamente isso: dois paredões de rocha com vinte metros de altura cobertos por samambaias de fazer inveja a qualquer jardim vertical de paulistano rico. Acima dos penhascos estão as florestas de sequóias e abaixo, longas faixas de areia branca, com muito vento e a água gelada do mar. O tipo de praia que você vê no noticiário quando encalha baleia. A dica veio de uma entusiasmada guarda-parque, e fomos ver.

Perto do Fern Canyon, entre a praia e a montanha, tem pequeno um trecho de campina. Não é exatamente uma área selvagem, tem estacionamento, mesas e bancos de madeira para piqueniques. Fomos até lá tirar fotos e, na volta, um grupo de alces atravessava a campina. Os avisos para ficar longe  (“alces são animais selvagens, mantenha distância”) são onipresentes, mas a maior parte dessas criaturas enormes não tem galhada e não faz mais do que comer grama e olhar a paisagem. É tão fácil chegar perto, que parece normal.

Mas para o alce com galhos pontudos de metro e meio na cabeça, não tem nada de normal. É o alce rei, o alce alfa, o alce chefe. Um animal musculoso, com porte de pai do Bambi e olhar de poucos camaradas. O mesmo tule elk que tinha corrido atrás de mim e esperava eu sair de trás da moita. A manada passava devagar, a moita parecia menor a cada minuto e o alce não só não arredava o pé, como vinha cada vez mais perto.

Luca reapareceu. Trilha mesmo não tinha, mas era melhor sair dali antes do chefe alce perder a paciência. Ao invés de sair de trás da moita, fomos para dentro da mata, na direção da montanha, sabendo que antes dela estaria a estrada. Atravessar o trecho curto de mata fechada, com arbustos da minha altura e o alce na nossa cola, levou uma meia-hora. Quase dava pra escutar ele rindo alto, “isso aí parça, vaza mesmo!”

Quando chegamos no estacionamento onde só sobrou nosso carro, com as roupas cheias de espinhos e uma coleção de arranhões, minhas mãos ainda tremiam. Correr do alce na campina foi o momento mais mocinha indefesa da minha vida. Eu, uma mulher que pariu normal sem anestesia, que pegou trem sozinha na Índia, que tem metade do corpo tatuado, não faço a menor idéia de como lidar com um animal selvagem. Em algum lugar, Hemingway está desapontado.

No caminho de volta para a 101 passamos por outra campina, onde uma manada de alces pastando tranquilamente no pôr do sol fazia a alegria dos turistas.

“Quer tirar umas fotos?”
“Não. Só quero uma cerveja.”
Ele riu. Eu fui quieta o todo o caminho até Eureka.

Sequoia sempervirens, aka redwoods. Foto: Gianluca Marcato.

Sequoia sempervirens, aka redwoods. Foto: Gianluca Marcato.

PS: Comi uma das minhas coisas preferidas no mundo, hamburger de salmão, no restaurante de beira de estrada que, dizem,serve o melhor hamburger de salmão da Highway 101. Custou só U$6 e estava foda de bom, por isso o link ;)

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