Música, Prosa

Sair de casa para ouvir um disco

 

Todos os dias a timeline tem algum link de matéria sobre ‘a volta do vinil’. Semana passada um grande jornal carioca publicou mais uma matéria sobre o aumento das vendas. Hoje um amigo apareceu mostrando sua coleção pra uma revista. Na televisão brasileira há pelo menos dois programas dedicados ao assunto, ambos ótimos: O Som do Vinil, no Canal Brasil e Minha Loja de Discos, no BIS.

Talvez por que descrever a experiência de escutar raramente seja tarefa simples, pouco se fala sobre o que é realmente envolvente no disco de vinil: a simplicidade de ouvi-lo.  O escritor inglês Nick Horby, autor de Alta Fidelidade, clássico literário clichê do homem-enquanto-colecionador-maníaco, resumiu bem em entrevista à Folha de São Paulo há alguns dias:

hornyfsp

 

É claro que você pode fazer o mesmo abrindo o Spotify no seu iPhone/similar ligado num aparelho de som. A disponibilidade de discos disponíveis gratuita/legalmente para streaming hoje é maior do que qualquer coleção do mundo e, como a maior parte das pessoas, eu também não ouço diferença entre o som do vinil e de outras mídias – a não ser MP3 em baixa qualidade de compressão, mas isso apenas prova que não sou surda.

Acontece que o disco de vinil tem peso. Emocional e as vezes financeiro: você escolheu, pagou, carregou debaixo do braço pra casa. Quem sabe ganhou de um amigo, roubou da esquecida coleção da mãe, esqueceu propositalmente de devolver para aquele ex-amor da vida.

Uma coleção de CDs é meio a mesma coisa. Mas o que o CD tem de prático, o vinil tem de charmoso. Para a indústria musical, o CD é um formato que ficou no meio do caminho entre o vinil e o MP3. Para o colecionador, ele se presta à caixas comemorativas e reedições. Para o audiófilo, é motivo de intermináveis discussões sobre qual soa melhor saindo das caixas. Para o consumidor comum, o CD é um enigma: quem é que aprovou que os CDs fossem vendidos naquelas imprestáveis caixinhas plásticas que estão sempre quebrando?!

Numa época em que bens culturais são acessórios compactos que precisam de troca e manutenção numa base anual, discos são a manifestação física e eterna da sua personalidade. Sua coleção é sua memória traduzida para algo palpável. E, diferente da coleção de livros, a de discos faz sentido numa ocasião social. Música é uma coisa gregária: você coloca para tocar, as pessoas ficam em volta.

Ficar em volta do disco e ouvi-lo do começo ao fim é exatamente o que acontece no Classic Album Sundays, evento que começou em Londres e tem filial em Nova Iorque. A idéia é simples: uma vez por mês um disco é celebrado em audição para um grupo de pessoas. Só em setembro o CAS vai apresentar Iron Maiden e Cocteau Twins. Já teve New Order, Beatles, De La Soul, Kate Bush. E David Bowie: dentro da programação especial da Red Bull Music Academy 2013 em Nova Iorque, apresentou três álbuns clássicos da discografia Bowieana (The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, “Heroes”, Let’s Dance] com a presença dos produtores musicais responsáveis [Ken Scott, Tony Visconti, Nile Rodgers].

É algo que qualquer um pode/deve fazer em casa, tendo vitrola, disco e um canto pros amigos sentarem. O que torna o CAS especial é o sistema de som de alta fidelidade, um ambiente largamente confortável e o respeito ao disco enquanto criação artística, dissecado em reportagem do site antes e debatido depois da audição.

Talvez seja nerd, talvez seja respeitoso. Não há exemplo melhor do que o Nick Horny disse ali em cima. Penso que se tivesse algo parecido em São Paulo, eu iria. Seria como ir ao cinema, só que mais barato – pelo menos na gringa. No evento em Nova Iorque o evento custa U$10.

E aqui? Você iria pra ouvir o que? Pagando quanto?