Prosa

Tatuagem de viagem: SXSW 2011

Tatuagem de viagem não é que nem tatuagem de verão, aquela feita na praia durante as férias. Mas pode ser. Também pode ser uma tatuagem que lembre um momento ou local especial, que mencione seu desejo de estrada, que escancare uma lição aprendida ou marque os locais por onde passou, que nem esse cara.

Eu tenho uma.

Era comecinho de 2011 e eu tinha acabado de estrear como VJ da MTV Brasil no finado (saudoso, cool, incompreendido, à frente de seu tempo, etc) Goo. Nosso primeiro assignment sério, foi cobrir o South by Southwest no Texas. Embarcamos dois dias antes do programa estrear. Na verdade isso rolou porque eu já tinha a viagem marcada antes de aceitar o emprego na emissora, e daí convenci a chefia a mandar alguém comigo pra fazer a cobertura. Tinha tudo a ver.

Só que eles acharam que a gente tava indo entrevistar os Strokes ou o Queens of the Stone Age e a gente sequer considerou ver esse tipo de show. No lugar, voltamos com entrevistas feitas em becos escuros, subsolos de botecos e ruas barulhentas com artistas desconhecidos, frequentemente chapados, às vezes bêbados. Na primeira entrevista, com o menino do Toro y Moi, me perdi da diretora/câmera/roteirista/produtora do Goo, a Mari Metri. Quando nos reencontramos, ela lembrou que tinha esquecido o microfone. Essa noite terminou com a gente descansando debaixo de uma mesa de um puteiro em Austin, esperando acabar o show do Har Mar Superstar.

Em resumo: foi legal pra caralho.

Enfim, a viagem durou uma semana e foi meu batismo na televisão – a Mari já trabalhava com TV faz tempo, mas para mim era tudo novo. E no meio do caminho achei que essa viagem, diferente das outras, tinha que ficar registrada. Acordei decidida, tomei café-da-manhã rápido no restaurante tailandês da 6th Street (já era hora de almoço e eu gosto muito daquele café tailandês com leite condensado) e esperei sentada na frente de um estúdio com aparência famosa/popular onde tinha marcado hora. Esperei por umas duas horas até o tatuador aparecer. Só que ele não topou minha idéia. “That’s not what I do, sorry”. Achei meio fresco mas, tá, é a arte do cara. Só achei dispensável ele me deixar esperando pra depois dizer que “tinha um padrão para manter”.

O centro nervoso de Austin durante o SXSW é o lugar ideal para satisfazer impulsos dos quais você vai se arrepender mais tarde (tipo assistir a uma batalha de piano madrugada adentro numa noite de São Patrício, mas isso é outra história) de forma que decidi caminhar até achar outro estúdio. E encontrei rapidamente o que precisava: um estúdio no segundo andar de um galpão, vazio, com um tatuador sem frescura que não questionou minha escolha.

Escolhemos o tipo de letra, ele acertou a posição e fomos em frente, conversando sobre filmes do John Wayne, o que ele conhecia do Brasil e porque o churrasco texano é o melhor dos EUA (infelizmente não provei). Levou tipo uma hora.

Ficou assim.

Fresquinha!

Fresquinha!

Meio grande a letra, né? Engraçado que lembro de me arrepender antes mesmo da agulha encostar na pele. E fui em frente mesmo assim.

Hoje enxergo que é uma das minhas únicas tatuagens com significado afetivo. A viagem pra Austin em 2011 foi um momento de transição. Além das boas lembranças (ver shows, entrevistar bandas, fazer amigos, almoçar caranguejo bebendo cerveja Blue Moon com a Mari na beira de um rio, ver os morcegos de Austin) também foi quando deixei definitivamente pra trás pesos emocionais que carregava há anos.

Acho que também foi aí que relaxei com as tatuagens toscas que carrego. Afinal, você tem que saber conviver com seus erros.