Prosa, São Paulo

Uma temporada em São Paulo

No começo do ano fiz um combinado comigo mesma de ficar em São Paulo um semestre. Estava vindo de dois anos de viagens curtas quase seguidas que resultaram em boas histórias, mas também em distância dos amigos, situação financeira em penúria, uma casa sem vida e um gato morto. Ok, talvez nem tudo isso tenha a ver com minhas viagens, mas de fato estava me sentindo desconectada da minha cidade. Bastante consciente de que São Paulo está a milhão, a cidade que nunca dorme, mil coisas acontecendo, sim. Mas sem viver nada disso, por que cada vez que voltava pra cá queria ficar quieta no meu canto e tentar resolver algumas das pendências que estavam sempre se arrastando, tipo consertar a máquina de lavar roupa (done!) e o forno (not yet, mas chego lá). Via no Instagram as pessoas em festas de rua, em protestos, fazendo piqueniques e reinaugurando lugares que foram parte da minha vida, tipo o Belas Artes. Ser social estava difícil, mas faltava a tal da conexão e para reativa-la eu ia ter que ficar por aqui.

E fiquei. Tirando uma viagem rápida a trabalho no começo desse mês, fiquei em São Paulo o tempo todo. Tomei cafés com amigas e amigos que não via faz tempo. Visitei museus que não conhecia. Peguei metrô pras zonas Norte e Leste e, principalmente, redescobri o bairro onde cresci e onde decidi voltar a morar. Descobri que, apesar da Vila Madalena de hoje ter pub crawl anunciado em site de compra coletiva, ainda tem a padaria, a mercearia e os mesmos caminhos que eu percorria quando era criança. Transformei minha vida neo-paulistana em trabalho e escrevi um punhado de guias de São Paulo e passei pela inevitável fase de comparar São Paulo com outras partes do mundo.

Os problemas de São Paulo não são exclusividade da cidade. Gente escrota que passa por cima da faixa de pedestres sem ver, que joga lixo pela janela do ônibus, que leva o cachorro pra fazer cocô na rua e não recolhe – esse tipinho tem no mundo todo, certeza. Também tenho me espantado com coisas como uma gente segurando cartazes “contra a islamização do Brasil” domingo passado na frente da FIESP. Mas, de novo, não é exclusividade paulistana.

Nessas férias de julho não deu pra levar meu filho pra viajar. Ele ficou emburrado, mas no domingo consegui arrasta-lo pra fora de casa, Vimos O Menino e o Mundo de manhã no cinema com bancos de carros antigos, comemos bolinhos de polvo na Paulista, tomei café, andamos até o centro velho, vimos o Mosteiro de São Bento e almoçamos tarde numa festa de rua que estava rolando no Anhangabaú, com barracas de antiguidades e artesanato, o Tahira tocando, um monte de mudas de plantas e oficina de lambe, onde encontrei o food truck de uma família colombiana que mora aqui perto de casa e faz churrasco de costela de porco. Voltamos pra casa via República, vendo o sol ir embora e o frio tomando conta – um dia típico de São Paulo no inverno, só que muito mais vivo do que eu sentia há tempos. Também não é exclusividade paulistana a cidade ficar ótima em dias ensolarados de inverno, mais bonita quando tem gente fazendo piquenique em praça, mais saudável quando não tem tanto carro.

No mesmo dia tinha um evento gigante de anime (dá um desconto, tenho filho na idade de gostar dessas coisas), um festival japonês na Liberdade, o Minhocão cheio, um evento musical bem bacana de uma marca de whisky, o Parque Madalena, a Feira Delas, a Paca Polaca vendendo varenikes no Armazem do Tibiriçá.

Tudo isso pra dizer duas coisas: tô indo viajar e tô feliz porque, bom, vou viajar (a quem interessar possa: Portugal e Espanha com o 3 Travel Bloggers) Mas também tô meio chateada porque vou perder coisas super legais que vão acontecer em São Paulo nas próximas semanas, como o Fora da Casinha e a Casa TPM (que, diga-se, é de graça). Mas na volta tem muita coisa legal pra acontecer. Ah, se tem.

Imagem do destaque: ladrilhos de São Paulo via Shutterstock.