Prosa, Viagem

Trabalhar viajando: seis perguntas e respostas

Girl Airplane por Sofia Sforza via Unsplash

Existe uma ideia errada em volta dessa coisa de trabalhar viajando. Uma conhecida perguntou ontem por email. “Mas você arruma patrocínio pra viajar?” E emendou com “me chama se pintar uma vaga?”.

Expliquei que, olha, não é bem assim, não. Mas tudo bem. Não é a primeira ou última vez que alguém vendo de fora não entendeu o que faço. Vou tentar explicar.

Quem paga a viagem?

Depende. Depende mesmo. Depende de muitas coisas. Às vezes sou eu, usando dinheiro que recebi por algum trabalho e que deveria guardar mas acabo investindo em viagem. Às vezes é o bureau de turismo de algum lugar (como essa campanha do Kerala) ou uma companhia específica ( como essa ação da Eurail). Às vezes, ainda, a viagem é parte de um projeto maior (como o 3 Travel Bloggers) e quem faz acontecer a combinação mágica de passagens, estadia, refeições e passeios é uma produtora e sou só contratada.

Mas você viaja o tempo todo?

Não. Aliás, não saio de São Paulo há cinco meses e minha última viagem foi uma viagem pessoal, sem nenhuma obrigação de publicar nada, tipo férias de verdade. Dá pra trabalhar-viajar o tempo todo, claro. Conheço gente que vive na estrada. Mas a minha vida não é assim.

E como faz pra viajar também?

Trabalhar viajando é uma mistura de contatos, moeda de troca e jogo de cintura. Você pode criar seu próprio blog (ou canal de vídeos, ou revista impressa) e abordar as empresas (bureaus de turismo, hotéis, companhias aéreas, operadores de tours) oferecendo algo em troca da viagem, ou parte dela. Se soa complicado é porque é mesmo. Mas tem gente fazendo isso com diferentes níveis de sucesso há bastante tempo, tanto no Brasil quanto na gringa.

A primeira coisa a perguntar é: por que uma empresa gastaria dinheiro para levar VOCÊ para qualquer lugar? A resposta pode ser seu site super legal, suas fotografias especiais, seus vídeos de viagens incríveis, seu sucesso nas redes sociais, sua capacidade de influenciar vendas diretas ou algo mais que não consigo imaginar. A única resposta que não vale é nenhuma circunstância é “porque adoro viajar”. Todo mundo adora viajar, mas ninguém ganha passagem de avião, pernoite em hotel e passeio em locais distantes só porque adora viajar. O que caracteriza trabalho é que exista uma troca. Trabalhar viajando é trabalho, sim. Até porque você não está decidindo o que vai ver, onde vai comer ou quantas horas vai dormir. Às vezes você não está decidindo direito nem o que vai dizer.

Claro que existem trabalhos piores, mas se você não dá conta de lidar com a frustração de chegar num hotel espetacular no pé de uma cadeia de montanhas na África do Sul para dormir quatro horas e não poder curtir o lugar porque precisa encarar outra viagem de seis horas na van sem wi-fi rumo ao próximo ponto no mapa, esse trabalho não é pra você. Como em outros trabalhos você também precisa se comportar bem e mostrar serviço, seja fazendo fotos bonitas no Instagram com a hashtag certa ou posts de blog interessantes, bem pesquisados e bem escritos (muitas vezes durante a viagem).

Também é importante dizer que dentro desse universo não existe só blog. Existe reportagem, fotografia, vídeo, autoria de guias, a possibilidade de ser agente, consultor ou guia de viagem. Viagem é um dos maiores mercados do mundo e as possibilidades são imensas.

Então a segunda pergunta importante é: além de viajar, o que exatamente você vai fazer? Se você ainda não sabe, tudo bem. Tem gente pra te ajudar a descobrir.

Por onde começo?

Existem cursos de travel blogging que prometem ensinar como faz pra “chegar lá” nesse mundo. Três dos mais conhecidos são Matador U, Nomadic Matt e Travel Blogging Sucess. Todos tem especializações como travel guide writing ou captação e edição de vídeo. Sempre vão falar sobre conferências importantes e best practices da indústria, dar vários toques importantes e uma idéia mais clara do que é preciso para viajar trabalhando.

O que nenhum curso vai fazer é trabalhar por você. Não adianta pagar os doze módulos do curso de travel video da Matador e depois subir no Youtube meia dúzia de vídeos mequetrefes da sua viagem pra Minas Gerais e deixar por isso mesmo. Para se destacar, acredite, você precisa estar fazendo algo bom. Não acontece da noite pro dia e envolve uma boa dose de frustração. Não estou falando de equipamento caro, mas de dedicação, tempo, profissionalismo, paciência, tentativa e erro.

Ué, não tem curso em português?

Primeiro que se você não entende inglês o suficiente pra fazer curso online não deveria estar considerando uma vida de profissional de viagem. Inglês é a língua comum. É o mínimo. Vai numa Cultura Inglesa da vida e resolve.

Dito isso, conheço dois cursos em português que são específicos: um focado em jornalismo (do Daniel Nunes na Cásper Líbero, siga no Facebook para ficar sabendo de próximos) e outro em escrita (dO Viajante). Se alguém conhece outros e quiser compartilhar, agradeço.

Acredito que tem mercado para curso de travel blogging aqui no Brasil, sim. Até porque o problema desses cursos gringos não é a língua, mas o fato de que atuam num mercado muito diferente do nosso. Mais um motivo pra pensar bem antes de investir U$600 na matrícula.

Mas Você Vai Sozinha? ;)

Normalmente, não. Press trip é algo organizado para uma equipe. Adoro isso porque acabo conhecendo uma porrada de gente. Pra viajar sozinha, fazendo o que estiver a fim de fazer, sem compromisso de registrar tudo, vivendo o sonho de conhecer o mundo e escrever sobre ele, por enquanto não encontrei solução mais eficiente do que trabalhar para pagar a viagem. Pena que não dá pra fazer sempre.

Resumo

Existem muitos posts que vão tentar te convencer de que é possível viver de viajar. Não duvido da honestidade de deles, mas só posso falar por mim e minha realidade não é essa. A minha vida não é nem parecida com isso. Minha rotina é acordar diariamente por volta das seis e meia e lidar com os trabalhos que pagam as minhas contas, alguns meio chatos tipo redigir publi-post como ghost writer pra outros bloggers mais famosos.

Estou reclamando? Um pouco. Como todo mundo, gostaria que o mercado pagasse mais. Gostaria de ter mais ofertas. Gostaria pelo menos de uma situação mais estável. Gostaria que alguém batesse na minha porta e falasse “você é brilhante, vem aqui que vou te pagar para viver a vida que merece”. Mas não me engano. Tenho o imenso privilégio de fazer o que escolhi e de vez em quando essa escolha me leva a viajar para algum lugar incrível na companhia de pessoas legais e é ótimo.

Só não é “living the dream”.

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foto do destaque: Sofia Sforza via Unsplash