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O vento, o condor e a bandeira da Isla Navarino

Olhei de cima da colina na direção do Cabo Horn. Por causa do vento era impossível falar, quanto mais gravar uma mensagem pra alguém. As luvas impediam o toque no teclado e sem elas minhas mãos ficariam roxas em dois minutos. Por que tanta vontade de entrar em contato com alguém, afinal? Ali não era, geograficamente falando, o lugar mais distante onde já tinha chegado. Estava na mesma América do Sul, num país vizinho ao meu. Mas tudo na Isla Navarino dava sensação de estar o mais longe possível de casa, das pessoas, dos problemas, dos amores. E eu queria repartir.

A subida tinha sido puxada. O Cerro Bandera, definido por uma bandeira chilena destruída pela força do vento, é a primeira parada na trilha do circuito Dientes de Nazarino, no extremo sul do continente. Os “dentes” são formações rochosas com quase 1200 metros de altura que de longe parecem enormes caninos saindo da terra, daí o nome. Ao redor deles, entre o Cabo Horn e os fiordes da Patagônia, na ilha Nazarino, fica o circuito de trekking mais austral do mundo, que é um dos menos visitados também: a Ruta Patrimonial Circuito Dientes de Navarino, que leva cinco dias para ser completada.

Isla Navarino: Cabo de Hornos

Cabo Horn visto da trilha do bosque de lengas, primeira etapa do Circuito Dientes de Navarino. À direita está Puerto Williams.

A viagem entre  Ushuaia e Puerto Williams, o povoado mais austral do mundo (essa coisa de “mais austral do mundo” está em todo lugar no extremo sul do mundo), base militar e ponto de chegada e partida de cargueiros e visitantes nesse pedaço isolado do mundo, levou cerca de quatro horas. Cheguei numa pequena embarcação com um casal francês que ia fazer o circuito dali uns dias, um aventureiro portenho que ia acampar nas montanhas e uma moça argentina, de Córdoba, que estava indo visitar a prima

Eu estava na Patagônia há uma semana e tinha outra semana inteira pela frente, eu e minha mochila, mas foi na Isla Navarino que a sensação de isolamento começou a bater. Talvez tenha vindo de um escorregão que tomei na trilha de subida, dentro de um bosque de árvores magricelas (as “lengas”) com folhas de amarelo berrante por causa do outono. O ar gelado me esgotou rapidamente e a subida puxada me lembrou que não tenho mais a velocidade de quando fazia trilhas Brasil afora aos vinte e poucos anos. Mas fui em frente, despacito, um passo de cada vez.

Fazer o circuito inteiro nunca esteve nos meus planos. Estava em Puerto Williams para riscar da lista o item “estar no extremo sul da América” e para pegar lugar num pequeno cargueiro que subiria de volta pelos fiordes até Puerto Natales. Fazer o circuito inteiro não é especialmente difícil, mas requer organização e preparo. Eu não tinha nada disso e planejei apenas subir até o Cerro Bandera e ver até onde conseguia chegar.

A trilha era bem mais íngreme do que eu pensava e numa curva dentro do bosque, num trecho molhado por causa de uma fonte de água próxima, escorreguei. Não foi uma queda preocupante. Mas foi suficiente para arrancar a pele nova da minha queimadura da mão direita, causada pela água para passar café ainda em Ushuaia, dias antes, um incômodo que me acompanharia em toda a viagem e chegaria em São Paulo, mas que estava cicatrizando bem. O machucado não era nada perto da neurose. Eu poderia escorregar morro abaixo e ninguém saberia onde eu estava. Minha família, que eu sempre aviso onde vou e quando volto, levaria dias para saber onde eu tinha parado. Na região não há pumas ou animais peçonhentos, mas as aves de rapina são muitas e estão no céu o tempo todo. Estar sozinha na natureza significa ter algum medo dela. A natureza não liga se você esta com frio ou fome. Se você morrer de hipotermia por causa da imobilidade causada por um tornozelo torcido numa queda de trilha, a chance é que você vai servir de comida pra alguma outra coisa antes que te encontrem. A natureza não é boa nem má. Ela é prática. Ela te absorve, e é isso.

Claro que a chance de eu morrer no primeiro trecho de subida do circuito era mínima. Mas neurose quando bate é pra ficar. A partir dali tudo parecia perigoso, mesmo que esse fosse o trecho adequado para famílias com crianças durante durante o verão. Claro que teria mais gente passando por ali. Claro que o Chile tem um sistema de parques nacionais seguro e organizado. Claro que eu tinha deixado meu nome no livro de registro no início da trilha, dizendo quando e até onde iria. Mas essas coisas não passam na cabeça quando você sente medo e está viajando sem ninguém do lado, por mais que os muitos artigos tipo “porque você deve viajar sozinha” não falem do assunto.

Então, no alto do Cerro Bandera, diante da vastidão e isolamento do Cabo Horn e com a cadeia dos Dientes de Navarino atrás de mim, senti primeiro medo, depois cansaço e então uma vontade louca de compartilhar o momento com alguém. Daí relaxei e sentei numa murada de madeira feita para os turistas verem a vista, abri o saquinho plástico de “trail mix” que eu mesma vinha fazendo com castanhas encontradas em lojas pelo caminho e tirei da mochila meu prêmio da tarde: uma garrafa pequena de vinho tinto traficado desde a fronteira argentina. “Vino del Fin del Mundo”. Apropriado.

Um condor passou ao longe e ficou parado no ar. Perto o suficiente para que eu pudesse ver.  Não assustei porque com uma semana de Patagônia eu já tinha estado perto de aves o suficiente para não temer ataques. O vento congelava o condor no ar na minha frente, sobre o Cabo de Hornos, e pensei se ele estaria me vendo de longe, se estaria considerando se sou comestível, se estaria sentindo cheiro das frutas secas. Mas ele só retomou o voo e passou sobre o canal, indo para as montanhas do outro lado, onde eu não chegaria. Ir até lá requeria roupas quentes, sapatos de neve, talvez um bastão de caminhada, algum tipo de abrigo e comida suficiente, além de pernas fortes, capazes de levar por dentro da trilha que circunda as colinas e desce até a beira de um lago e sobe de novo na direção de uma passagem e finalmente atravessa a cadeia de dentes.

O mapa que consegui na única loja de artigos de esporte de aventura de Puerto Williams mostra que havia paradas de banho e espaço para camping. O guia Lonely Planet da Patagônia conta que ali estavam algumas das mais belas e selvagens paisagens naturais do Chile (e isso, num país que tem a Ilha de Páscoa e o Deserto do Atacama e o maior trecho de Cordilheira dos Andes do planeta, é muita coisa) e que esse é um circuito jovem e ainda pouco visitado. Uma reportagem online que encontrei dias antes indicou o Dientes de Navarino como o próximo big thing do trekking mundial, mas as informações sobre como atravessa-lo ainda eram desencontradas o suficiente para parecer verdade que pouca gente se arriscava.

Isla Navarino: base de fronteira

Puerto Navarino: base de entrada na ilha.

A viagem ate aqui não tinha sido perigosa, mas tampouco tinha sido fácil. Só consegui informações sobre como atravessar de Ushuaia para Puerto Williams quando cheguei na cidadezinha argentina. A viagem, que na prática é só uma travessia de canal, tinha levado quatro horas por causa dos complicados trâmites burocráticos entre os dois países. Começou no posto marítimo de Ushuaia, onde os turistas que saem para travessias no canal têm seus passaportes carimbados. Depois de uma longa fila e espera, embarcamos e atravessamos o canal até Puerto Navarino, que é apenas um posto de fronteira bucólico, uma casinha branca e vermelha na beira de uma praia de águas azuis e vento ensurdecedor. Dali foram mais duas horas dentro de uma van até Puerto Williams, tornadas fáceis de aguentar por causa da estrada decente, das cuias de mate dos argentinos e do cenário de bosques em etapa de renascimento, uma vitória dos chilenos da ilha que conseguiram, após décadas, expulsar os castores trazidos por europeus.

Na paisagem ainda havia as cabras, que se usa para lã, leite e abate, e os cachorros, que as famílias do assentamento militar trazem quando vem viver aqui e não levam quando vão embora. Esses se tornam cães peludos, de aparência selvagem, que vivem soltos ao redor da cidade e não raro acabam nas florestas. 

Mas ali no Navarino não encontrei cão algum. Era só eu e o condor, e foi por inveja dele e de sua facilidade em ver tudo que eu precisaria de transporte, equipamento, tempo e preparo físico para ver, que decidi seguir a trilha até onde pudesse, dentro da razoabilidade.Pode ter sido o vinho na corrente sanguínea, a energia do contato com a natureza, a renovada fé na minha capacidade física, o deslumbre com a beleza ao redor ou até mesmo uma vontade de imitar o do condor, que seguia fazendo suas rotas no céu acima de mim, indo e voltando. Marquei o horário: onde quer que eu estivesse, precisava que começar a descida assim que o relógio desse 16h, pra ter pelo menos mais duas horas de claridade.

Em menos de meia hora eu já não via mais trilha alguma e não adiantou procurar em mapa nem ligar o GSP do celular. Ali eram apenas colinas em sequência, a promessa de neve há alguns metros, a cadeia dos Dientes parecendo muito mais perto do que realmente é, e a descida rumo ao bosque de folhas amarelas do outro. Trilha visível, não. O que havia eram “mariolas”, pequenos amontoados de pedra que trilheiros usam para marcar caminho. Foi isso que  segui, sempre encontrando o próximo e olhando para trás para registrar mentalmente o anterior. Segui uns dez montinhos e uma hora eu não via mais a bandeira estraçalhada pelo vento do Cerro Bandera e nem o floresta de folhas amarelas e mesmo o trecho de mar do Cabo Horn parecia distante. Quando fiz uma curva e o vento inacreditavelmente parou, o que eu tinha a frente era o começo de outra trilha, descendo na direção de um vale e um lago, prometendo acesso até a passagem por entre os Dientes.

Isla Navarino: Dientes de Navarino

Isla Navarino: mariolas e Dientes de Navarino

Viajar solo tem essa coisa de decisão que você precisa bancar. Não há com quem discutir as coisas. Eu podia, claro, decidir ir em frente na trilha e andar até o momento em que achasse adequado. Depois dos momentos de confusão, registrando as mariolas e subindo colinas, uma trilha bem marcada era um alívio e um convite. Mas até onde valeria a pena seguir? E por quanto tempo? Sentei ao lado de um monte de pedra e pensei em mudar o caminho, caminhar pelas colinas até onde ele faziam divisa com a neve. Pensei em andar trilha adentro só pra tirar fotos e provar que fui. Pensei em abrir mão e começar a decida mais cedo – ainda faltava uma hora pra quatro da tarde.

Quem decidiu por mim foi o vento, que voltou carregando uma ocorrência comum das montanhas: a mudança de tempo. Levantei e olhei colina abaixo, enxergando o suficiente para perceber que as mariolas desapareciam pra dentro das nuvens. De novo, o medo. Não adiantou racionalizar que bastava andar sempre pra baixo que encontraria a floresta e, na margem dessa sempre para o sul, estaria a trilha. Não enxergar as colinas de repente tornou a descida urgente. Afundei o gorro na cabeça, botei a mochila de volta nas costas e apertei o passo, um pé após o outro esmagando a grama. Sem enxergar os montes de pedra, restava meu senso de direção, então aguçadíssimo pela urgência real ou inventada da situação.

Levei menos de vinte minutos para reencontrar o Cerro Bandera e o banco onde eu tinha bebido vinho e admirado o condor, que agora devia estar voando num lugar com céu azul. E olhando pra baixo na colina vi o primeiro ser humano em, sei lá, oito horas. É engraçado como a gente se alegra por encontrar outra pessoa numa situação assim. Eu nem pensei em quem era, simplesmente berrei um OE de longe. A pessoa olhou e acenou de volta com as duas mãos. O que se seguiu foi uma das cenas mais memoráveis de minhas andanças sozinhas: dois estranhos correndo um na direção do outro no descampado ao redor da bandeira como numa cena de filme romântico. Mais perto eu reconheci, era o moço argentino que tinha vindo comigo na van. Paramos de correr quando estávamos há meio metro um do outro, os dois um pouco sem graça. Ele explicou que tinha levado horas para subir a trilha pela floresta, que não imaginava que fosse tão íngreme, por causa do peso da mochila com o equipamento necessário para a travessia completa. E me deu um tapinha no ombro, sorrindo e dizendo como estava feliz de encontrar uma companhia para a trilha.

Mas meu plano continuava sendo pegar o cargueiro na direção dos fiordes dali um dia ou dois.

Foto do destaque: Isla Navarino por  Michal Knitl via Shutterstock.
As outras fotos do post são minhas.